'Não existe classes regulares, nem horários, muito menos avaliações'
'Aqui em Salvador, estamos desenvolvendo uma proposta educacional libertária no bairro de Valéria, inspirada nos modelos autogestionários e fortemente preocupada com a questão ambiental. Lutamos pela criação de uma escola viva, ao ar livre, junto à natureza, mas perto dos livros, tendo como princípio a solidariedade, a liberdade e o livre-pensar. Uma escola sem currículos pré-definidos, sem avaliações, sem autoritarismo. Uma escola para quem queira estudar, sem pressa, sem horários e entenda que é preciso respeitar a natureza e o ser humano'. Quem diz isso é Eduardo Nunes, que atua no projeto 'Escola e Biblioteca Comunitária Professor José Oiticica'. A seguir, ele fala sobre essa iniciativa de inspiração libertária que funciona desde 2005, em Salvador (Bahia).
Agência de Notícias Anarquistas > Quando se deu a criação da Escola e Biblioteca Comunitária Professor José Oiticica? Faça um pequeno histórico dela...
Eduardo Nunes < A biblioteca funciona desde 2005. A escola funciona desde 1971 quando chegou Antonio Fernandes Mendes e sua família no bairro de Valéria. Antonio, fugiu do Ceará na época da ditadura militar no Brasil para não ser preso, devido as suas atividades políticas, clandestinas, foi para o sul do Brasil (Paraná), em seguida, foi para o Rio e fez contato com o movimento anarquista no Rio de Janeiro. Do Rio viajou para Salvador com o nome de um anarquista da Bahia para contatos (Ricardo Líper). Chegando aqui se instalou no bairro de Valéria. Antonio pertence ao clã de Antonio Conselheiro, ecologista e anarquista, foi recuperando a área onde residia com espécies nativas. Desse trabalho, em 1978, ele e um grupo de estudantes anarquistas começaram a implantar uma horta, resultando na criação da Escola Horta Natureza, realizando cursos de agricultura orgânica, agrofloresta e ecologia. A horta abastecia vários restaurantes naturais de Salvador. Ao lado disso, ele realizava uma intensa militância nos meios sindicais e estudantis, foi um dos fundadores do jornal O Inimigo do Rei. A horta como ficou conhecida, recebia e recebe crianças, jovens e adultos, realiza cursos, reuniões, boletins, grupos de teatro no bairro, exibição de filmes. Antonio além do profundo conhecimento da natureza conhece os segredos da medicina natural, da fitoterapia.
ANA > Então essa escola também tem uma base ecologista, certo?
Eduardo < Ela é essencialmente ecologista social. Há uma preocupação muito grande em mostrar para as pessoas que freqüentam a escola de que devemos preservar as coisas boas do lugar, a natureza, os rios, as montanhas, as árvores, pois, sem elas não vivemos. Evitar a poluição e a depredação do nosso patrimônio ambiental e cultural. A escola ecológica luta pela justiça social e a preservação ambiental. Questionamos o modelo industrial capitalista e a forma de organização social e política atual. Propomos um modelo de sustentabilidade ao lado da descentralização política, gestão por bairros.
ANA > E José Oiticica é uma homenagem ao anarquista Oiticica?
Eduardo < É sim, a importância do anarquista José Oiticica em diversos campos do conhecimento e sua atuação política com as idéias anarquistas motivou o grupo a denominar a biblioteca com o seu nome.
ANA > Onde ela funciona?
Eduardo < No bairro de Valéria, subúrbio de Salvador, Bahia.
ANA > E como é a logística da escola, o espaço...
