A
S O C I E D A D E
D A
L U A
V E R M E L H A
Sua história, Dispersão e principalmente...Reunião.
T O M O I I
EL PRELÚDIO ROJO
Umas quatro figuras surgem do nada, longe dali, bem próximo da cerca do departamento de carga de uma empresa aérea. Imagens se distorcem e retorcem formando aos poucos imagens de seres humanos. Finalmente depois de poucos segundos surgem seres que não podem ser chamados de humanos.
-Vamos pulem a cerca. Diz Coélet aparentemente cansado.
-Como você fez aquilo?
-É como se desaparece assim? Pergunta Secundo
-Tudo no seu devido tempo, vocês aprenderão isso.
-Incluindo aquele negocio de criar imagem sua por todo lado?
-Multiplicação, sim –Coélet para por um momento e parece sentir a fraqueza devido ao esforço da luta.
-O que foi?
-Não é todo dia que eu luto contra dois demônios. Apesar de estar bem preparado sumir com vocês exigiu muito de mim.
Ele ergue o olhar e vê um punhado de pessoas ao longe carregando caixotes para dentro de um pequeno caminhão e vai em direção.
-Mas como se faz aquilo?
-Ele já disse que vamos aprender, Secundo, calma.
-Não torra, Calvino eu to falando com ele.
-Hei! Agora tá falando comigo.
-Tô nem aí!
-Não cara, o ministério da saúde já verificou, não faz bem á saúde falar comigo assim.
-Calem a boca, vocês serão diferentes de tudo o que Dorr criou, vocês poderão fazer muito mais e melhor do que eu ou do que o que eu fiz, mas terão que aprender muito ainda, uma das lições será “calar a boca”.
-O que? Além do que já vimos pode ser feito?
-Muito mais, Calvino, eu usei muito de minhas forças, porém muito pouco de minhas possibilidades. Vocês aprenderão que é preciso distinguir entre o preciso e o necessário.
Eles se aproximam do galpão, o olhar do amigo dos amaldiçoados permanece fixo nos trabalhadores, dentro do galpão, uma parca luz ilumina apenas o local de trabalho, aparentemente um carregamento que atrasou. O aeroporto ainda esta longe, mas os aviões já podem ser vistos, e ouvidos. Coélet olha para o céu, o amanhecer ainda esta longe, mas algo o incomoda. Icthus é o mais calado no momento, não gostava de falar enquanto caminhava. Subitamente um helicóptero alça vôo, alto, mas em direção á eles, vindo da estrada onde teve sua luta contra os infernalistas.
-Corram para o galpão antes que a aeronave nos veja! Os três amaldiçoados obedecem sem hesitar. O helicóptero ameaça entrar no terreno em direção ao galpão, mas algo o detém e ele volta lentamente.
-Estão atrás de nos com helicópteros!? Sussurra Calvino com espanto.
-Você não imagina até a onde vai as possibilidades de seus inimigos.
-Mas como? Eu pensei que vivessem á margem da humanidade?
-Você já viu parasitas viverem á margem do hospedeiro?
-Não, mas geralmente é algo visível, neste caso.
Coélet recomeça a caminhar desta vez se movendo por entres as caixas empilhadas e carros de transportes estacionados. Três trabalhadores jogam caixas para um terceiro que as recebe e empilha sobre uma plataforma presa á um carro.
-Eles vivem dentro do hospedeiro, insidiosos, invisíveis, nada nem ninguém suspeitaria deles. Quando algo acontece ou alguém chega perto demais eles erguem a máscara.
-Como assim?! Pergunta Secundo.
-Fazem alguém lançar um filme, novela, conto, ou um livro sobre vampiros e tudo fica misturado a ficção, assim ninguém é levado a sério, além de existirem os que não falam a sério sobre o assunto, existem os que não falam sério propositalmente sobre isso para que a humanidade realmente não acredite.
-Mas então o que pode ser feito?
-Nada. Os vampiros vivem reclusos em seu mundo invisível aos intrusos. Se alguém se aproxima é incriminado, enlouquecido, desacreditado, morto, seqüestrado, em fim, algo lhe acontece sem que a máscara caia. Tudo pode parecer um rapto, queima de arquivo, assalto, qualquer coisa.
-Deve haver um...
-Xhuuuuuuuu! Quieto!
-O que foi amigão? Sussurra Icthus
-Calvino, Secundo, Icthus procurem um container vazio depois voltem aqui e me encontrem junto aos carregadores.
