Grupos

Alguém quer Fascismo?

13:18 @ 02/03/2007

Laurence W. Britt


O artigo seguinte é da Free Inquiry magazine, volume 23, número 2.


Os leitores da Free Inquiry podem fazer uma pausa para ler "Affirmations of Humanism: A Statement of Principles" (Afirmações do Humanismo: Uma declaração de princípios) na capa interna da revista. Para um humanista secular, estes princípios parecem tão lógicos, tão certos, tão cruciais. Ainda assim, há uma filosofia política arquetípica que é anátema de quase todos estes princípios. É o fascismo. E os princípios do fascismo estão ressoando no ar hoje, subrepticiamente se mascarando de alguma outra coisa, desafiando tudo por que nós lutamos. O clichê de que os povos e as nações aprendem da História não somente é superusado, mas superestimado também; freqüentemente nós falhamos em aprender da História, ou extraímos as conclusões erradas. Tristemente, a amnésia histórica é a norma.

Nós somos duas gerações e meia removidas dos horrores da Alemanha nazista, embora os lembretes constantes movimentem a consciência. O fascismo alemão e italiano formam os modelos históricos que definem esta torcida visão de mundo política. Embora elas não existam mais, esta visão de mundo e as características destes modelos têm sido imitadas por regimes protofascistas1 várias vezes no século XX. Tanto os modelos originais alemães e italianos quanto os regimes mais protofascistas posteriores mostram características notavelmente similares. Embora muitos eruditos questionem a conexão direta entre estes regimes, poucos podem questionar suas similaridades visuais.

Além do visual, mesmo um estudo superficial destes regimes fascistas e protofascistas revela a convergência absolutamente impressionante de seu modus operandi. Esta, naturalmente, não é uma revelação ao observador político informado, mas é às vezes útil no tocante à perspectiva de redeclarar fatos óbvios e em assim fazendo verter a luz necessária nas circunstâncias atuais.

Com a finalidade desta perspectiva, eu considerarei os seguintes regimes: Alemanha nazista, Itália fascista, Espanha de Franco, Portugal de Salazar, Grécia de Papadopoulos, Chile de Pinochet, e Indonésia de Suharto. Para ser exato, constituem um saco misturado de identidades, de culturas, de níveis de desenvolvimento, e de história nacionais. Mas seguiram todas o modelo fascista ou protofascista em obter, expandir, e manter poder. Além do mais, todos estes regimes tem sido derrubados, de forma que o retrato mais ou menos completo de suas características e seus abusos básicos é possível.

A análise destes sete regimes revela quatorze linhas comuns que as ligam em padrões reconhecíveis de comportamento nacional e de abuso de poder. Estas características básicas são mais prevalecentes e intensas em alguns regimes do que em outros, mas eles todos compartilham pelo menos algum nível da similaridade.

1. Expressões poderosas e continuadas de nacionalismo. Das exposições proeminentes das bandeiras e acenos de cabeça aos pinos de lapela ubíquos, o fervor para mostrar o nacionalismo patriótico, tanto da parte do regime próprio quanto dos cidadãos flagrado em sua loucura, era sempre óbvio. Os slogans que chamavam a atenção, o orgulho nas forças armadas, e as exigências para a unidade eram temas comuns em expressar este nacionalismo. Foi acoplado geralmente com uma suspeita das coisas estrangeiras que se limitaram freqüentemente com a xenofobia.

2. Desdém pela importância de direitos humanos. Os regimes eles mesmos viram direitos humanos como de pouco valor e um impedimento para realizar os objetivos da elite governante. Através do uso inteligente da propaganda, a população foi trazida ao ponto de aceitar estes abusos dos direitos humanos por marginalizar, mesmo demonizando, aqueles que estão sendo alvejados. Quando o abuso era flagrante, a tática devia ser usar o segredo, a negação, e a desinformação.

3. Identificação de inimigos/bodes expiatórios como uma causa unificadora. A linha comum mais significativa entre estes regimes era o uso de bodes expiatórios como meio de desviar a atenção do povo de outros problemas, para desviar a culpa pelas falhas, e canalizar a frustração em direções controladas. Os métodos de escolha - propaganda e desinformação impiedosas - foram geralmente eficazes. freqüentemente os regimes incitam atos de "espontâneos" contra os bodes expiatórios alvos, geralmente comunistas, socialistas, liberais, judeus, minorias étnicas e raciais, inimigos nacionais tradicionais, membros de outras religiões, secularistas, homossexuais, e "terroristas". Os oponentes ativos destes regimes foram etiquetados inevitavelmente como terroristas e tratados conformemente.

4. Supremacia das forças armadas/ávido militarismo. As elites governantes sempre se identificaram proximamente com as forças armadas e a infraestrutura industrial que a apoia. Uma parte desproporcional de recursos nacionais foi alocada para as forças armadas, mesmo quando as necessidades domésticas eram agudas. As forças armadas foram vistas como uma expressão do nacionalismo, e foram usadas sempre que possível para afirmar objetivos nacionais, intimidar outras nações, e aumentar o poder e o prestígio da elite governante.

5. Sexismo notório. Além do simples fato de que a elite política e a cultura nacional eram dominadas pelos homens, estes regimes inevitavelmente viram mulheres como cidadãs de segunda classe. Eles eram adamantinamente anti-aborto e também homofóbicos. Estas atitudes eram usualmente codificadas em leis draconianas que apreciaram sustentação forte pela religião ortodoxa do país, assim emprestando a capa do regime para seus abusos.

6. Uma comunicação de massa controlada. Sob alguns dos regimes, os meios de comunicação de massa estavam sob controle direto estrito e podiam ser confiados desde que nunca para saíssem da linha do partido. Outros regimes exerceram poder mais sutil para assegurar a ortodoxia dos veículos de massa. Os métodos incluíram o controle de licenças e o acesso aos recursos, pressão econômica, apelações ao patriotismo, e ameaças implícitas. Os líderes dos veículos de massa eram freqüentemente politicamente compatíveis com a elite do poder. O resultado era geralmente sucesso em manter o público geral inconsciente dos excessos dos regimes.

7. Obsessão com segurança nacional. Inevitavelmente, um instrumento de segurança nacional estava sob o controle direto da elite governante. Era geralmente um instrumento de opressão, operando em segredo e além de todas as restrições. Suas ações foram justificadas sob o discurso de proteger a "segurança nacional", e questionar suas atividades era retratado como não-patriótico ou mesmo atentado.

8. Religião e elite governante enlaçados. Ao contrário dos regimes comunistas, os regimes fascistas e protofascistas nunca foram proclamados como ímpios por seus oponentes. De fato, a maioria dos regimes uniram-se à religião predominante do país e escolheram retratar-se como defendensores militantes dessa religião. O fato de que o comportamento da elite governante era incompatível com os preceitos da religião era geralmente varrido pra debaixo do tapete. A propaganda prosseguiu com a ilusão de que as elites governantes eram defendensoras da fé e que os oponentes dos "ímpios". Uma percepção era fabricada de que se opor à elite do poder era equivalente a um ataque à religião.

9. Poder das corporações protegido. Embora a vida pessoal dos cidadãos ordinários estivesse sob controle estrito, a capacidade das grandes corporações de operar em relativa liberdade não foi comprometida. A elite governante viu a estrutura corporativa como u'a maneira para não somente assegurar a produção militar (em estados desenvolvidos), mas também como um meio adicional de controle social. Os membros da elite econômica eram freqüentemente bem tratados pela elite política para assegurar uma mutualidade contínua de interesses, especialmente na repressão de cidadãos "despossuídos".

10. Poder do trabalho suprimido ou eliminado. Visto que o trabalho organizado foi visto como um centro de poder que poderia desafiar a hegemonia política da elite governante e de seus aliados corporativos, ele foi inevitavelmente esmagado ou feito sem poder. Os pobres formavam uma subclasse, vista com suspeita ou aberto desprezo. Sob alguns regimes, ser pobre foi considerado relacionado a um vício (Nota do tradutor: o termo original, "vice", de acordo com o Dicionário Merriam-Webster, pode significar:

"1 a : depravação ou corrupção moral : PERVERSÃO b : uma falha ou queda moral c: um defeito ou um deficiência habitual e geralmente trivial : DEFEITO <sofria do defeito da curiosidade>

2 : IMPERFEIÇÃO, DEFEITO

3 : uma imperfeição, uma deformidade, ou um marca contagiosa física

4 freqüentemente com letra maiúscula: um personagem que representa um dos vícios em uma peça inglesa de moralidade b: PALHAÇO, PERSONAGEM DE TEATRO

5 : um padrão anormal de comportamento em um animal doméstico prejudicial à sua saúde ou utilidade

6 : imoralidade sexual; especialmente: PROSTITUIÇÃO

sinônimo veja FALHA, OFENSA").

11. Desdém e supressão dos intelectuais e das artes. Os intelectuais e a liberdade inerente das idéias e a expressão associada a elas eram anátemas para estes regimes. A liberdade intelectual e acadêmica foi considerada subversiva à segurança nacional e ao ideal patriótico. As universidades foram firmemente controladas; faculdade politicamente não-confiável assediada ou eliminada. Idéias ou expressões não-ortodoxas dos dissidentes foram fortemente atacadas, silenciadas, ou esmagadas. Para estes regimes, arte e literatura devem servir ao interesse nacional ou não têm nenhum direito de existir.

12. Obsessão com crime e punição. A maioria destes regimes mantiveram sistemas draconianos de justiça criminal com enormes populações carcerárias. A polícia era freqüentemente glorificada e tinha poder quase inquestionado, conduzindo ao abuso notório. O "normal" e o crime político foram freqüentemente fundidos em acusações criminais forjadas e usados às vezes contra os oponentes políticos do regime. Medo, e ódio, dos criminosos ou dos "traidores" foi freqüentemente promovido entre a população como uma desculpa para mais poder da polícia.

