Repassando
para REFLEXÃO
Abs
Serginho
Meus queridos, tenho pensado muito sobre como o modo de vida atual, fundado
no individualismo e no consumismo, tem colocado em risco a vida. Inclusive,
tenho pensado que a degradação de valores, a violência e a desvalorização da
vida humana, são frutos deste modo de vida. E o que é mais terrível, o sistema
se reproduz com isto, com estas profundas desigualdades sociais, com a
violência, com a solidão, com o desespero.
Quando estive na Itália conheci várias experiências de pessoas vivendo em
comunidades (não necessariamente territoriais, mas de idéias) que estão adotando
estilos de vida mais sóbrios, menos consumistas e têm consciência de que o
desenvolvimento do norte do mundo é fruto do sofrimento dos pobres do sul (não
de todos é claro! porque uma minoria daqui vive como os mais ricos de lá). E
para quê?
Os amigos da Itália que conheci falam de sobriedade (no estilo de vida
individual) e de decrescimento (no modelo de desenvolvimento da Europa). São minoria, mas fazem a diferença. E nós também podemos fazer
se tomarmos uma atitude em nossas vidas.
Em 2007, vamos pensar sobre isto.
O texto abaixo de Eduardo Galeano vale a pena ser lido.
Um grande abraço a todos e todas.
Ana
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17/01/2007
O IMPÉRIO DO CONSUMO
Eduardo Galeano
A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras
e mais algazarra do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco,
aquele que bebe a conta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o
olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no
espaço.
Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor,
porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a
festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos
quebrados que deve pagar. A expansão da demanda se choca com as fronteiras
impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez
mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo
tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias primas e
da força de trabalho humana. O sistema fala em nome de todos, dirige a todos
suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas
não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha
da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas
dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo
fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao
desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de
todos.
Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização
não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as
flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais
rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as
galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e
pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é
muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes,
ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e
mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente, o que não é
uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco
por cento da população mundial.
«Gente infeliz, essa que vive se
comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevidéu. A dor de já
não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem
pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz
um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro confirma, na cidade
dominicana de San Francisco de Macorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas.
Vivem comprando etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as
prestações».
Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da
rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala
gigantesca, impõe em todas partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta
ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer
ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz
seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O consumidor
exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com
qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica
The Lancet, na última década a «obesidade mórbida» aumentou quase 30%
entre a
população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças
norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo
pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O
país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat
free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do
carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha,
passa quatro horas por dia devorando comida plástica.
Vence o lixo
fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e
está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que vêm
de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e
diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos
fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de
identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo
fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do
hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala
mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com
sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca
a alma tem uma das suas portas.
A Copa do Mundo de futebol de 1998
confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os
músculos, que a Coca-Cola proporciona eterna juventude e que o cardápio do
McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do
McDonald´s dispara hambúrgueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta
inteiro. O duplo arco dessa M serviu como estandarte, durante a recente
conquista dos países do Leste Europeu.
As filas na frente do McDonald´s
de Moscou, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vitória do
Ocidente com tanta eloqüência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos
tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus
empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. O McDonald´s viola,
assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997,
alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram
sindicalizar-se em um restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou.
Mas, em 98, outros empregados do McDonald´s, em uma pequena cidade próxima a
Vancouver, conseguiram essa conquista, digna do Guinness.
As massas
consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu
aquilo que o esperanto quis e não pôde.
Qualquer um entende, em qualquer
lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os
gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres
bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se
tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas
muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra.
Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do
progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.
Pobres e ricos
conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos
ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os
especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a
solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia,
compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A
cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.
Os
buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer
isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de
ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de
classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor:
as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade
não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que
menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e
alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar
em quem?
O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas
não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética
individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente
sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi
dizer que o dinheiro
não trás felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de
sobra para acreditar que o dinheiro trás algo tão parecido que a diferença é
assunto para especialistas.
Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século
XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde
que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população
mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina
temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do
mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e
pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam
que Deus está em todas partes, mas por experiência própria sabem que atende nos
grandes centros urbanos.
As cidades prometem trabalho, prosperidade, um
futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem
bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a
primeira coisa que os recém chegados descobrem é que o trabalho falta e os
braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar
e o silêncio.
Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto
pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam
«porque as pessoas sentem gosto em juntar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas,
quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo,
encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas?Se as
relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente
encontra-se com as coisas?
O mundo inteiro tende a transformar-se em uma
grande tela de televisão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As
mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.
Os
terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram
espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de
exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as
vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em
peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos
contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a
minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.
A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os
manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e
para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do
interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade
moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal
e como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.
Beatriz
Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao
shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do
fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até
esses centros urbanos. De banho
tomado, arrumados e penteados, vestidos com
suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram
convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na
cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado
desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.
A
cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade
midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada à serviço da
necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem
substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece
é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis
quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na
velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e
todo trabalhador é um desempregado em potencial.
Paradoxalmente, os
shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de
segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem
dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa
realidade do mundo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse
descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se
esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da
televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado.
Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar
na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque,
estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é
uma armadilha para pegar bobos.
Aqueles que comandam o jogo fazem de
conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que
a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente,
para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social
não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade
essencial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho
do planeta.
Tradução: Verso Tradutores