-Mas se nos verem aqui seremos expulsos por invasão?!
-Eles não estarão aqui.
-Mas eu acho...
-Os homens possuem a estranha mania de achar a coisa errada nas horas certas e as coisas certas nas horas erradas, vai! Sentencia “O Pregador”. Os três amaldiçoados se acham impossibilitados de ponderar qualquer outro argumento e assim se põem a procura do tal container.
“O Pregador” se esquiva por entre os veículos e caixotes como se fosse uma cobra. Colocando-se a alguns metros, ele reúne forças e se movimenta uma última vez, mais rápido do que os olhos podem ver. Num segundo seguinte ele está bem na frente dos carregadores.
-Boa noite senhores! Diz o homem que um dia fora rei.
-Quem é esse cara? Diz um dos carregadores. Antes que qualquer outra coisa possa ser dita Coélet abre os braços, seus olhos adquirem uma cor peculiar, diria um vermelho vinho, pouco mais escuro que o tão falado “sangue” no meio vampírico. Pouco a pouco sua fisionomia muda adquirindo características mais pesadas e ossudas, nada demoníaco, mas de certa forma muito peculiar. Seu rosto se alonga e o brilho rubro aumenta consideravelmente para então sumir na escuridão do local. Por fim, os carregadores olham estarrecidos e imóveis as feições do ser voltarem ao normal pouco a pouco.
-Por gentileza senhores... Podem se aproximar? Os carregadores sem hesitar descem do veículo e começam a caminhar em direção ao amigo dos amaldiçoados. Surpreendentemente eles não o ameaçam ou reagem. Coélet ergue os braços e algo surpreendente se ensaia. Relâmpagos percorrem o corpo do guerreiro amigo. O pregador se delicia em envolver os homens em derredor com seus raios.
Ao longe Calvino, Secundo e Icthus apenas notam a iluminação se propagar em meio aos veículos e caixotes do galpão, curiosos procuram olhar na direção dos carregadores sem sucesso.
-Vocês carregarão todas as cargas que deveriam carregar, mas colocarão um container para mim no vôo destas caixas...
Os homens olham sem expressão facial, o amigo dos amaldiçoados, olha um por um em seus olhos, como se colhesse as respostas em suas mentes, como se pudesse ouvi-las.
-Voltarão, se acomodarão e dormirão um sono sob minha ordem, quando acordarem não se lembrarão de mim ou de terem cumprido ordens minhas, não lembrarão do container colocado na aeronave. Só lembrarão de terem trabalhado arduamente durante a noite e cumprido bem suas tarefas.
Mais uma vez ele percorre o olhar observando as mentes dos carregadores que imóveis e estáticos apenas arregalam seus olhos em silêncio.
Por fim ao retornarem de sua curta, mas importante missão, contemplam quatro homens entorpecidos por algo incompreensível e um amigo muito mais bem disposto. Secundo leva o amigo e os carregadores ao container encontrado. Ele é perfeito, não muito grande, mas comporta os quatro amigos perfeitamente. Eles entram e são trancados por fora, Coélet senta-se e fecha os olhos como se de alguma forma controla-se os carregadores. Poucos minutos depois o container é erguido por um dos veículos parados e colocado numa aeronave. Meia hora mais tarde eles levantavam vôo no container sem saberem á que rumo.
Depois do primeiro contato com Coélet os três recém vampiros foram levados á outra cidade, outro local. “O Pregador” os viu morrer e de alguma forma os transportou rapidamente para onde pudesse realizar seus intentos, um local diferente e distante, uma cidade pobre e em outro continente, uma cidade bem mais afastada. Explicava coisas sobre a vida e a morte, sobre suas novas possibilidades e isso os deixava encantados e seduzidos. Por diversas vezes desmaiava um ou outro utilizando seus estranhos poderes, e assim conseguia ludibriar “a fome” por mais algumas horas. Não seria preciso muito...Precisava apenas chegar a Lua Vermelha, isso bastaria.
FINALMENTE EM BUNJUBURA
Numa noite relativamente fria para a região, a cidade parecia solitária e vazia. Lá algo de novo aconteceria, lá o tormento teria início. O que Coélet só explicou tarde de mais é que seria doloroso e difícil modificar a natureza daqueles vampiros. Eles sentiam seus corpos dormentes, como só a morte pode adormecer, mas em seus corações o fogo do inferno aquecia a alma. Não se crê realmente que eles possuam tal coisa mais se possuíssem, se possuíssem alma, seria algo bastante torturado no momento.