13. Clientelismo e corrupção notórios. Aqueles em círculos de negócio e perto da elite do poder freqüentemente usaram sua posição para enriquecer-se. Esta corrupção trabalhou em ambas as mãos; a elite do poder receberia presentes financeiros e propriedade da elite econômica, que por sua vez ganharia o benefício do favoritismo do governo. Os membros da elite do poder estavam em uma posição para obter vasta riqueza de outras fontes também: por exemplo, roubando recursos nacionais. Com o aparato da segurança nacional sob controle e a comunicação de massa açaimados, esta corrupção era largamente irrefreada e não bem compreendida pela população geral.

14. Eleições fraudulentas. As eleições em forma de plebiscitos ou pesquisa de opinião pública eram geralmente farsas. Quando eleições reais com candidatos foram levantadas, seriam geralmente pervertidas pela elite do poder para conseguir o resultado desejado. Os métodos comuns incluíram manter o controle da maquinaria da eleição, intimidar e negar direito de voto aos eleitores da oposição, destruindo ou não permitindo votos legais, e, como um último recurso, levar para um judiciário observado pela elite do poder.

Alguma destas sirenes de alarme toca? Naturalmente não. Afinal, estes são os Estados Unidos, oficialmente uma democracia com o governo da lei, de uma constituição, de uma imprensa livre, de eleições honestas, e um público bem-informado que está sendo posto constantemente em guarda contra os males. As comparações históricas como estas são apenas exercícios de ginástica verbal. Talvez, talvez não.

Nota

1 Definido como um "movimento ou regime político que tende para ou que imita o Fascismo" - Webster’s Unabridged Dictionary.

Referências

Andrews, Kevin. Greece in the Dark (Grécia na escuridão). Amsterdam: Hakkert, 1980.

Chabod, Frederico. A History of Italian Fascism (Uma história do fascismo italiano). Londres: Weidenfeld, 1963.

Cooper, Marc. Pinochet and Me (Pinochet e eu). New York: Verso, 2001.

Cornwell, John. Hitler as Pope (Hitler como Papa). New York: Viking, 1999.

de Figuerio, Antonio. Portugal—Fifty Years of Dictatorship (Portugal - Cinqüenta anos de ditadura). New York: Holmes & Meier, 1976.

Eatwell, Roger. Fascism, A History (Fascismo, uma história). New York: Penguin, 1995.

Fest, Joachim C. The Face of the Third Reich (A cara do terceiro reich). New York: Pantheon, 1970.

Gallo, Max. Mussolini’s Italy (A Itália de Mussolini). New York: MacMillan, 1973.

Kershaw, Ian. Hitler (dois volumes). New York: Norton, 1999.

Laqueur, Walter. Fascism, Past, Present, and Future (Fascismo, passado, presente, e futuro). New York: Oxford, 1996.

Papandreau, Andreas. Democracy at Gunpoint (Democracia na mira da arma). New York: Penguin Books, 1971.

Phillips, Peter. Censored 2001: 25 Years of Censored News (2001 censurado: 25 anos de notícias censuradas). New York: Seven Stories, 2001.

Sharp, M.E. Indonesia Beyond Suharto (Indonésia além de Suharto). Armonk, 1999.

Verdugo, Patricia. Chile, Pinochet, and the Caravan of Death (O Chile, Pinochet, e a caravana da morte). Coral Gables, Florida: North-South Center Press, 2001.

Yglesias, Jose. The Franco Years (Os anos de Franco). Indianapolis: Bobbs-Merrill, 1977.

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O romance de Laurence Britt, "June, 2004", descreve um futuro Estados Unidos dominado por extremistas de direita.

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Fonte (do original inglês): Council for Secular Humanism

http://www.secularhumanism.org/library/fi/britt_23_2.htm

Tradução: Walter Nunes Braz Junior

Mulher inteligente existe. Nada impede uma mulher de saber muito e ser boa de raciocínio. Mas você já pesquisou "mulheres inteligentes" em páginas ou comunidades na internet? Eu já. Tem muita coisa boa mesmo algumas vezes, tipo saúde, notícias sobre violência contra a mulher. Mas uma hora o assunto é dieta, outra é como competir com os homens no serviço, outra hora é como manter o relacionamento, outra hora é casa. E muitas vezes é mulher querendo mostrar por que é melhor que o homem.

Algumas mulheres até são bem informadas e estudam mais. Algumas porque querem ser inteligentes, mas outras porque querem mais é parecer melhor que os outros, ou deixar os homens por baixo. Tem mulher que pensa que a mulher tem que ser inimiga dos homens. Eu falo disso em outro texto.

E até hoje tem mulher se sentindo na obrigação de ter filho. Nada contra criança, mas uma mulher é menos mulher se não pode cumprir o crescei e multiplicai-vos? E cadê a modernidade e a inteligência dessa senhora? Na inseminação?

E já reparou que artigo sobre sexo quando é pra homem é sobre pegar mulher e quando é pra mulher é sobre satisfazer o parceiro? E cadê as mulheres que se dizem inteligentes pra falar que até hoje a mulher é vista como objeto? É uma ou outra que fala. Ela se vigia pra fazer o papel de mulher direita e ainda enche a boca pra falar que é decente, é digna, que se valoriza, que sexo tem que ter compromisso, etc. E a preocupação dela é agradar o benzinho dela na cama pra ele não chegar perto de outra mulher. E quando se fala de mulher objeto, tem gente que pensa em pornografia e mocinha mal falada. Mas quase todo mundo que fala mal da pornografia tem problema mesmo é com o sexo, porque ainda acha que ele é sujo, cabeludo, pecaminoso (aliás igual às senhoras de antigamente). E tem prostituta e modelo pornô que tem mais dignidade que muita senhora de família, tanto de caráter quanto de vida.

E tem mulher que finge que não vê problema em uma mulher que tem um amigo íntimo, ficar a sós com um homem mais de meia hora ou trocar e-mail com foto de sexo. Só finge, porque a cabeça dela é uma moralista do século XIX.

Homem não tem medo de mulher bonita e inteligente coisa nenhuma. Eu não sou linda nem muito estudada, mas estou longe de ser uma boboca horrorosa. E os homens que gostam de mim pelas minhas idéias não são nem dois nem três. Homem não chega perto sabe de que mulher? Da que se acha gostosa e sabichona demais, e que isso dá a ela o direito de ser cretina e antipática.

Mulher inteligente cuida do corpo, mas não pra sair de roupa curta pros homens ficarem olhando desejando pelos cantos. Tem umas trouxas que fazem isso (e juram que não). Se ninguém repara, aqui só tem bicha. Se um olha demais, pode tirar o olho que não é pro seu bico.

Mulher inteligente sabe por que querem que ela tenha filhos, e pode ter ou não, mas sem pensar que ser mãe é caso de vida ou morte.

Mulher inteligente não se casa por achar que é a coisa mais importante da vida dela, nem deixa de se casar por odiar os homens.

Mulher inteligente pode fazer ou não sexo anal, troca de casais, transar ou não fora do casamento ou com dois ou mais de uma vez (hum, delícia), mas se não faz não é por resto de uma educação cristã hipócrita.

Mulher inteligente consegue assistir os jornais da Globo ou ler a Veja ou o Folha de São Paulo e ver o que é fato e o que é manipulação. E não sabe só o que eles dizem que é importante.

Mulher inteligente pode ser feia, gorda, encalhada, mas não é antipática nem lê muito pra evitar as pessoas.

Imaculada V. S. Aranha

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Grupo A Vez das Mulheres (fotos de sexo hétero e homens nus)

http://www.grupos.com.br/group/a-vez-das-mulheres

http://groups.google.com/group/avezdasmulheres

Blog Paraíso Concreto

http://paraisoconcreto.blogspot.com/

Grupo Paraíso Concreto (textos e discussões)

http://groups.google.com/group/avezdasmulheres

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Esse texto é do meu blog A Vez das Mulheres e lá eu também coloquei umas fotinhas inspirativas. Aqui eu não pus porque de repente uma mulher pode ver e ficar horrorizada, hehehehe. Beijos. Imaculada.

Livre-Arbítrio

10:11 @ 09/03/2007

O livre-arbítrio, segundo consta, continua um dogma essencial à maioria dos cristãos. Sem ele, as crueldades de Deus esticariam a fé até um ponto de ruptura. Mas, fora do aprisco das ovelhas, parece estar caindo gradualmente em desuso. Os cientistas aplicaram-lhe golpes feios, e mesmo entre os leigos de mente mais inquisitiva o livre-arbítrio parece estar cedendo o lugar a uma apologética espécie de determinismo – um determinismo, pode-se dizer, temperado pela observação deficiente. Mark Twain, bem no fundo, era tal determinista. Em seu O que É o Homem?, pode-se flagrá-lo dando adeus ao livre-arbítrio. A imensa maioria de nossos atos, diz ele, é determinada, mas ainda permanece um resíduo de livre escolha. Com isso, ficamos livres de compulsões e temos duas ou mais alternativas, ficando à vontade para seguir este ou aquele caminho.

Um travesseiro para o livre-arbítrio descansar – só que recheado de tijolos. Onde os ocupantes desta última trincheira do livre-arbítrio se equivocam é em sua suposição de que os safanões de seus impulsos antagonísticos são exatamente iguais – que o indivíduo é absolutamente livre para escolher aquele a quem vai se submeter. Tal liberdade, na prática, nunca é encontrada. Quando um indivíduo se confronta com alternativas, não é apenas a sua vontade que escolhe entre elas, mas também o seu ambiente, seus preconceitos hereditários, sua raça, sua cor, sua condição de servidão. Posso beijar uma garota e posso não beijá-la, mas seria absurdo de minha parte dizer que sou o único elemento ativo neste caso. O mundo até resumiu meu desamparo num provérbio que diz que tudo depende da hora e do lugar – e, até certo ponto, da garota.

