Ateísmo é mais que um a
09:07 @ 07/02/2007
Ora, tudo começa com as premissas de que Deus existe e de que tudo se divide entre Deus e o Diabo. Por essa linha de pensamento, não existirão pessoas que crêem em um mundo sem deuses e demônios, mas servos do Diabo, por ilusão, loucura ou revolta (no sentido pejorativo). Juntando a isso a tese de que o Cristianismo tem a exclusividade da virtude, os ateus, que seriam servos do Diabo, terão, recusando o Cristianismo, um vazio de princípios ou princípios cristãos invertidos. Os erros dessa visão são pelo menos três. O primeiro é que a existência de deuses não passa de um postulado de quem crê, mas quanto a isso cabe outra discussão. O segundo é que a Igreja além de não deter a patente da virtude, sequer é coerente com seu próprio discurso, mas quanto a isso também cabe outra discussão. E o terceiro é que a própria crença na inexistência de quaisquer deuses não é sem causas nem sem conseqüências. E é disso que irei tratar.
Por exemplo, qual o sentido da vida, se não existe um deus? Falar de um “sentido da vida” é um raciocínio circular: esse sentido teria de ser determinado por um ser inteligente, portanto o pressupõe, e seria encontrado em uma religião codificada por esse ser com o fim de o encontrarmos. Assim, pode-se dizer da religião o que uma piada diz do computador: veio resolver problemas que não existiam antes da sua criação.Talvez seja melhor falar de qualidade de vida. Todos temos noções de o que nos pode dar conforto e prazer, e além disso podemos nos sentir bem fazendo algo por outras pessoas. Tudo isso independente de uma religião, ou mesmo apesar dela. E afinal, se enquadrar em um sentido da vida tem, em última análise, o objetivo de viver neste mundo da melhor forma possível (embora a religião degenere essa procura em um estilo de vida tipo “quanto pior, melhor”).
Qual a ideologia política de alguém que crê na inexistência de qualquer deus? Alguns ateus são comunistas; outros, anarquistas. Mas é incompatível para um ateu defender um sistema politico-econômico em que uma elite se apropria do trabalho dos demais, exauridos e desprovidos. É para tais sistemas, como o capitalismo e o fascismo, que existe a religião.
Como o ateu verá o sexo oposto? Certamente como alguém, a princípio, digno de dignidade, estima, companheirismo, reconhecimento (não uso o termo “respeito” para evitar associação a anti-sexualidade e possessividade). Certas divisões de trabalho entre os sexos, como as que acontecem entre tribos indígenas, podem ser justificadas por questões biológicas ou acordo entre as partes. Mas a quase totalidade das desigualdades entre homens e mulheres que conhecemos têm ou tiveram fins sócio-político-econômicos, sempre contaram com a religião para apoiá-las e são insanidades fora desta e daqueles.
Outras questões têm menos consenso, como aborto, homossexualismo ou pena de morte. Mas algumas também são polêmicas no meio religioso. Em outras as igrejas cristãs já tiveram outra visão (por exemplo, a Igreja Católica não era contra o aborto na Idade Moderna). Nas demais, o consenso é resultado apenas do sufocamento do debate.
É leviano classificar como ateu qualquer pessoa que diga não crer em Deus. Alguns “aborrecentes” (e outros não tão novos) são anti-cristãos simplesmente para se fazerem notar. Alguns apenas odeiam a Deus e blasfemam contra ele - como odiar o que não existe? Alguns tiveram traumas ou decepções que os fizeram desgostar da vida como um todo, e dirigirem contra Deus sua raiva, sua tristeza ou seu senso de abandono. Esses, em seu protesto, preservam a fé cristã em pelo menos três pontos: Deus existe, deve ser louvado e a vida é vazia sem ele. E outros professam a inexistência de Deus para justificar um estilo de vida inconseqüente e perverso. Esses também crêem que o Cristianismo é a capital dos bons sentimentos e atitudes.
O ateísmo, mesmo sendo a não-religião, não é a anti-ética, a anti-moral e a anti-humanidade. E a idéia de que deuses não existem não vem para “tirar o chão dos pés”, mas para “pôr os pés no chão”. Para o ateu, nada é sagrado para críticas, questionamentos ou perguntas (é o que me preocupa no Evolucionismo, crido por muitos ateus: idéias vindas de religiões orientais, misturadas a preconceitos de várias ordens e teorias erradas derrubadas há pelo menos um século formam uma doutrina alimentada pela interpretação de objetos materiais por um modelo facilmente refutável, que imita a História com uma riqueza de detalhes incompatível com as fontes e cujos questionadores podem ser taxados de “criacionistas”). Para o ateu, não existe alguém para alterar o princípio de causa e efeito, de semeadura e colheita, para o bem ou para o mal. Também não haverá um senhor para puni-lo por algo não danoso a si mesmo e a outros, mas proibido arbitrariamente, ou recompensá-lo por um ato contra si mesmo ou contra outros que não tem justificabilidade fora do mundo da fé. Enfim, o ateu tem um mundo que pode estudar, desbravar e desfrutar. E é improvável que não encontre alguém que mereça sua estima ou com quem possa contar quando precisar. O ateísmo está mais longe da vida sem perspectivas que as próprias religiões.
Walter N. Braz Jr.