O grande amigo dos amaldiçoados os retirou do aeroporto com facilidade, um veículo roubado os levara até o fim da cidade propriamente dita. Pararam num hotel perto da saída da cidade, pretendiam ficar por alguns minutos, tempo apenas para reorganizar a cabeça e os assuntos. Era um local pitoresco, simples, com pessoas falando muitas línguas diferentes, mas havia um certo tom incomum em todas elas. O hotel possuía um bar na sua recepção, onde muitas pessoas além dos hospedes freqüentavam. Um grupo de cinco homens sentados na mesa ao centro da recepção conversavam e riam alto. Uma mulher de idade um pouco avançada e mais três sentados no bar, de costas para a entrada, um outro homem estava sentado de frente para os recém chegados e sua expressão não era muito amigável, mais Coélet o ignorou como se não o tivesse visto.
Secundo parecia inquieto ao conversar com seus outros amigos, Coélet notara isso muito antes de qualquer um no grupo, mas ele era experiente demais para comentar algo que só apressaria o martírio e o suplicio da sede...Da fome. O tormento logo teria início e Coélet sabia disso, tinha pouco tempo.
Tempo, tempo era algo estranho. Era irônico, era lindo e risonho, não era possível explicar. Podia ser extremamente curto ou agonizantemente longo. O medo o habitava, na mesma medida e dose que a euforia por algo novo, por algo cobiçado. Os ânimos eram flutuantes, e pouco a pouco a psique ia-se, num tormento agonizante e demoníaco.
No bar, um homem negro, alto e extremamente magro, distribuía alguns copos de plástico numa bandeja de metal levemente enferrujado. O ambiente não era nem de longe o ideal para um hotel. Entretanto era o melhor da cidade ou talvez o único. O balcão era como um imenso caixote, mais parecia uma mesa com tábuas pregadas nas pernas frontais, fazendo-a, assim, como um balcão.
“O Pregador” se aproximou do homem no bar, ficando ao lado da mulher, e perguntou:
-“Onde posso conseguir transporte para o deserto?” Os três acompanhantes o olham com espanto.
-Não sabia que ele falava a língua daqui! Disse Calvino
Icthus respondeu-Ele tem muito mais idade que nós três juntos deve falar muitas línguas.
-Mas o que ele falou?
-Não sei.
-Eu não estou gostando d’aqui, é melhor ir embora. Balbucia Secundo baixando a cabeça como para esconder a autoria das palavras.
-Calma Secundo, acho que não vamos demorar.
-Minha barriga está doendo!
-Como é?!?
-Minha barriga tá doendo, você tá surdo?
-Espera um pouco, Coélet deve voltar logo, agente pergunta o que podemos fazer.
-Calvino, eu não tô a fim de esperar aqui vou ficar lá fora.
-Ok! Eu falo pra ele. Vai na boa.
Antes de se retirar Secundo para, segundos se seguem sem que ele se mova, Calvino e Icthus estranham o congelamento do amigo e aguardam observando atentos seus movimentos.
Calvino olha para o chão, era feito de tábuas, as frestas em certos locais eram enormes. Um homem desprevenido poderia até prender um pé ali, mas isto parecia não incomodar os cliente que bebiam sem se preocupar com isso.
-Estranho isso!
-O que é estranho? Responde Icthus.
-O chão, lá em baixo...
-Que tem?
-Não sente um cheiro bom vindo de lá?
-Sim, e daí, o que tem de estranho?
-O cheiro, o cheiro... É como se fosse...Sei lá! É como se fosse cheiro de comida quando você esta morto de fome, é um cheiro doce, gostoso.
-Sim, e o que tem isso de estranho?
-Nunca vi “chão” cheirar assim, oras!
Não eram seres normais, algo diabólico acontecera, eles não respiravam, para sentirem o odor tinham que puxar o ar pelas narinas, ar que não seria usado pelos pulmões atrofiados sem uso, seus olhos não brilhavam como os olhos de um homem brilham diante de vida, do ser, e do existir. De alguma forma eles eram diferente, aberrações talvez. Extremamente pálidos e antagônicos a quem olhe. De fato não eram agradáveis aos olhos... Não eram normais, mesmo dentre eles não se achava o conceito de normal.
-Pra onde será que vamos agora, Icthus?
-Não sei, o que sei é que vamos, isso é certo, aqui eu também não tô querendo ficar.
