A História de um Xamã
15:04 @ 13/02/2006
Dias atrás eu tive um sonho. Estava deitado e ao meu redor um velho
índio declamava cânticos em um idioma ininteligível. Às vezes, dava-me
um líquido para beber, uma espécie de chá amargo, mas que doce era ao
meu espírito.
Meu corpo levitava. Lentamente, comecei a entender o
sentido das palavras do índio que estava ao meu redor. Com olhar fixo,
ele disse que me contaria a história do mundo.
Eu não falava.
“Imagine a poeira. As partículas vagam pelo ar entre os séculos e
juntam-se formando mais e mais poeira. As pessoas limpam com a ilusão
que ela não estará mais lá, mas sempre haverá a poeira”, disse.
“Uma
vez, há muitos séculos, o vento fez vagar a poeira entre os mares, e
aqui chegou, em nossa quente terra. O inacreditável aconteceu, como
acontecera tantas outras vezes na história do mundo. Acredite, a poeira
que atravessou os mares varreu tudo o que por aqui havia. A terra
sangrava e ainda hoje sangra”. 
Eu chorava. Implorava ao Xamã que
se calasse. Terríveis imagens do passado e do presente. Suas palavras
cegavam meus olhos. “Silêncio!”, ordenou “Não há mais volta agora”.
Sua
mão pousou sobre minha testa. Eu estava febril . “Nada mudou. A sagrada
profecia diz que a poeira continuará dizimando a si mesma, entre a
terra e o concreto. O sangue escorrerá pelo concreto extinguindo tudo
ao seu redor. Esta é a humanidade?”
O despertador tocou. Levantei e
assustado fui lavar-me. Tomo meu café, mais um dia, entre tantos de
minha vida. Pego o jornal e o coloco à mesa para uma breve leitura.
Leio a notícia de mais mortes de moradores de rua no centro de São
Paulo.
A imagem do índio nunca visto volta-me a memória, assim
como suas palavras. Pela janela ergue-se uma paisagem cinza. Os carros
passam e o meu coração dispara. Dor. Eu tão consciente de mim mesmo,
ignorava minha miséria. Olhei o espelho e não vi minha própria imagem.
Volto à janela e tudo está como a profecia xamã em meu sonho. Do pó ao
pó, a caminho do zero. Fechei os olhos. Acordado, eu ainda sonhava.
Comentários
(17:03 @ 13/02/2006) Mari disse:
Nos sonhos, recebemos as mais doces ou tristes notícias. Muitas vezes não acreditamos, mas o tempo e a vida nos mostram que tudo isso está realmente chegando ao fim e que devemos correr contra o tempo para realizar nossos maiores objetivos! Parabéns pelo texto Rô
(20:39 @ 13/02/2006) Adriana disse:
Rô, você bulinou com tóxicos antes de escrever esse texto??? Risos. Brincadeira. Apesar de sombrio, gostei. Mas prefiro coisas mais doces. Beijos
(20:46 @ 13/02/2006) Bi disse:
Do pó ao pó....isso tá meio suspeito, concordo com a Di....rs! Mas esse texto maluko só poderia ter saído de uma mente pirada! Gostei do texto ... Meio despirocado...tem sentido! Parabéns trank''s, amigo cogumelo! kkkkkkkkkk
(20:59 @ 13/02/2006) Chelzinha disse:
é.poeira sempre existe. não tem como joga-la para debaixo do tapete. devemos lembrar disso nas próximas eleições por exemplo. tentaram esconder a poeira. mas aconteceu o inesperado. bom texto! beijos