Os exemplos podem ser multiplicados ad infinitum. Não consigo me lembrar de ter desempenhado um único ato inteiramente voluntário. Toda a minha vida parece ser uma longa série de acidentes inexplicáveis. É a história das reações de minha personalidade ao meu ambiente, ou de meu comportamento diante de estímulos externos. Não sou responsável nem pela personalidade, nem pelo ambiente. Dizer que posso modificar esta personalidade por um ato voluntário é tão ridículo quanto dizer que posso modificar a curvatura do cristalino de meus olhos. Sei o que estou falando, porque tentei modificá-la várias vezes e sempre fracassei. Apesar disso, ela mudou. Não sou o mesmo homem que era no século passado. Mas as mudanças que aconteceram para melhor não devem ser creditadas a mim. Todas vieram de fora – ou de profundezas insondáveis e incontroláveis dentro de mim.

Quanto mais se examina o assunto, mais o resíduo do livre-arbítrio parece encolher, até que, no fim, torna-se impossível seguir-lhe a pista. Muitos homens, naturalmente, ao se olharem no espelho, batem no peito, consideram-se donos de seu arbítrio e pedem a Deus que os recompense por sua virtude. Mas esses sujeitos são apenas egoístas privados de qualquer senso crítico. Confundem os atos de Deus com seus próprios atos. Não diferem muito da raposa que se gaba de ter posto os cães para correr.

A inutilidade do livre-arbítrio é comumente denunciada como capaz de subverter a moral e fazer a religião de palhaça. Tais objeções tão pias não têm um pingo de lógica, mas vamos abrir uma exceção neste caso e dar uma olhada nelas. Elas se baseiam na capciosa hipótese de que o determinista foge ou tenta fugir às conseqüências dos seus atos. Nada poderia ser mais falso. As conseqüências se seguem aos fatos, implacavelmente, sejam eles voluntários ou involuntários. Se assalto um banco por minha livre decisão ou em resposta a alguma necessidade interior insondável, não importa: vou para a mesma cadeia. Na guerra, morrem tanto os soldados convocados à força quanto os voluntários.

Mesmo do ponto de vista espiritual, o determinismo não provoca tanto estrago na teologia. Não é mais difícil acreditar que um homem será punido por seus atos involuntários do que acreditar que ele será punido por seus atos voluntários, pois mesmo a suposição de que ele é completamente livre não anula o fato de que Deus o fez como ele é – e que Deus poderia ter feito dele um santo, se quisesse. Negar isto é tratar com desprezo o Onipotente – um crime do qual me eximo. Mas agora começo a pensar que chapinhei longe demais na água benta das ciências sagradas, e que é melhor dar o fora antes que me esfolem. Esta prudente retirada é puramente determinística. Não a atribuo à minha própria sagacidade; atribuo-a inteiramente àquela singular gentileza que o destino sempre me reserva. Se eu fosse livre, provavelmente continuaria a escrever – e depois me arrependeria.

Autor: Henry L. Mencken
Fonte: O Livro dos Insultos

Extraido de:http://www.ateus.net/artigos/critica/livre_arbitrio.php

Com todo o respeito, Rosa

11:01 @ 09/03/2007

Em primeiro lugar, por estranho que pareça, peço calma e lucidez. Abandone o pensamento "o próximo João Hélio será o seu filho" e me ouça, pois o pior de todo o caso João Hélio é o não dito.

Quem falou em redução da maioridade penal no caso do índio Galdino Jesus dos Santos, em que um dos cinco envolvidos tinha 17 anos? Não só isso como o caso passou de homicídio triplamente qualificado para lesão corporal seguida de morte, depois que a promotora Maria José Miranda saiu do caso por perseguição e a juíza Sandra de Santis assumiu o caso (Correio Web, 31/10/01). G. A. J. N., o referido menor, era de família de classe média. Já o menor envolvido no caso de João era um bandido qualquer.

Um dos poucos casos que nos despertou a atenção quanto à questão agrária no Norte do país foi o caso de Dorothy Stang, uma freira estadunidense naturalizada brasileira que lutou ao lado dos camponeses por um Projeto de Desenvolvimento Sustentável no Pará e que foi assassinada por fazendeiros em fevereiro de 2005. De acordo com depoimentos, o prefeito de Anapu (PA), Luiz dos Reis Carvalho, pode estar envolvido no caso (Folha de S. Paulo, 01/03/05). Em Unaí (MG), quatro fiscais do Ministério do Trabalho, indo investigar denúncias de trabalho escravo, são mortos em uma emboscada em janeiro de 2004. Isso com o provável envolvimento do prefeito da cidade, em uma cidade do Sudeste e a cerca de 70 km de Brasília. O que seria tido como afronta não só à pessoa humana quanto ao próprio Estado em qualquer país sério não só sumiu dos jornais em pouco tempo como está sem punição até hoje.

E os tais "defensores de bandidos"? Casos de bandidos com privilégios ou que escapam à punição vêm de corrupção no sistema carcerário ou erros do Judiciário. Mudar leis pode trazer resultados, mas longe dos que alguns esperam. Nenhuma palavra sobre os que causaram muito mais prejuízos que os nossos terríveis varejistas do crime e, por terem 3º grau e um bom advogado, mal passaram pela cadeia.

Adriana Ciola, morta em um assalto em agosto de 1996, foi capa da revista Veja seguinte ao episódio. O caso de Flávio Ferreira Sant'Anna, o dentista negro morto pela polícia por ser tido por um assaltante, foi grave pelo enredo em si, mas foi antes de tudo um grande azar dos envolvidos, pois Flávio também era filho de um policial aposentado. Se fosse um servente de pedreiro morador de uma favela, teria sido, para todos os efeitos, mais um assaltante que trocou tiros com a polícia, como os policiais queriam fazer parecer. Aliás, dos 7 policiais envolvidos, 3 já haviam cometido homicídios (Observatório das Violências Policiais). Mas o único jornal, até onde eu sei, que noticiou o caso de sete jovens sem passagem pela polícia mortos por policiais em Capão Redondo, São Paulo, a pretexto dos atentados do Primeiro Comando da Capital em maio passado, foi o Brasil de Fato, de tiragem impressa de 50 mil exemplares.

Debates e documentários sérios são deslocados para o fim da noite ou a madrugada, isso quando ainda são exibidos em TV aberta. Para o horário em que o trabalhador não está dormindo, resta o espetáculo. A prostituição da academia e da estatística com a política. Pesquisas eleitorais que induzirão à escolha entre o ganhador pré-determinado e o segundo colocado sem chances, igualmente pré-determinado. Denúncias graves deixadas para a internet ou programas de menor audiência. E imagens que trazem mais emoção que informação. Aos que não concordam com a realidade cinematográfica, criada como que por decreto, os rótulos: terrorista, desordeiro, direita, defensor de bandidos...

Nos conflitos agrários, policiais e fazendeiros passam 20 dias presos, enquanto trabalhadores rurais ficam seis meses em média ("Justiça trata de forma diferente movimentos sociais, denuncia relatório", Agência Notícias do Planalto). A CPMI da Terra se preocupa em apresentar, no ano passado, um projeto de lei para tornar a invasão de terra um crime hediondo, como se sem-terras ocuparem uma fração de um latifúndio e uma quadrilha expulsar moradores de suas residências fossem essencialmente a mesma coisa. Absurdos policiais e legais nos Estados Unidos, incluindo prisões de manifestantes e outras sem provas, ocorreram a pretexto dos atentados de 11 de setembro - para todos os efeitos, as vítimas eram todas "terroristas" (leia "Uma nação de delatores", de James Petras). Maria Aparecida de Matos, empregada doméstica e analfabeta, passou um ano presa, foi agredida e perdeu a visão de um olho, por ter sido acusada de roubar um frasco de xampu e um de condicionador. Sequer haviam testemunhas (Observatório das Violências Policiais). Aos que falam de "boa vida de preso", recomendo os textos "Pobres e negros é o perfil da população carcerária do Brasil" (Correio Web, 11/06/06) e "Na cadeia por pequenos furtos" (O Estado de S. Paulo, 26/03/06). E o que virá de toda essa comoção nacional com o rapazinho morto? Mudanças nas leis e na segurança, possivelmente. Mas não visando a segurança do que entendemos como "cidadão de bem", mas para garantir uma realidade político-econômico-social cada vez mais difícil de ser aceita com veneração e sem reação.

Walter Nunes Braz Junior - w42739@yahoo.com.br

UFV, 9 de março de 2007

* Rosa Cristina Fernandes Vieites é a mãe de João Hélio Fernandes Vieites. Ela foi assaltada enquanto dirigia na zona norte do Rio de Janeiro e os ocupantes foram obrigados a sair do carro. O menino, de 6 anos, não conseguindo tirar o cinto de segurança, morreu depois de arrastado por quatro bairros da zona norte. 7 de fevereiro de 2007.

Falando a verdade

12:41 @ 10/03/2007

Na edição passada, aludi à polêmica do filme Turistas, defendendo aquilo que não havia visto ainda, mas gostado. Bem, infelizmente, este filme não é nada comparado às 18 mortes ocorridas no Rio de Janeiro num intervalo de 36 horas, às vesperas do reveillon. Não foi nenhuma fita cinematográfica não! Foi a mais pura realidade!