-Lá vem ele, vamos saber se vamos ficar ou seguir viagem. Coélet se aproxima com seu ar inabalado e sereno de sempre.
-Chame Secundo de volta ao grupo, não é bom que nos dividamos. E não é bom que ele fique só. Diz “O Pregador”.
Mas antes que alguém fosse atrás dele, Secundo passa novamente pela porta e retorna ao grupo, dessa vez com um ar mais transtornado e irrequieto.
-Como é vamos ou ficamos aqui?
-Preferiu entrar? Perguntou Calvino em tom sarcástico
-É também não estava gostando de ficar lá, e não estou gostando de ficar aqui também não.
-Quem é Pima? Pergunta Secundo á Coélet que com um ligeiro ar de surpresa o responde de contragosto.
-Por que pergunta?
-Eu não sei, ouvi alguém falando sobre um tal Pima, que ele ajudaria, mas era preciso tempo ou ir para um certo tempo ou templo, não sei direito!
-Não se preocupe com isso agora, você não ouviu nada...
-A dor melhorou?Pergunta Calvino.
-Não piorou, e está cada vez pior.
-Vamos ter que esperar uns minutos, o homem do bar foi falar com o dono do hotel para ver se ele consegue o transporte que precisamos. Fiquem numa mesa e não chamem muita a atenção, já basta o terceiro!
-Coélet, somos estrangeiros, falando uma língua diferente da deles, de cor muito mais diferente, e não morremos, por que você acha que vamos chamar a atenção?! E por falar em língua diferente... Que outras línguas você fala além das desse pais?
-Todas.
-Como?!?!?
-Calvino, apenas sente e espere.
-Ooook! Vamos!
Eles escolhem uma mesa num dos cantos da recepção-bar, Os cinco homens os observam, não parecem muito amigáveis. O homem do bar diz para Coélet que cavalos foram providenciados, cinco estavam disponíveis, mas o dono pedia uma quantia um pouco alta devido a hora, já eram quase onze da noite e numa vilazinha metida a cidade isso era muito tarde. Coélet ouviu o preço e pagou sem regatear.
-Sente aí Secundo!
-Calvino, não me chateia, eu não quero sentar, porra.
-Calma cara, em tão fica em pé.
-Vai a merda cara eu sento se eu quiser.
-Claro, ok bicho! Como queira.
-Como queira é o caralho porra vai te fuder.
-Ei, cara calma aí ta pensando o que?!
-Secundo calma cara relaxa. Disse Icthus
-Vai te fuder também, baba ovo do caralho.
Aparentemente a discussão chamou a tão temida atenção dos cinco homens no centro da recepção, um deles se levanta e vai até Secundo que estava falando alto demais para o local. Ele bate no ombro dele e fala algo que nenhum deles entendem.
-O que esse porra quer?
-Calma Secundo, ele deve estar querendo que você fale mais baixo, apenas vire, olhe pra ele, e faça sinal de que não entende a sua língua.
-Se ele me tocar de novo... Calvino, eu vou...
Tarde de mais, o homem bate de novo no ombro de Secundo que levanta num repente aplicando um golpe com o cotovelo direito. Ele acerta em cheio o nariz do homem, que cai de joelhos com o sangue escorrendo pela face e os olhos lacrimejando. Os amigos dele se levantam e correm, três em direção á Secundo e um outro para ajudar o amigo. Secundo fica paralisado um momento olhando o sangue que escorre, como um beduíno sedento olhando para água que é desperdiçada ao chão. Ele sente os caninos crescerem e algo como uma corrente elétrica percorrer o corpo. A visão fica vermelha, o cheiro de sangue inunda as narinas fazendo-o aspirar como se precisasse respirar, como se fosse vivo, como se tivesse coração ou sentimentos, como se não fosse um demônio.