Eduardo < Temos uma área verde com muitas espécies nativas (Oiti, Ipê, Araticum, Paineira), bambu, árvores frutíferas (Jaca, Abacate, Cacau, Manga, Sapoti, Pitanga, Acerola, Mamão), plantas medicinais (Água de Levante, Tapete de Oxalá, Língua de Vaca, Gengibre, Babosa) plantas consideradas sagradas pelo candomblé, entre outras. Temos o espaço da biblioteca com livros infantis, literatura para jovens e adultos, livros escolares da 1ª a 8ª séries, módulos de pré-vestibulares, livros especializados em anarquismo, história, agricultura orgânica, jornais anarquistas.
ANA > E quem participa deste projeto?
Eduardo < Participam moradores do bairro, crianças, jovens, adultos, alunos de escolas públicas, de universidades, professores. Está aberta a todos que queiram colaborar, trocar experiências.
ANA > Todos são alunos e professores ao mesmo tempo, aprendendo e desaprendendo juntos?
Eduardo < Todos nós estamos sempre aprendendo, dos mais jovens aos mais velhos, fazemos errado, fazemos certo, esquecemos os nomes das plantas e das propriedades medicinais, aprendemos a fazer mudas, plantamos, cultivamos, tomamos banho de tanque. Esse tanque é o grande atrativo dos jovens do bairro, como não têm áreas de lazer, o tanque serve para aprender a nadar, diversão, refrescar. Porém, antes de tomarem banho devem praticar alguma coisa, ou ler algo na biblioteca.
ANA > A escola funciona todos os dias? Há classes regulares, matérias... Fale um pouco da dinâmica dela, essas coisas...
Eduardo < Funciona todos os dias, está sempre aberta, não existe classes regulares, nem horários, muito menos avaliações. Como é um local de visitação pública, basta chamar alguém, sendo recebido com todo carinho possível. Chegando lá, a pessoa pode se engajar em alguma atividade que esteja sendo desenvolvida no momento, pode também propor alguma coisa, ou ir pesquisar os livros da biblioteca. Em geral, há sempre coisas para se fazer, cercas, adubo, plantio, catar plásticos, fazer mandalas produtivas medicinais, coletar frutos. É uma escola viva, cada um vai aprendendo o que se tem em cada momento, sempre relacionamos, as questões sociais, a exploração do trabalhador, o desemprego, as drogas. Na escola discute-se sobre tudo. Recebemos alunos das escolas públicas do bairro, acompanhados de suas professoras e do amigo da escola, 40 a 50 alunos, vão em um turno, falamos dos problemas ambientais, de saúde, de política, e realizamos coisas práticas, aprendem a conhecer uma árvore, a importância para alimentação, para a saúde. As crianças e jovens do bairro participam da escola e da biblioteca, estão sempre presentes para tomar banho no tanque ou comer frutas.
ANA > O Estado reconhece a escola? Como é essa coisa da burocracia estatal, ou vocês não estão nem aí com a legalidade da escola?
Eduardo < Alunos das escolas públicas freqüentam, professores e técnicos de instituições públicas também freqüentam. Já realizamos apresentações públicas organizadas pela biblioteca da universidade federal e a prefeitura da cidade. Participamos de reuniões com órgãos públicos para discutir ações de preservação ambiental. No momento estamos numa luta para a preservação da bacia do rio Coruripe junto com associações de moradores. Temos um Instituto que está em via de registro público para realização de projetos. Entendemos que o Estado gasta dinheiro com sua própria burocracia, remunera seus funcionários e privilegia quase sempre os interesses dos grupos econômicos, mas se pudermos encaminhar propostas para que eles apóiem nossos trabalhos, não vejo nenhum problema nisso, apenas, creio que é sempre difícil conseguir algo dessa instituição, assim como dos empresários locais. Às vezes o pequeno comerciante apóia nosso trabalho, enquanto o grande empresário não está nem aí. A Toshiba tem uma empresa ao lado de nossa escola, eles poderiam oferecer alguns computadores para a escola, mas atualmente estão brigando com os moradores porque compraram uma área onde já existia um pequeno campo de futebol que os moradores utilizam, eles construíram uma cerca, alguém derrubou, o conflito está instaurado, eles colocaram vigilantes. Está em negociação o uso do campo e de uma fonte de água (bica) que a população sempre utilizou, agora pertence a Toshiba. Aí eu pergunto e o protocolo de Kyoto, o que eles falam sobre isso? Atrás da Toshiba existe um bairro pobre, o que eles fazem por eles. É muito complicada essa relação. Os conflitos entre Estado, sociedade e as empresas é histórico. Precisamos mostrar nossa força.