Infelizmente, praticamos o nosso ufanismo tolo quando a questão é secundária. Deveríamos nos conscientizar acerca de permitirmos a posse de um Presidente corrupto, o crime organizado tomando conta das nossas cidades, a justiça inoperante, um Brasil na bancarrota, derrotado pelo servilismo e prostituição infantil e com um Congresso absolvido pelos telespectadores de Big Brother Brasil.

O Brasil é uma merda e continuará sendo essa bela porcaria, patrocinado pela roubalheira de nossos sonhos. Há quem pense o país de 4 em 4 anos, sobretudo a "Pátria de Chuteiras" com Kaká, Robinho & cia. Quero mais que isso! Quero fazer da minha inteligência repúdio a este país em frangalhos, quero ter a certeza de poder viajar de ônibus e não virar churrasquinho do crime organizado. Quero pagar  meu IPVA mas ter estrada para rodar e não pistas de motocross. Quero um país onde possa educar meu filho, com professores que o incitem ao raciocínio e não com professorinhas que passam fome e não lêem um livro por ano.

"O brasileiro não desiste nunca!" Criaram esse jargão imbecil, parecendo catecismo de quinta categoria. Quando o mais normal seria desistir de ser brasileiro. A EMBRATUR tenta a todo custo vender a imagem do Brasil lá fora exibindo belas brasileiras na praia em fio dental. Para vender a imagem do "País Bunda", está bom!

Ademais, o brasileiro precisa deixar de ser frouxo, "corno manso", daquele que se indispõe com aquele que o alerta acerca da traição da esposa. Quando os argentinos nos classificam como "macaquitos", compreendo! Talvez seja o sangue portenho, acostumado a protestar a ficar engolindo um sapo atrás do outro.

Reafirmo a informação: A barbárie asassinou 18 pessoas num intervalo de 36 horas. E depois vem esse brasileirinho mediano espalhar corrente para boicotar o filme Turistas?! Provincianozinhos de merda!

Autor: Marcelo Pereira Rodrigues

Fonte: Jornal Cultural Conhece-te a ti mesmo, nº 71, janeiro de 2007

Publicado com permissão do autor

Meus comentários: o Nazismo e o Fascismo também incentivaram o nacionalismo, assim como temos a campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro" - e não se diga que Nazismo e Fascismo são assuntos mortos na primeira metade do século XX. Enquanto nosso país está "na lama" em nossa própria observação (refiro-me aos mais conscientes, é claro), e é visto pelas multinacionais e pelo Primeiro Mundo como uma nova colônia, que lhes dará lucros, um destino final para tecnologias proibidas ou ultrapassadas e uma profusão de mulheres atraentes e fáceis, nós somos induzidos a venerar esse país, e a reduzir a afirmação do Brasil no exterior a produzir belos carnavais para os endinheirados (nativos ou estrangeiros), conquistar títulos em copas e olímpiadas e ser coadjuvantes em projetos alheios. O que não quer dizer que devemos achar que a saída para o Brasil seja o aeroporto do Galeão, mas que, reconhecendo o potencial para o Brasil ser bem melhor do que é, devemos lutar para que esse país possa ser tão bom quanto pode ser, e essa luta deve ser mais do que procurar o "salvador da pátria" que devemos levar ao poder. No demais, fora os palavrões, o autor tirou as palavras da minha boca.

Walter N. Braz Jr.

Declaração formal de guerra poética para tomar o céu por assalto
O surrealismo está vivo e lança-se à ação

Leia-se e multiplique-se
Considerando:
a) que cada dia que passa são cada vez mais as perversões escravagistas dos Impérios e dos seus cúmplices
b) que a miséria cresce, o crime cresce, a injustiça cresce, as ameaças crescem
c) que está em marcha um ataque armado imperial para cancelar definitivamente a liberdade
d) que somos reféns das ditaduras financeiras, bancárias, clericais, midiáticas, legalóides, politiqueiras e moralistas
e) que não temos descanso nem nos deixam respirar
f) que pretendem usurpar-nos a vida e a esperança
g) que semearam com mortos os nossos sonhos e vigílias
h) que o medo inunda as noites e dias com noticiários, embargos judiciais e moral policial
i) que o terror tem cotação nas bolsas
j) que estamos acorrentados aos fios da consciência
k) que a podridão e a pouca vergonha desfilam triunfalmente pelas avenidas da impunidade
l) que a democracia fica desfigurada com a mais despudorada campanha nacionalista, fascista e patrioteira
m) que converteram o trabalho numa carnificina
n) que arrastamos pelas ruas as nossas depressões e cansaços como alma escondidas nas sombras elípticas dos abutres
o) que a fome nos tira lascas 365 vezes por minuto
p) que a humilhação goza de perfeita saúde
q) que o desemprego é um grande negócio
r) que tudo é ainda passível de piorar
s) que isto já não é assunto de caciques
t) que somos o alvo
u) que eles fabricam cada dia mais e melhores armas
v) que se votarmos neles seremos então seus
w) que não há tempo a perder. Que a consciência do nosso atraso não é suficiente
x) que o nosso trabalho, tal como está, faz-nos cada vez mais escravos e mais miseráveis
y) que eles estão organizados e se preparam para nos dar o golpe final
z) que não basta unirmo-nos… é preciso organizarmo-nos revolucionarmente
Promulgamos...
Real Declaração Universal
Dos Direitos da Revolução Permanente
(e as suas permanentes obrigações)
I. Todos os seres humanos podem, devem e precisam ser revolucionários. A partir de hoje será obrigação e direito de todos executar pelo menos três ações revolucionárias diárias contra qualquer sinal de escravidão física e mental.
II. Será reconhecida como revolucionária toda aquela ação organizada que contribua direta ou indiretamente, objetiva ou subjetivamente, para dar por terminado o modo escravagista e de exploração criado pelo capitalismo imperial.
III. Esta declaração propõe o amor e a poesia como formas supremas da revolução. Toda a indiferença face à revolução será considerado como delito de lesa-majestade
IV. A mansidão, docilidade e inatividade complacentes para com o capitalismo serão consideradas indecentes e imorais
V. Está proibida qualquer revolução na solidão. (salvo casos excepcionais ou extremos). É dever e direito de toda a pessoa, que se respeite, construir a revolução acompanhado. É mais produtivo, mais seguro e mais saboroso.
VI. Será propósito de cada ato de amor honesto e cotidiano converter-se em revolução que liberte corpos e espíritos para uma vida digna, dentro do possível, ainda que não pareça.
VII. É prerrogativa e obrigação da humanidade contribuir para a construção de uma grande frente única revolucionária (a Revolução Mundial) que será com a maior brevidade convertida num poema coletivo para a redistribuição eqüitativa da felicidade e justiça. Tudo isto está nas nossas mãos, isto é, de todos nós.
VIII. É certo que não basta ser rebelde, mas há que começar por alguma coisa. Quando começar a grande revolução mundial, o que só acontecerá quando toda a opressão, escravatura e exploração estejam desterradas, manter-nos-emos revolucionários para não nos transformarmos no seu contrário.
IX. É preciso que a revolução se expresse por todas as áreas da vida. Por isso, daqui para diante, será necessário sermos revolucionários nos sonhos e no descanso, nos jogos e nos trabalhos, pública e em privado. Será prerrogativa de todo o revolucionário produzir beijos revolucionários, abraços revolucionários, carícias revolucionárias. Ciência, artes, filosofias e ofícios revolucionários. Não há desculpas para não se amar em revolução crescente e postergar um minuto que seja os mandatos do desejo.
X. Esta declaração é uma declaração de guerra contra toda a hegemonia da razão sobre os instintos e vice-versa. É uma declaração contra a separação entre a consciência e o inconsciente. É uma declaração de guerra contra a separação entre o espírito e o corpo. É uma declaração de guerra contra a separação do trabalho intelectual e o trabalho manual. É uma declaração de guerra contra a separação entre a riqueza material e os povos que a produzam. Contra a propriedade privada.
XI. Esta declaração é uma declaração de guerra contra a apatia, a desorganização, a depressão, a mediocridade, a sujidade, a miséria, a corrupção, os saldos amargos, a austeridade para tantos, a abulia, as doenças, as deficiências, os atrasos, as desigualdades, os maus tratos, a intranqüilidade, a insônia, a impotência, a frigidez, o bom comportamento, as atitudes burguesas, a desnutrição, o abandono, a solidão e a tristeza.
XII. A partir de agora é obrigatória a revolução que fecunde alegria para todos, o bem estar material e emocional, o sexo criativo, lúdico e amoroso, o trabalho não alienante, a paz entusiasta, à vontade de rir-se sem ser por motivos estúpidos, a amizade contundente, o amor louco e tudo quanto a nossa consciência exigir para satisfazer as necessidades, pessoais e coletivas, para aproximarmo-nos daquilo que todos sonhamos como um mundo melhor, que é um mundo sem exploração, feito por e para uma humanidade renovada. E isso não é impossível.
XIII. É inaceitável ser-se indiferente a esta declaração.
XIV. “Não será o medo à loucura que nos obrigará a baixar as bandeiras da imaginação”
Autor: Fernando Buen Abad Dominguez tradução para português de um original de Fernando Buen Abad Domínguez, sob o título “Cartas desde el surrealismo Nº 5, que se encontra em: www.barriodelcarmen.net

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Esse texto foi mandado pelo meu grande amigo Carlos Wellington, membro do grupo Paraíso Concreto.
Também está no meu blog Paraíso Concreto.

Aquecimento mental

13:19 @ 16/03/2007

“O mundo seria um lugar muito mais lindo

sem nós, [os humanos]”.