Um dos amigos do ensangüentado se aproxima de Secundo e arma um soco, mas Secundo pula agarrando-o pela cintura levando, ele e outro que estava atrás ao chão, muito rapidamente Secundo se levanta, Icthus corre para tentar separar a briga, pelo caminho, ele afasta violentamente um outro homem restante que ficara estupefato, apenas olhando a luta. Calvino também corre, mas para o terceiro homem que permanecia de pé e acerta-lhe um chute, com o “peito-do-pé” direito no rosto, ele cai no chão confuso demais para revidar mesmo depois de algum tempo. Icthus pega Secundo pelas costas impedindo seus braços de se movimentarem, ele olha para o homem que empurrara e nota que ele bateu com a cabeça no balcão, deve ficar fora de combate por alguns segundos, Secundo chuta um dos homens caídos no chão, o outro se levanta e saca uma faca, Icthus acha por bem soltar Secundo e dá dois ou três passos para o lado direito, mas o homem com a faca vai em sua direção, o que assegura sua derrota. Ele avança rápido e prepara para enfiar a faca na barriga de Icthus, antes disso Secundo agarra seu pescoço e o aperta com toda a força, o homem se assusta, talvez com a força ou com o fato dele ter sido extremamente rápido. Eles vão ao chão e Secundo aperta ao máximo a garganta do homem que lhe enfia a faca uma, duas, três, quatro vezes na barriga. Sem efeito, a pressão sobre a garganta não diminui. Calvino segura firme pelo queixo e nuca de Secundo puxando-o com força, mas mesmo assim ele não larga o homem desesperado a cravar-lhe a faca, golpe atrás de golpe. De repente Secundo recebe uma pancada forte e seca na costela direita, umas duas ou três se quebram, é possível ouvir o som delas se quebrarem, a pressão diminui. Secundo encolhe as costelas sentindo o golpe, ele gira lentamente os olhos para o lado proveniente do golpe e vê Coélet que em seguida dá um pequeno passo para o lado aumentando o ângulo para aplicar um soco no tórax de Secundo sendo obrigado a soltar o seu agressor semi desfalecido. Com a barriga ensangüentada ele bate forte na parede, Icthus parte para tentar segura-lo, mas Secundo o empurra com as duas mãos e parte em direção á Coélet, ele permanece inalterado poucos segundos, mas que para os espectadores parecem uma eternidade, no último segundo “O Pregador” segura firmemente a garganta de Secundo e o ergue tirando seus pés do chão, ele o leva para fora do hotel. As pessoas restantes ameaçam seguir, mas Calvino os contentam dizendo que já vão embora, mesmo sem entender uma única palavra alguns entendem o gesto de adeus executado com a mão.
Ao chegar do lado de fora do hotel o grande amigo joga Secundo longe, ele simplesmente ao sentir os pés no chão novamente parte em direção á Coélet, novamente ele permanece imóvel, para enfim abrir a boca e dizer :
-Sou teu Sire e ordeno... “PARA”!
Secundo congela como se fosse um filme no vídeo cassete que foi pausado. Seus olhos contendo um brilho vermelho forte, como se fossem lâmpadas de um prostíbulo, seus dentes caninos expostos denunciavam sua natureza e sua fúria. Coélet aproxima-se e com a palma da mão toca-lhe o peito, penas fagulhas são notadas e logo o brilho nos olhos somem, pouco depois os dentes são recolhidos.
-Isso vai remediar por hora a situação. Mais calmo?
-Sim...
-A dor desapareceu?
Ele responde positivamente com um aceno de cabeça.
-Aos cavalos.
Os cavalos fornecidos pelo homem do hotel serviram bem. Muita areia e pedras um veículo teria dificuldades e perderia muito tempo neste tipo de terreno. Eles cavalgaram por pelo menos seis horas seguidas e ininterruptas, faziam um rodízio com os cavalos na tentativa de cansá-los o menos possível. Passaram, por vezes, por oásis e lagos sem o menor interesse, vez por outra paravam e Coélet aplicava a mão ao peito de um ou de outro sempre que as queixas de dor ficavam muito freqüentes. Isso ajudava, mas era obvio que era apenas paliativo, faltava algo, era preciso fazer alguma coisa, aquela situação era insustentável. Ainda restavam muitas dúvidas na mente de todos incluindo de Coélet, mesmo ele, não sabia se todos sobreviveriam ao treinamento ou se o suportariam. Um dos cavalos era fraco e não agüentou o esforço. Teve de ser deixado para trás, ou morreria de sede ou de predadores, mas isso não era importante, ficar com um cavalo agonizante perto de quatro assassinos e três deles sedentos por sangue seria comprar um barulho e uma dor de cabeça a mais e claro isso podia levar ao fracasso total.
-Eu não agüento mais, vamos parar, a dor está insuportável, paaaara!
-Calvino, vamos parar depois daquela duna.
-Por que isso? Pra que? Faz essa dor parar!
-Vá se acostumando, essa dor acompanhará vocês pelo resto de suas vidas.