ANA > O projeto é gratuito?
Eduardo < É gratuito, não cobramos nada para quem queira participar através de trocas e parcerias. No entanto, já realizamos cursos para adultos que têm empregos e condições de pagar. Para os jovens e crianças e adultos do bairro não cobramos nada, e se conseguirmos algum recurso através de companheiros ou por projetos institucionais, às vezes remuneramos as pessoas do local para desenvolver algumas atividades. O bairro possui uma população bastante pobre e, em geral, quem freqüenta, são pessoas que não têm empregos e seus filhos. Muitos deles, quando chegam estão com fome e as árvores e seus frutos amenizam a situação naquele momento.
ANA > Tiram dinheiro do próprio bolso para manter esse espaço anti-autoritário?
Eduardo < O dinheiro é tirado do bolso dos companheiros que apóiam o trabalho. Criamos o Instituto Socioambiental de Valéria, são mais de 20 integrantes, aqueles que podem colaboram com alguma quantia para a manutenção do espaço, compra de móveis e ferramentas, reformas etc. Tentamos a colaboração de doações de empresas instaladas no local.
ANA > Quando você fala em empresas, imagino que sejam esses pequenos comércios de bairros tão comuns pelo Brasil afora, não?
Eduardo < Exatamente, são pequenos mercados o de D. Daise, por exemplo, quase todo mês o mercadinho dela é assaltado, em dezembro foi assaltado 4 vezes, mas sempre está solidária com o instituto doando algum tipo de alimento, o depósito de ferro-velho (conseguimos como doação um arquivo de ferro), de uma madeireira pedaços de madeira para estantes, tabuletas, da padaria conseguimos a cinza da madeira que assa o pão. A cinza é muito importante para a agricultura.
ANA > Até agora qual tem sido o grande desafio deste projeto?
Eduardo < Melhorar as instalações da biblioteca e criar uma relação mais integrada com outros grupos e envolver mais pessoas do bairro. Já fizemos e mantemos boas relações com associações de moradores de bairros vizinhos e uma série de campanhas para a preservação do Parque São Bartolomeu.
ANA > E a satisfação dessa caminhada libertária...
Eduardo < É sempre nova, grande parte do grupo atuou nos movimentos sociais da década de 70, outros mais novos participam dessa jornada com muito entusiasmo. Há dificuldades, mas seguimos sonhando com o mundo mais justo e ambientalmente equilibrado.
ANA > E como podemos ajudá-los mesmo de longe?
Eduardo < Divulgando ou enviando doações para a nossa conta. Banco do Brasil. Igor Rodrigues Sant´Anna, Agência : 1599-7, Conta Corrente : 8.803-X.
ANA > Quer acrescentar algo para finalizar?
Eduardo < Vejo nossas ações muito ligadas ao local, a rua, o bairro, a cidade onde vivemos. A estratégia é procurar trocar experiências solidárias, comunitárias, propor novas formas de ação, novas práticas, sem autoritarismo, lutando por uma sociedade aqui e agora diferente dessa que vivenciamos, consumista, predadora e desumana. A liberdade se conquista com liberdade.
Contato:
Biblioteca Comunitária Prof. José Oiticica
Estrada da Valéria, 103-Valéria, Salvador - Ba
BR-324 km 11
CEP: 41300-600
institutovaleria@ig.com.br
agência de notícias anarquistas-ana
no canto da janela
nova linha do horizonte:
o fio da aranha.
Tânia Diniz