“Nunca deveríamos sentir que vamos

demasiado longe quando

quebramos a lei”.

(Paul Watson - Co-fundador do Greenpeace).

O ecologismo, como o comunismo, não é mais que outra técnica para instigar a luta de classes. O exemplo mais “avançado” no mundo ocidental é visto na Espanha de Rodríguez Zapatero. Sua prosa científica é às vezes tão vazia que nenhuma realidade palpável é atribuível a seu discurso. Entretanto, este demagogo aparenta frescor, parece preocupado e carregado de boas intenções, mas não pode ser “adequadamente” interpretado por outro ecologista, a não ser que este compartilhe um mundo solipsístico similar. Ou seja, se o cacarejado aquecimento global dos ecologistas radicais fosse real, os cientistas que não padeçam da mesma enfermidade jamais poderiam entender o que isso significa.

Este agravo em contínuo aquecimento é o que eu chamaria o “paradoxo ecologista”. Pura ciência gramatológica, ou o que dá no mesmo, pseudo-ciência expressada em retalhos com a incorência típica de um pesadelo interrompido por vários sobressaltos. Lembremos que nos anos 80 os ecologistas não “temiam” o aquecimento mas o “esfriamento global”. É como uma piada obscena. Padecem de uma ingenuidade tão grotesca que na maioria dos casos corta as tangentes do obscurantismo, do fundamentalismo religioso e dos preceitos neo-marxistas. Pergunte a um destes “eco-cientistas” o que é a mitose, ou onde ocorre a fotossíntese e ainda encontrará tempo para fotografar suas caras de assombro.

O PSOE espanhol garante a todas as confrarias do país preços baixos para os combustíveis fósseis (ou seja, para continuar explorando os recursos marinhos). Porém, continua condenando o PP pela catástrofe do “Prestige”. Como se entende isto? Como pode o povo espanhol acreditar que o futuro da eletricidade está nas aspas das turbinas eólicas? Muito fácil: se você controla a televisão nacional e se passa toda a legislatura repetindo sandices em todos os seus telejornais, você termina convencendo o cidadão comum de que a estupidez é normal. Imaginem agora 40 milhões de espanhóis comendo merda; por que acreditar que merda não se come se muitos milhões mais de moscas o fazem? Se o derramamento de poluentes é de origem estrangeira o PSOE clama por escândalo mas, se é de origem nacional, todas as cadeias de televisão transmitirão o futebol à noite.

Algo razoavelmente ambientalista seria aquilo que avançasse para um novo nível dentro do conhecimento ecológico, porém as professias de James Lovelock e de Paul Ehrlich continuam sendo as mesmas apesar de sua falsidade comprovada. Nos anos 80, centenas de milhares de espécies e seres humanos deveriam ter desaparecido, porém estão aí ainda, vivinhas e balançando o rabo. A veracidade dos alarmes ecologistas é, portante, inaceitável diante de sua constante falsidade. O conhecimento irrelevante dos ecologistas sobre a ecologia (alarmante, sem sombra de dúvidas!) não vai além da seguinte premissa: aqueles que encontrem ordem no ambiente, não pararão de protestar até vê-lo em desordem. Assumo, então, que suas realidades não têm nada a ver com o senso comum.

Para que meus compatriotas cubanos vejam quem é este famoso Paul Ehrlich, basta que lhes diga que ele é o ganhador de inúmeros prêmios ambientalistas. O primeiro da Mac Arthur Foundation (Genius Award), amplamente conhecida pelo financiamento da maioria dos projetos de “cooperação científica” (leia-se financiamento da guerra biológica contra os Estados Unidos) com Cuba, enquanto que o segundo prêmio vem da senhora Teresa Heinz Terry (Heinz Award for the Environement), a magnata do catchup que Fidel Castro tanto adora e ao qual de vez em quando lhe presenteia com um milhão de dólares porque quer. É por isso que Al Gore meteu-se a profeta ecologista. Em prognósticos ecológicos (como os de Ehrlich), quanto mais erradas sejam as profecias, mais premiado serás. Já se aproximam os “Oscars” e o obeso Al já promete ser a torrada da cerimônia![*]

Porém, do mesmo modo digam que sou um cético intransigente mas demonstrem-no, respondendo-me as perguntas que na continuação lhes faço: se a ciência se preza pela humildade e suas teorias não são mais do que marcas a desmentir prazerosamente, como se podem considerar verdadeiros cientistas aqueles que, como os ecologistas, ou os especialistas do IPCC, não aceitam jamais estar equivocados? Se a rapidez em detectar um erro é o que um cientista mais agradece (pois assim pode corrigir imediatamente sua desafortunada hipótese), por que se mantêm na mesma hipótese do aquecimento global esses profetas fracassados? Quem mediu a produção (recuso-me rotundamente, em nome das plantas, a chamá-la de contaminação) mundial de CO² de origem humana e como o fez? E por que não se mediu o CO² que “normalmente” o meio natural produz?

A respiração dos seres vivos é algo normal ou devemos combatê-la? Desperdiça a oportunidade de reconhecer sinceramente teus erros e não serás ninguém no mundo das ciências. Desde aquele 1962 (de Rachel Carson) até hoje (com Al Gore), os ecologistas continuam sem abandonar as professias por simulação. Se não nos equivocamos, - dirão então –, foi por culpa do computador, da Microsoft e de Bill Gates! O tonto do Al Gore, talvez sem sabê-lo, converteu-se no novo Papa populista da eco-teologia da libertação ou, para dizer de outro modo, no Aiatolá dessas legiões verdes anti-progresso que querem acabar com o bem-estar do mundo ocidental. O custo de seus desejos (o de deter o desenvolvimento norte-americano), como todos os da esquerda americana, ascenderia a 553 trilhões de dólares até finais do século.

Ninguém pôde estabelecer cientificamente uma correlação entre o “aquecimento global” e a produção humana de CO². Quando políticos como Al Gore dizem que o aquecimento global é um fato consumado, mentem. De fato, os cálculos sobre a produção antrópica do CO² são os mais duvidosos, pois constituem só 3% do ciclo natural do gás e através do qual o CO² seria a moeda de troca entre a biosfera, a hidrosfera e a atmosfera terrestre. Nas últimas 5 décadas, o CO² de toda a atmosfera se incrementou apenas em 65 partes por milhão (de 315 ppm a 380 ppm). Por isso, digo que aquele que se apaixone por uma teoria errada e atire pela janela seu prestígio acadêmico em honra de salvar um capital político, não é um cientista, senão um magnífico ecologista.

Outro exemplo, para terminar: A NOAA reportou desde o observatório de Mauna Loa (Havaí) um incremento de 2.30 ppm em 2004 e agora o aumento só alcançou 1,5 ppm. Então, se a culpa do aquecimento global é da atividade humana, isto quer dizer que o ser humano diminuiu em 50% sua atividade industrial e vamos pelo bom caminho? Pergunto porque, se o incremento do CO² é causado por nossa irresponsável ignorância desenvolvimentista, então algo não está de acordo. Por felicidade, os cientistas da NOAA não emulam com os ecologistas do IPCC e reconheceram que o decréscimo desses 50% foi causado pelo processo natural que, TODOS SABEM, contribui constantemente para reduzir o dióxido de carbono da atmosfera.

Para Al Gore e para a maioria dos bruxos do IPCC, o aumento de furacões é outra das conseqüências diretas do “aquecimento global”. Se Gore se apresentasse às eleições presidenciais de 2008, certamente ganharia o estado de Louisiana. Para meteorólogos de renome como William Gray, “a relação dos furacões com o aquecimento global é inversamente proporcional ao conhecimento que se tem destas perturbações”. Porém, Gore é, sobretudo, um ecologista covarde. Quando a revista Jyllands-Posten o convidou em janeiro para uma entrevista ao vivo Al Gore aceitou, porém quando soube que Bjorn Longborg (estadista crítico do dogma do eco-teológico) estaria presente, o inepto mastodonte de Tennessee cancelou sua participação.

Tenho uma pena tremenda de todos estes velhos e jovens idealistas doando centenas de milhões de dólares a estes eco-degenerados, com a esperança de contribuir para salvar o mundo. Me dói tremendamente ver todos estes voluntários ecologistas trabalhando como escravos para pagar as limousines, as viagens e as mansões, ou as ações terroristas de gente como Gerd Leipold, Al Gore ou Paul Watson. Porém, o que vamos fazer se esses eco-sonhadores são românticos natos e necessitam, como militantes de esquerda que são, de um mito e de um dogma para poder sonhar? Alguém poderia me explicar por que há tantos membros de nossa mesma espécie compartilhando semelhante necessidade?



[*] Este artigo foi escrito em 25 de fevereiro, antes da “Noite do Oscar”, portanto. (N.T.)

Tradução: Graça Salgueiro

Publicado originalmente no site Fundación Argentina de Ecología Científica – FAEC - http://www.mitosyfraudes.org/Polit/Mental-2.html

Extraido de:http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=5642&language=pt

A inutilidade das leis

15:33 @ 20/03/2007

Peter Kropotkin

(in Lei e autoridade, 1886)

A um exame atento, as milhares de leis que existem para regular a humanidade parecem estar divididas em três categorias principais: proteção da propriedade, proteção dos indivíduos, proteção do governo. E analisando cada uma destas categorias, chegamos a uma única e inevitável conclusão lógica e necessária: a inutilidade e perniciosidade das leis.

