PORTÃO
18:39 @ 29/08/2008
PORTÃO
Eu também bato no portão,
Mas não me dás tua alma!
Só um amor flutuante;
Não me serve de consagração
Não enaltece o forte.
Que traz escrito no escudo rutilante.
“Minha amada morta,
meu verdadeiro amor é de teu porte”
Bate-me a porta, surge a pradaria;
Cai do luar a luz serena e pura;
O cavaleiro da honra, intimidado...
Não sonha mais com amor e aventura.
O portão se fecha em brumas envoltas,
Ele não se abre, para mim querida, nem com teu nome;
Deixe-me entrar em tua vida, pois sou bom moço,
Não se fechem teus ouvidos, não me dê tua costa;
Não feche teus olhos, não os feche para teu homem.
Portão da alma, portão do fogo,
Portão de quem ama, portão de esposa,
Conheces meu destino, conheces meu amor...
Por que não me permite contemplá-la?
Por que não a deixa amorosa?
Fita-lhe aqueles enamorados olhos,
Deixa-lhe com meu cheiro embriagada,
Diz pra ela: “Este é o cavaleiro protetor de tua guerra,
quando procuravas por ser amada”
Diz pra ela portão da mente, que sou dela o cavaleiro,
Um beijo peço como paga pela atenção vitoriosa,
Audaz por fim, com a moça adormecida.
Caso-me, portão, com a vida desejosa.
A vida dedicada que escolhi, portão,
A bela mulher linda que tive como consorte.
O destino que desejei ter na mão.
Portão você não abre, eu fico caladinho.
Finge o sono, o plácido desmaio,
Entre meus pesadelos minhas ruínas
Do inocente sonho, ao uivo do cão que enaltece.
Da vermelha lua ao doce e branco raio.
Do amor que peço: “Não se feche.”
Da negra rua, ao portão fechado no meu caminho.
Ele que não se abre!
Eu que não entro!
Nosso amor que não cresce!
Será “portão”, a doçura de um amor perdido.
A representação da bravura do que não é sentido?
Ou será “portão” a vida dura descarada.
Descrente de paixão por já ter sofrido,
Tanta desilusão, de quem perdeu a amada.
Ou será ainda “portão”, o desejo de felicidade,
Imposto pelo homem de verdade,
Quem nada além do sofrimento e da falsidade,
Pode esperar e receber da felicidade,
Essa tenra ilusão.
Que outra coisa poder ser?
Não pode.
Já que nunca existiu em sua visão
Já que nunca bebeu com vinho ou limão
Já que de noite não é com a amada que dorme
Então o que será “portão”?
Quiçá um louco desvairado
Noctâmbulo escritor de poemas, desesperado.
Alarmando um amor mentolado.
Chorando pela pele e cabelo já viciado?
Será portão, então...
A personagem mítico-criatória
Regente do sentimento e da paixão
Daquela mulher pelo poeta tão desejada
Cujo poder de resolução
Faria assim, do nada, ele por ela amada.
Ou cria eterno perdão.
Esta, claro, mantenedora de sua vida, solução.
Ou portão seria, inda...
A tampa de seu caixão
Selo retumbante de uma paixão finda.
A mãe protetora da filha safada!?
A Rosa triste maculada.
O espinho ensangüentado, carmim,
O jasmim, trigo, vendido por mim...
Cuja vida jurada, arrependida,
Correra ignorado risco outrora,
E este selo não se fecha?
Esta porta não se tranca?
É dele a passagem franca?
No portão se revela o parentesco.
As visitas e saudações
Do portão nascem os acenos das mãos.
As lágrimas e saias brancas.
Os desejos, calafrios e as marcas.
As costas frias,
Os apelos e chamados para entrar.
O abraço e a despedida
Tudo isto pode ser “portão”.
Mesmo batido, no chão, desgarrido.
Ainda assim é meu portão.