Secundo começa a delirar...A fome...É algo difícil de descrever. Mas imagine a vontade de comer, imagine o desejo sexual, a libido mais devassa, imagine a vontade inevitável de urinar, imagine a dor de uma cólica intestinal, imagine a sede do deserto e o desejo do prazer agradabilíssimo de saciar tal sede. Agora imagine tudo isso junto, somado e agonizante mente crescente. Esta é a sensação chamada de “Fome”. Essa dor faz vampiros matarem pais, mães, filhos e filhas. O desejo de saciar esta sede...Esta “fome”, é maior que o pudor, que a fé, ou qualquer coisa conhecida pelo homem.
-Aquele cheiro era tão doce... Era delicioso. Como eu gostei de ver aquele sangue escorrer daquele puto! Eu quero...Eu quero...
-Do que você está falando? Perguntou Icthus.
-Do cara no bar, quando o nariz dele quebrou, eu... Eu... Adorei ver o sangue escorrendo. Posso lembrar do cheiro como se ele estivesse aqui agora na minha frente. Eu quero o sangue dele, eu quero muito o sangue dele... Não eu quero qualquer sangue, qualquer um. Eu preciso, eu quero...
-Afaste isso da mente – disse Coélet – se você ceder, esse pensamento irá dominá-lo.
-Que domine! Eu quero aquilo, preciso do sangue, só aquela merda deve parar de vez essa dor fudida, meu Deus, meu Deus que dor!
A esta altura os três se encolhem nas selas dos cavalos assumindo uma posição semifetal, isso iria se repetir muuuuuuitas e muuuuitas vezes. Secundo passa a olhar fixamente para o cavalo entre suas pernas. O que fez o grande amigo atentar.
-O que você está pensando, Secundo? Não houve resposta. Não poderia haver, Secundo se quer podia ouvir suas palavras, toda sua concentração estava voltada para a artéria do animal.
-Secundo?! Secundo?!
Num segundo de frenesi e pura loucura Secundo ataca o cavalo que sente as presas encravarem em seu pescoço e num instinto de auto preservação ele executa um pinote dando um golpe forte com as patas traseiras no vazio tentando jogar seu montador e atacante para fora da sela, Secundo aperta a barriga do cavalo com as pernas para permanecer sobre ele então retira as presas para sorver o tão esperado e delicioso sangue, o delírio daquela delicia é tremendo a excitação e o prazer são fabulosos, ele pode sentir isso, mas logo após as presas serem retiradas o cavalo se joga ao chão num pinote catapultando a ameaça para longe do seu pescoço e do tão querido sangue. O cavalo se ergue antes que Secundo possa se recobrar, antes que ele pudesse gozar de uma só gota do sangue, fraco e com dor, completamente entregue a loucura ele só consegue ver o cavalo sangrando com sua mordida e mais uma vez ele parte para o ataque. Miraculosamente Coélet como um raio atraca Secundo e o atira para longe, ele cai de costas, a força do ataque o obriga a dar duas cambalhotas para trás, assim que ele completa a segunda Coélet já está a sua espera por trás; o ergue preso pelo pescoço e pelo cinto da calça.
-Por hoje eu estou cheio de você.
Secundo é atirado para o alto e para frente, na direção em que devem seguir. Rapidamente “O Pregador” monta em seu cavalo e volta ao galope num destino vazio e só por ele conhecido, mas que passaria por Secundo. Este por sua vez começa a se recuperar do tombo, Coélet guia o cavalo para passar ao lado de Secundo, ao se levantar ele é erguido com um chute na barriga proveniente da perna direita do Cavaleiro, Secundo é agarrado pelo pescoço e com uma firmeza fenomenal atirado para sobre o cavalo do Pregador, bem a sua frente, antes de poder entender o que acontecera, ele puxa-o pelos cabelos com a mão direita e com a esquerda aplica um gancho levando Secundo á inconsciência que solta um urro de dor. Calvino também deixa escapar um grito de dor. Icthus o olha, se compadeceria se não estivesse na mesma situação. Apenas Coélet permanecia indiferente a dor alheia, apenas olhava para o caminho a frente e para a direita na linha do horizonte, isso fez Calvino se lembrar e perguntar algo em meio a dor e ao medo.
-Coélet? Você...Você nos disse que seriamos capazes de suportar parcialmente o sol, se bem...Se bem...arrrrzzz. Se bem me lembro foi assim que você disse, mas, já podemos isso neste exato momento?
-Não
-O que? Então temos problemas, não tem nada em quilômetros daqui e se eu não estou errado aquilo é a porra do sol saindo.