Os socialistas sabem o que significa proteção da propriedade. As leis que regulam a propriedade não foram criadas para garantir, nem ao indivíduo nem à sociedade o gozo do produto do seu trabalho. Pelo contrário, elas foram criadas para despojar o produtor de uma parte daquilo que ele produziu e para garantir a outras pessoas a posse daquela porção do produto que foi roubado, ou do produtor em particular ou da sociedade em geral. Quando, por exemplo, a lei assegura ao Senhor Fulano de Tal o direito sobre uma casa, ela não está estabelecendo seu direito sobre uma casinha que ele mesmo tenha construído, ou a um prédio erguido com a ajuda de alguns amigos. Se fosse assim, seus direitos nem seriam questionados. Mas pelo contrário, a lei está estabelecendo seus direitos sobre uma casa que não é fruto do seu trabalho, em primeiro lugar porque ele a fez construir por outros, aos quais nem sequer pagou o preço justo pelo trabalho realizado e, depois, porque a casa representa um valor social que ele não poderia ter produzido para si. A lei, no caso, está estabelecendo o seu direito a algo que pertence a todas as pessoas em geral e a nenhuma em particular. A mesma casa construída nos confins da Sibéria não teria o mesmo valor que tem numa cidade grande e, como sabemos, este valor é o resultado de cerca de 50 gerações de homens que construíram a cidade, embelezaram-na, dotando-a de água e gás, belas avenidas, universidades, teatros, lojas, vias férreas e estradas que levam a todas as direções. Assim, ao reconhecer os direitos do Sr. Fulano a uma determinada casa em Paris, Londres ou Rouen, a lei está lhe reservando, injustamente, certa porção do produto do trabalho da humanidade, como um todo. E é precisamente porque essa apropriação - e todas as outras formas de propriedade que tenham as mesmas características - é uma injustiça gritante que são necessários todo um arsenal de leis e um exército de soldados, policiais e juízes para mantê-las contra o bom senso e o sentimento de justiça inerentes à humanidade.

A metade das nossas leis - o código civil de cada país - não serve a qualquer outro propósito senão o de manter esta apropriação, este monopólio em benefício de determinados indivíduos em detrimento de toda a humanidade. Três quartos das causas julgadas pelos tribunais não são nada mais do que disputas entre monopolistas - dois ladrões lutando pela posse do produto de seus roubos. E muitas das nossas leis criminais têm o mesmo objetivo em vista, tendo sido criadas para manter o trabalhador numa posição de subordinação em relação ao patrão, proporcionando a segurança necessária para que a exploração continue.

Quanto a garantir ao produtor o produto do seu trabalho, não há qualquer lei que ao menos tente fazê-lo, já que isso é algo tão simples, tão natural, de tal modo integrado aos usos e costumes da humanidade, que o Direito nem sequer cogitou disso. O banditismo às escancaras, com espada na mão, não é uma característica da nossa época. Nem jamais dois trabalhadores chegam a disputar o produto do seu trabalho. Se têm um desentendimento, eles o resolvem chamando uma terceira pessoa, sem que haja necessidade de recorrer à lei. O único ser capaz de arrancar de outro o produto do seu trabalho é o proprietário que interfere sempre para ficar com a parte do leão. Quanto à humanidade em geral, ela em toda a parte respeita o direito de cada um àquilo que ele mesmo criou, sem recorrer a qualquer lei especial.

Como todas as leis sobre propriedade, que enchem grossos volumes de Códigos de Direito e fazem as delícias de nossos advogados, não têm qualquer outro objetivo senão o de proteger a apropriação injusta, garantir que certos indivíduos se apropriem indevidamente do trabalho de outros seres humanos, não há nenhuma razão que justifique a sua existência. No dia da Revolução, os revolucionários sociais estão firmemente decididos a acabar com todas elas. E na verdade, nada mais justo do que fazer-se uma grande fogueira ao ar livre lançando nela todas as leis que tratassem dos assim chamados "direitos de propriedade", todos os títulos de propriedade, todos os registros e escrituras: em uma palavra, tudo aquilo que tivesse qualquer ligação com uma instituição que logo será vista como uma nódoa da humanidade, tão humilhante quanto a escravidão ou o servilismo de outras épocas.

As observações que acabamos de fazer a respeito das leis sobre a propriedade poderiam ser aplicadas também à segunda categoria de leis: aquelas destinadas a manter os governos, ou seja, as leis constitucionais. É outra vez um arsenal de leis, decretos, disposições, decisões de conselhos e o que mais houver, criados com o fim de proteger as diversas formas de governo, seja ele representativo, delegado ou usurpado, sob cujo tacão a humanidade se contorce. Sabemos bem - e os anarquistas não cansam de demosntrá-lo em suas eternas críticas contra as várias formas de governo - que a missão de todos os governos, monárquicos, constitucionais ou republicanos, é proteger e manter através da força, os privilégios das classes dominantes - a aristocracia, o clero e os comerciantes. Mais de um terço de todas as leis que existem - a cada país tem milhares delas que regulam os impostos, as taxas, a organização dos departamentos ministeriais e suas repartições, as Forças Armadas, a Polícia, a Igreja, etc. - não tem qualquer outro objetivo senão manter, remendar e desenvolver a máquina administrativa. E esta máquina, por sua vez, funciona quase que exclusivamente para proteger os privilégios da classe dominante. Analise estas leis, observe-as em ação no dia-a-dia e descobrirá que nenhuma delas merece ser preservada.

Sobre estas leis não pode haver duas opiniões diversas - não apenas os anarquistas como os radicais mais ou menos revolucionários concordam que a única coisa a fazer com as leis que tratam da organização dos governos seria arremessá-las ao fogo.

Resta considerar a terceira categoria, aquela que diz respeito à proteção dos indivíduos e ao combate e prevenção do "crime", a mais importante delas, já que a maior parte dos preconceitos a ela estão vinculados; porque, se desfruta de uma certa consideração especial, é em conseqüência da crença de que este tipo de lei é absolutamente indispensável à manutenção da segurança em nossas sociedades.

Essas leis, criadas a partir das práticas mais úteis às comunidades humanas, foram mais tarde aproveitadas pelos governantes como um dos meios para justificar sua própria dominação. A autoridade dos chefes das tribos, das famílias mais ricas da cidade e do rei dependia da função de juízes que desempenham o mesmo nos nossos dias: sempre que é discutida a necessidade da existência de um governo é o seu papel como juíz supremo que está sendo posto em questão. "Se não houvesse governo, os homens acabariam por destruir-se uns aos outros" - diz o orador da aldeia. "O principal objetivo de todos os governos é assegurar a cada acusado o direito de ser julgado por doze homens honestos", afirmou Burke. Pois bem, apesar de todos os preconceitos que ainda existem em torno do tema, já é tempo de que os anarquistas declarem, em alto e bom som, que esta categoria de lei é tão inútil e injuriosa quanto as precedentes.

Em primeiro lugar, quanto aos assim chamados "crimes" - assaltos contra pessoas - é sabido que pelo menos 2/3 e freqüentemente 3/4 deles são instigados pelo desejo de apossar-se da fortuna alheia. Esta imenas classe de "crimes e delitos" desaparecerá no dia em que a propriedade privada deixar de existir. "Mas - dirão alguns - se não tivermos leis para contê-los e castigos para detê-los, sempre haverá bandidos para tentar contra a vida de seus semelhantes, que levarão a mão à faca em todas as lutas nas quais se envolverem e vingarão a mais insignificante ofensa com a morte". Este refrão é repetido sempre que se põe em dúvida o direito que a sociedade tem de punir os criminosos.

Entretanto, há um fato relacionado a este assunto que hoje já foi suficientemente provado: a severidade da pena não diminui a quantidade de crimes. Enforque e esquarteje os criminosos se quiser, e o número de crimes continuará igual. Elimine a pena de morte e não terá um crime a mais, eles diminuirão até. As estatísticas o provam. Mas se a colheita for boa, o pão barato e fizer bom tempo, o número de crimes cairá imediatamente. Isso também pode ser provado pelas estatísticas. A quantidade de crimes sempre aumenta ou diminui em proporção direta aos preços dos alimentos e ao estado do tempo. Não que a fome seja a causa de todos os crimes. Não é este o caso. Mas se a colheita é boa, e os alimentos podem ser comprados a um preço acessível quando o sol brilha, os homens, de coração mais leve e menos infelizes que de costume, não se entregam a paixões sombrias, nem mergulham a faca no peito de seu semelhante por motivos banais.

Além do mais, é também sabido que o medo do castigo nunca impediu que qualquer crime fosse cometido. Aquele que mata seu vizinho por vingança ou miséria, não pensa muito nas conseqüências; e houve, até hoje, bem poucos assassinos que não estivessem firmemente convencidos de que não deveriam ter sido acusados.

Não falando de uma sociedade em que o homem receberá uma educação melhor, em que o desenvolvimento de todas as suas faculdades e a possibilidade de exercê-las irá proporcionar-lhe tantas alegrias que ele não procurará envenená-las com remorsos - mesmo numa sociedade como a nossa, mesmo com estes tristes produtos da miséria que hoje vemos entre o povo das grandes cidades. No dia em que os criminosos não sofrerem mais qualquer castigo, o número de crimes não aumentará e é extremamente provável que, pelo contrário, sofra o decréscimo por criminosos reincidentes, homens que a prisão embruteceu.

Somos continuamente lembrados dos benefícios que a lei confere e dos efeitos benéficos do castigo, mas terão aqueles que nos falam tentado alguma vez fazer um balanço entre os benefícios atribuídos às leis e castigos e os efeitos degradantes que esses castigos tiveram sobre a humanidade? Tente calcular todas as perversas paixões que os atrozes castigos infligidos em nossas ruas despertaram na humanidade. O homem é o animal mais cruel que existe na face da terra. E quem terá estimulado e desenvolvido esses instintos cruéis, desconhecidos mesmo entre os macacos, senão o rei, o juíz e os padres apoiados em leis que permitiam que a pele fosse arrancada em tiras, o breu fervente derramado sobre as feridas, os membros arrancados, os ossos esmagados, os homens despedaçados para que sua autoridade fosse mantida? Tente avaliar a torrente de depravação libertada entre a sociedade humana pela política de delação encorajada pelos juízes e paga em dinheiro vivo pelos governos, a pretexto de auxiliar na descoberta de "crimes". Basta apenas que entre nas prisões e veja no que se transforma um homem privado da liberdade e encerrado com outros seres depravados, mergulhados no vício e na corrupção que escorre das próprias paredes das nossas prisões. Basta lembrar que, quanto mais reformas sofrem estas prisões, mais detestáveis se tornam. Nossas modernas prisões-modelo são mil vezes mais abomináveis do que as masmorras da Idade Média. Finalmente, basta lembrar da corrupção e depravação que existem entre os homens, alimentadas pela idéia da obediência - que é a própria essência da lei - da punição; da autoridade arrogando-se o direito de punir, de julgar sem considerar nem a nossa consciência, nem a estima de nossos amigos; da necessidade de que hajam carrascos, carcereiros e informantes - em uma palavra, de todos os atributos da lei e da autoridade. Pense em tudo isto e certamente concordará conosco quando afirmamos que uma lei que inflige punições é uma abominação que deveria deixar de existir.

Povos sem organização politica e, portanto, menos depravados do que nós entenderam perfeitamente que o homem a quem chamam de "criminoso" é simplesmente um infeliz; que a solução não é açoitá-lo, acorrentá-lo ou matá-lo no cadafalso ou na prisão, mas ajudá-lo como a um irmão, dispensando-lhe um tratamento baseado na igualdade e nos costumes em vigor entre os homens honestos. Na próxima revolução, esperamos que o grito de guerra seja: "Queimem as guilhotinas, destruam as prisões, expulsem os juízes, os policiais e os informantes - a raça mais imunda que existe sobre a face da terra; tratem como a um irmão o homem que foi levado pela paixão a praticar o mal contra seu semelhante; e, sobretudo, retirem dos ignóbeis produtos da ociosidade da classe média a possibilidade de exibir seus vícios sob cores atraentes, e estejam certos de que apenas uns poucos crimes violnetos virão perturbar a nossa sociedade".

Os principais incentivadores do crime são a ociosidade, a lei - leis que regem a propriedade, o governo, as punições e os delitos - e a autoridade que toma a seu cargo a criação e aplicação destas leis.

Chega de leis! Chega de juízes! Liberdade, igualdade e solidariedade humana são as únicas barreiras efetivas que podemos opor aos instintos anti-sociais de alguns seres que vivem entre nós.

~~*~~*~~*~~*~~

Referência da fonte: KROPOTKIN, Peter.  A inutilidade das leis.  In: WOODCOCK, George. Os grandes escritos anarquistas, 2 ed.  Tradução de Júlia Tettamanzi e Betina Becker.  Porto Alegre: L & PM Editores, 1981, pág. 101-6.

Referência a esta cópia: KROPOTKIN, Peter.  A inutilidade das leis.  citado por CONTRA OS REIS E AS RELIGIÕES.  [s. n. t.] Disponível na internet em <http://www.grupos.com.br/blog/semsenhores/permalink/12911.html>

Ação anarquista

17:42 @ 22/03/2007

Nicolas Walter

(in Sobre o anarquismo, 1969)

A diferença entre teorizar sobre o anarquismo e colocá-lo em prática implica em uma mudança de estrutura. O típico grupo de discussão ou propaganda, aberto à participação de estranhos e à vigilância das autoridades e que tem como base o fato de que cada um pode fazer o que quiser e não fazer o que não quiser tornar-se-á mais exclusivo e formal. Este é um momento de grande perigo, já que uma atitude demasiado rígida levará ao autoritarismo e ao sectarismo, e a indulgência resultará em confusão e irresponsabilidade. É um momento de perigo ainda maior também porque, no momento em que o anarquismo passa a ser um assunto sério, os anarquistas passam a representar uma ameaça real e a verdadeira perseguição começa.

A forma de ação anarquista mais comum é fazer com que a agitação provocada por uma determinada questão se transforme em participação ativa numa campanha. Esta tanto poderá ser reformista, tentando mudar algma coisa sem alterar todo o sistema; ou revolucionária, pregando uma transformação do próprio sistema; poderá ser legal, ilegal ou ambas; violenta, pacífica ou apenas não-violenta. Poderá ter possibilidades de sucesso ou ser, desde o início, uma causa perdida. Os anarquistas tanto poderão ter grande influência, e até mesmo dominar a campanha, quanto ser apenas um dos grupos participantes.

Não é difícil pensar numa grande variedade de possíveis campos de ação e durante séculos os anarquistas experimentaram todos eles. Mas a forma de atuação que os anarquistas mais apreciam e que é mais típica do movimento é, sem dúvida, a ação direta.

O conceito de ação direta é muitas vezes mal interpretado, tanto pelos anarquistas quanto por seus inimigos. Quando a frase foi usada pela primeira vez, em 1890, ela desginava apenas o antônimo de ação política, ou seja, parlamentar; e no contexto do movimento operário significava "ação industrial" em especial as greves, boicotes e sabotagens que eram vistos como uma forma de preparação e ensaio para a revolução. O importante é que a ação não fosse exercida pelas pessoas mais envolvidas na situação em causa e diretamente sobre ela, o objetivo principal sendo obter algum resultado concreto e não apenas publicidade para o movimento.

E embora isto nos pareça bastante claro, o que aconteceu na verdade é que a ação direta foi confundida com propaganda através da ação e, especialmente, com uma forma de desobediência civil.

A técnica de ação direta surgiu durante o movimento sindicalista francês como uma reação às formas mais radicais de propaganda através da ação; em vez de desviar-se do caminho, perdendo-se em gestos dramáticos, mas pouco eficazes, os sindicalistas lançavam-se a um trabalho mais monótono mas eficaz - esta era pelo menos a teoria. Mas à medida em que o movimento sindicalista entrou em conflito com o sistema na França, Espanha, Itália, Estados Unidos, Rússia e até mesmo na Inglaterra, os aspectos positivos da ação direta começaram a assumir as mesmas funções dos atos de propaganda pela ação. Então, quando Gandhi começou a descrever como ação direta o que era na verdade uma forma não-violenta de desobediência civil, os três tipos de ação acabaram por se confundir, adquirindo um significado mais ou menos único, quando passaram a designar qualquer forma de atividade pública que fosse contra a lei ou de qualquer forma que contrariasse as regras aceitas pela etiqueta constitucional.

Para a maior parte dos anarquistas, entretanto, a ação direta ainda conserva seu significado original, embora, a par de formas tradicionais, tenha adquirido outras - tais como a invasão de bases militares, ocupação de universidades, casas particulares ou fábricas. O que a torna tão atraente aos olhos dos anarquistas é a sua coerência com os princípios libertários e consigo própria.

Quase todas as formas de ação política executadas por grupos de oposição têm como objetivo principal a obtenção do poder. E, embora determinados grupos utilizem a técnica da ação direta para atingir seus objetivos, tão logo o obtêm, não apenas abandonam a ação direta como até impedem qualquer outro grupo de lançar mão desta técnica. Os anarquistas estão sempre a favor da ação direta, em qualquer circunstância, encarando-a como uma ação normal, que reforça a si mesma e ganha força à medida em que é utilizada, sendo o tipo de ação que pode ser usada para criar ou manter uma sociedade livre.

Mas há certos anarquistas que não acreditam na possibilidade de criar uma sociedade livre e que agem de acordo com essa descrença. Uma das mais fortes tendências pessimistas que existem dentro do movimento anarquista é o niilismo. Niilismo foi uma palavra criada por Turguenev (em seu livro Pais e filhos) para descrever a atitude cética e desdenhosa dos jovens populistas russos do século passado, mas que desde então passou a designar também uma visão que nega qualquer valor não apenas ao Estado, à moral vigente, mas à sociedade e à própria humanidade. Para o niilismo convicto nada tem valor, inclusive ele próprio - assim, o niilismo nada mais é do que um passo além do mais absoluto egoísmo.

Uma forma extrema de ação inspirada no niilismo é o terrorismo gratuito, usado não como uma forma de vingança ou propaganda, mas gratuitamente. Embora os anarquistas não detenham o monopólio do terror, ele às vezes passou a ser moda em algumas sessões do movimento. Depois da frustrante experiência de pregar uma teoria minoritária para uma sociedade hostil e muitas vezes indiferente, é sem dúvida tentador atacá-la fisicamente. Tal ação pode não atenuar a hostilidade, mas certamente acabará com a indiferença; "odeiem-me, contanto que me temam!" parece ser o raciocínio do terrorista. Mas se o assassinato racional tornou-se improdutivo, o terror gratuito demonstrou ser contraproducente e não seria demais afirmar que nada prejudicou tanto o anarquismo quanto esse traço de violência psicopata que sempre existiu e ainda existe nele.

Uma forma mais suave de ação inspirada no niilismo é a boemia, que tem sido um fenômeno constante, embora o nome pareça mudar a cada nova manifestação. Este também se tornou moda em algumas sessões do movimento anarquista e, é claro, também fora dele. Em vez de atacar a sociedade, o boêmio sai fora dela - embora mesmo que viva indiferente aos valores da sociedade, ele continue a viver nela e dela. Há uma série de tolices sobre essa tendência: é verdade que os boêmios podem ser considerados parasitas, mas isso também pode ser dito de muitos outros indivíduos. Por outro lado, eles não fazem mal a ninguém, exceto a si próprios. O melhor que se poderia dizer deles é que podem fazer algum bem enquanto se divertem e desafiam os valores vigentes de uma forma ostensiva mas inofensiva. E o pior é que eles não têm condições de provocar qualquer mudança real na sociedade e gastam, na vida boêmia, as energias necessárias à tarefa reformista que, para a maioria dos anarquistas, é a razão de ser do anarquismo.