O brilho aparece no horizonte como alguém com uma lanterna em baixo de uma janela gigante, os raios dourados pintam o céu negro e sem lua como que riscos infantis e inocentes num papel negro.
-É o sol sim.
-Lindo essa resposta, a porcaria do sol pode me matar e ele simplesmente diz “é o sol sim”.
-Praticamente chegamos.
-Onde?!?!? Na Duna 12 esquina com o buraco de cobra 14?!? Não tem nada aqui, só areia!
-É aqui, paremos. Desçam.
E o sol se faz mais presente. Os cavalos param, uns mais rápidos que outros, mas todos seguem as ordens do grande amigo. Ele se coloca no centro dos três homens que se espremem na tentativa de deter a dor da fome, Secundo já acordado cai de joelhos, depois de cair do cavalo, seguindo-se a isso um grito de dor.
E o sol se faz mais presente!
-Mais vale um bom nome do que um bom perfume, mais o dia da morte do que o dia do nascimento. Mais vale visitar a casa em luto do que a casa em festa, porque ali o desfecho de cada homem vem à consciência de quem vive. Mais vale sofrer do que rir, pois sob o semblante triste pode estar um coração feliz. O coração do sábio está na casa em luto, o coração do insensato está na casa em festa. Mais vale escutar a repreensão do sábio do que escutar os elogios dos insensatos. Sois homens insensatos e terão que adquirir sabedoria a duras penas. Será difícil e doloroso, vocês confiam em mim?
E o sol se faz mais presente!
-Creio que falo por todos ao dizer que é obvio que lhe adotamos como professor Coélet. Pelo que você disse durante a viagem, acho que já estamos preparados para as dificuldades. Disse Icthus o último a permanecer de pé. Secundo acrescentou com um tom delirante e desesperado – Estamos prontos para o que der e vier – a resposta veio seca, séria e fez calar a todos.
-Vocês são idiotas, estúpidos, não imaginam a dor e os acontecimentos que lhes aguardam e se acham preparados para o que não conhecem?!?! Quem é como o sábio? Quem domina a ciência da interpretação das coisas? A sabedoria espiritualiza as feições do homem, e lhe modifica o semblante severo do corpo ou da alma!?! Vocês terão que modificar suas almas. Terão que morrer duas vezes.
Icthus agoniza no chão sentindo a dor, Secundo já agoniza, Calvino chama por pessoas que não estão ali, aparentemente está delirando.
-Jarri! Jarri! Meu beijo, senhorita. Você me deve teu beijo. Eu vou falar pra ele. *Filho da puta* eu vou acertar ele. Meu Deus que dor! Pare com essa dor, pelo amor de Deus. Quem é você velha? Eu não chamei você aqui! Eu não quero seus poderes. Não, eu recuso sua ajuda, velha. Coélet!
E o sol se faz mais presente. As penumbras parecem vivas a crescer lenta, mas ininterruptamente. Já se pode ver a linha delimitadora do dia e da noite, tênue, a se aproximar e faze-los cruzar sua fronteira fatal.
-Ilusão, pura ilusão – diz Coélet – ilusão, pura ilusão! Tudo é ilusão! Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se fadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece igual, sempre a mesma. O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar a seu lugar, donde novamente torna a nascer. Dirigindo-se para o oeste e voltando para o leste, ora para cá, ora para lá vai soprando o vento, para retomar novamente seu curso. Todos os rios correm para o mar, e, contudo o mar não transborda; para onde as águas dos rios vão, para lá tornam a ir. Tudo é penoso. Tudo é penoso, difícil de o homem explicar. A vista não se cansa de ver, nem o ouvido se farta de ouvir. O que foi, será; o que aconteceu, acontecerá: nada há de novo debaixo do sol. Mesmo que se afirme: “Olha: isto é novo”, eis que já aconteceu em outros tempos, muito antes de nós. Não ficou memória dos antepassados, nem dos vindouros ficará lembrança para os que vierem depois. – Após uma breve pausa ele continua - Eu, Coélet, fui rei. Dediquei-me a investigar e a explorar com sabedoria tudo que se realiza debaixo do céu. Tarefa ingrata que Deus impôs aos homens, para com ela se ocuparem. Examinei todas as obras que se fazem debaixo do sol: Na verdade, não passam de ilusão e frustração. Mas a busca é real e Dorr que a recebe é fundamental, Dorr receba-me.
Ao dizer isso um vento forte levantou a areia do deserto, linhas e cores se tornaram confusas e mescladas, eles sentiram como se o chão fosse uma plataforma e estivesse começando a girar, girar e girar cada vez mais rápido, uma voz foi ouvida, não se sabe de quem, e dizia – Fechem os olhos – As formas foram mescladas e sumindo pouco a pouco. Todos com exceção do Pregador ficaram tontos ou enjoados. Quando por fim os rodopios acabaram eles estavam num deserto enormemente ameaçador, até onde se podia ver, via-se terra e terra. Era noite, escura e bela, e nada de sol, a terra parecia vermelha e ao céu algo fenomenal.
-Senhores, esta é a vossa jura de maldição. Aqui vocês renascerão ou aqui morrerão, mas uma coisa é certa daqui não sairão como chegaram. Aqui vocês aprenderão mais do que aprenderam em toda a vida até os dias de hoje. Sejam bem vindos ao deserto da Lua Vermelha.
Coélet sabia o que iria acontecer, sabia do resultado dos atos de Jarri, e sabia sobre os pedidos de Dorr. Era preciso que acontecesse, era fundamental que assim se procedesse, afinal ele era o estudante, ele já o foi, e jamais trairia a confiança do Mestre, do templo, de Amansaoo. A perda de Dorr, ou a possibilidade de derrota é algo inaceitável, era preciso correr, o tempo é pouco e os ensinamentos a serem passados demasiados e insubstituíveis.
-Coélet, estou tendo alucinações também, estou vendo a lua...
-Senhores não é alucinação contemplem a lua e o templo de dor.
Eles se erguem lentamente verificando que a dor havia diminuído, não sanado, mas diminuído, passando a ser suportável. A frente uma construção grandiosa se apresenta. Quando Icthus olhou para o céu viu uma lua cheia que iluminava a noite negra e completamente afastada do sol, uma lua redonda, enorme, brilhosa, linda... E vermelha.
***
DETESTABLE LO TERCERO
Não tão conscientes, eles se erguem lentamente verificando que a dor havia diminuído, não sanado, mas diminuído, passando a ser suportável. À frente uma imagem grandiosa se apresenta.
De onde eles estavam podiam ver apenas parcialmente a construção. Havia bem na frente do portão de entrada, duas estatuas de dois guerreiros em posição de combate portando suas espadas, eram pouco maiores que um poste de iluminação pública, mas eram minuciosamente detalhadas, suas espadas eram semelhantes às espadas japonesas do tempo feudal e os seus portadores seriam humanos se não fossem os olhos mais abertos e esticados, o rosto mais ossudo e presas nos maxilares, magníficas presas. Em seguida, uns cinco metros depois um muro muito alto podia ser visto. Um muro enormemente grande, até onde a vista alcançava ainda persistia a linha da muralha. Era magnífica uma cidade inteira murada a frente.
Podia-se ver pouco atrás do muro, mas cinco torres eram bem visíveis, uma no centro e as demais a circundando. A torre central era bem maior e mais larga, afinava na medida em que se subia o olhar ao passo que as outras permaneciam no mesmo diâmetro e no topo uma cobertura de vidro como se fosse uma estufa, não havia janelas, vidraças ou qualquer coisa semelhante, nada que imitasse um prédio ou uma instalação convencional. Tudo parecia construído de pedra.
A frente depois das grandes estátuas, uma pequena escadaria e um portão de grades em aço com adornos simples e duas lâmpadas que iluminavam parcamente. Dois gárgulas pendiam acima do portão com lanças apontadas para baixo, como se apontando para os visitantes. Ao topo do muro uma pequena cerca ou justaposição de lancetas eram usadas para proteger o alto da construção. Mais ao fundo do corredor de acesso um portão de madeira com adornos esculpidos também em alto relevo atestando a peculiaridade do local, infelizmente este só podia ser visto se olhado de frente e de perto. Aparentemente, a madeira havia sido retirada especialmente para a confecção deste portão.
-Aqui a energia é abundante e será mais fácil modificar a natureza de vocês, ao entrar será preciso uma certa peculiaridade, tenham cautela. Disse Coélet.
Os amaldiçoados estavam mais calmos, seus corpos pareciam cansados. Seria uma noite normal, uma comum se não fosse o estado deles, se não fosse o local onde estavam, se não fosse o pequeno fato de estarem mortos, de seus corações não baterem mais, de suas peles não manterem o mesmo tato, de não sentirem o olfato da mesma forma.
Caminharam uns quilômetros e chegaram no portão, dois gárgulas armados de lanças o guardavam de cima, Coélet bateu p