Uma forma mais coerente e construtiva de sair fora da sociedade e abandoná-la é criar um novo modelo de comunidade independente. este tem sido um fenômeno bastante comum entre os fanáticos religiosos da Idade Média, por exemplo, e entre vários grupos de pessoas das mais variadas classes, especialmente nos Estados Unidos e, naturalmente, na Palestina. No passado, os anarquistas se deixaram influenciar por esta tendência, mas isso já não acontece com freqüência em nossos dias. Tal como acontece em outros grupos de esquerda, é mais provável que forme uma comunidade informal, integrada por um grupo de pessoas que vivem e trabalham juntas dentro da sociedade do que fora dela. Podemos ver neste tipo de agrupamento a semente de uma nova forma de sociedade crescendo dentro das velhas formas, ou ainda, como um modelo viável para fugir às exigências da autoridade que pode ser aceita pelas pessoas comuns.

Uma outra forma de ação, que tem sua origem numa visão pessimista das perspectivas do anarquismo, é o protesto permanente. De acordo com este ponto de vista, não há qualquer esperança de que se possa mudar a sociedade, destruir o sistemade governo ou de colocar em prática o anarquismo. O mais importante não é o futuro, a rigorosa fidelidade a um ideal imutável, a elaboração cuidadosa de uma bela utopia, mas o presente, o reconhecimento tardio de uma realidade amarga e a resistência constante a uma situação terrível. O protesto permanente é a teoria de muitos ex-anarquistas que não abandonaram suas crenças mas já não têm esperanças de sucesso; é também a prática de muitos anarquistas na ativa que ainda mantém intactas as suas crenças e prosseguem como se ainda esperassem vencer, embora saibam - consciente ou inconscientemente - que nunca alcançarão a vitória. Quando examinados em retrospecto, poderíamos afirmar que, durante este último século, a maior parte dos anarquistas esteve envolvida no que se poderia chamar de protesto permanente; mas seria tão dogmático afirmar que as coisas jamais mudarão quanto garantir que elas poderão mudar um dia, e ninguém pode adivinhar quando o protesto poderá tornar-se eficiente e o presente transformar-se, de repente, no futuro.

A única diferença é que o protesto permanente é visto como uma ação de retaguarda de uma causa sem esperança, enquanto que a maior parte da atividade anarquista é considerada como uma ação de vanguarda ou, pelo menos, como uma sentinela avançada numa batalha que talvez jamais será ganha, e que talvez nunca se acabe mas que, ainda assim, vale a pena combater.

As melhores táticas que se poderia utilizar nesta guerra são aquelas coerentes com a estratégia geral da guerra pela liberdade e pela igualdade, e que incluem desde as escaramuças guerrilheiras da nossa vida pessoal até as batalhas declaradas das grandes campanhas sociais. Os anarquistas constituem quase sempre uma pequena minoria, e assim dificilmente têm condições de escolher o campo de batalha, mas devem lutar onde as coisas estão acontecendo. Em geral têm tido mais sucesso naquelas ocasiões em que a agitação anarquista culminou com a participação de anarquistas em movimentos mais amplos - especialmente em movimentos trabalhistas, mas também em campanhas anti-militaristas, e até mesmo pacifistas, em países que se preparavam para a guerra ou já lutavam; em movimentos anti-clericais e humanistas nos países relgiosos, ou em movimentos que lutavam pela libertação nacional ou colonial, pela igualdade sexual ou racial; pela reforma legal ou penal, ou pelas liberdades civis em geral.

Este tipo de participação implica, fatalmente, uma aliança com grupos não-anarquistas e algum comprometimento dos princípios anarquistas; e todos os anarquistas que se envolvem neste tipo de ação correm sempre o risco de abandonar de vez a causa. Por outro lado, a recusa em assumir tal risco geralmente significa esterilidade e sectarismo, e a tendência do movimento anarquista é de exercer alguma influência apenas quando se entrega totalmente.

Nessas ocasiões, a contribuição particular do anarquismo tem assumido dois aspectos: primeiro, dar maior ênfase ao objetivo a ser atingido: uma sociedade libertária; segundo, insistir para que esse objetivo seja atingido através de métodos libertários. Esta é, na verdade, uma contribuição única pois a conclusão a que podemos chegar não é apenas a de que os fins justificam os meios, mas a de que os meios determinam os fins - os meios são o fim, na maioria dos casos. Podemos estar certos das ações que praticamos, mas não das suas conseqüências.

Uma boa oportunidade que é dada aos anarquistas para que levem a sociedade ao anarquismo parece ser a participação ativa, dentro dessa linhas de ação, em movimentos não-sectários tais como o Comitê dos Cem, na Inglaterra; o Movimento 22 de Março, na França; o Zengakuren, no Japão; e os vários grupos que lutam pelos direitos civis, na resistência ao recrutamento militar obrigatório, e para que seja concedido mais poder aos estudantes dos Estados Unidos. Nos velhos tempos, a maior oportunidade para um crescimento realmente substancial dos movimentos anarquistas estava nos episódios de sindicalismo militante que ocorriam na França, Espanha, Itália, Estados Unidos e Rússia e, sobretudo, nas Revoluções da Rússia e Espanha. Hoje isso já não acontece, tanto nas violentas revoluções da Ásia, África e América do Sul, como em levantes e insurreições como as da Hungria em 1956 e da França em 1968 - e na Inglaterra, quando?

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Referência da fonte: WALTER, Nicolas.  Ação anarquista.  In: WOODCOCK, George. Os grandes escritos anarquistas, 2 ed.  Tradução de Júlia Tettamanzi e Betina Becker.  Porto Alegre: L & PM Editores, 1981, pág. 155-60.

Referência a esta cópia: WALTER, Nicolas.  Ação anarquista.  citado por CONTRA OS REIS E AS RELIGIÕES.  [s. n. t.] Disponível na internet em <http://www.grupos.com.br/blog/semsenhores/permalink/12999.html>

Que conversa é essa de que as mulheres procuram homens inteligentes, sérios, seguros, sensíveis, românticos, etc (não que isso nunca seja verdade)? Algumas coisas ditas nos manuais de sedução até são aproveitáveis (para outras coisas), mas, em linhas gerais, eles seguem o padrão do como-vencer estadunidense: querendo soar como revelação sobrenatural (a quem pagar por ela), perdem a chance de fazer uma abordagem medianamente séria da questão proposta, zombam do senso comum (que deve ser entendido como sentido, percepção comum, e não como ignorância popular), desconsideram todas as variáveis alheias ao indivíduo e transferem ao mesmo toda a responsabilidade pela situação que ele é o mais atuante em mudar, mesmo que não saiba como. E a culpa é nossa de não tomar a iniciativa ou não saber abordar? Que homem nunca ouviu de uma mulher, conhecida ou desconhecida, as frases “eu tenho namorado”, “meu namorado é ciumento” e correlatas, mesmo quando disse ou fez algo sem qualquer “segunda intenção” em mente? Quantas mulheres acreditam que, além de não precisarem de inteligência, caráter, maturidade e amabilidade, um homem deve agradecer aos céus por elas lhe dirigirem a palavra, tudo isso pelo fato de serem “mulherões”? E quantos trouxas se entregam a uma disputa por elas, para poderem dizer que têm ou já tiveram essas “gatas” na cama? As nossas conhecidas que nos são desejáveis sabem que ficaríamos felizes da vida e não dispensaríamos a oportunidade se elas “dessem em cima” de nós - o risco de elas serem rotuladas de “galinhas”, que não cai mal no caso dos homens, e de serem desrespeitadas por não serem “honradas” não é 100% e pode ser contornado. Elas também sabem que nós sabemos que por bem menos que uma proposta sexual direta elas nunca mais nos dirigirão a palavra. Em casos extremos, um contato breve com uma mulher, mesmo sem a famosa “segunda intenção”, pode levar um homem à delegacia ou ao hospital (elas amam um parceiro ciumento). Enquanto qualquer mulher que não seja um “avião” é preterida pelos homens (o que é um erro)... Quantos homens machistas e agressores têm uma esposa apresentável (se não bonita) e abnegada? E a disputa na favela para ser a namorada do traficante? De que perfil físico são as mulheres que fazem um “programa” por R$ 200,00 ou mais, fora táxi e motel? E a famosa maria-gasolina? Qual homem nunca se perguntou “o que uma mulher destas viu nesse cara?” quando viu um homem de feiúra intelectual e ética (e, às vezes, física) com uma “gata”? E então? De onde vem a impedância para qualquer relação mais próxima e mais gostosa ou uma simples conversa entre um homem e uma mulher? É ridícula a afirmação de que a maioria dos homens não sabe seduzir uma mulher, tanto como é certo o dito “quem gosta de homem é veado, mulher gosta é de dinheiro”.

E o que é a pornografia senão a “Terra dos Sonhos” do sexo? Há quem diga que a pornografia é degradante, suja e de má qualidade, como se cenas sem palavrões e outros tipos de desrespeito fossem uma a cada centenas - e se existe machismo, é justamente porque não se espera que as mulheres procurem sequer fotos de homens nus. Muitas mulheres também acham que pornografia é coisa de homens imaturos. As mulheres “adultas” não têm sexualidade! E você percebeu que a capital da pornografia não foi a atéia União Soviética, mas o cristão Estados Unidos? Aquilo que a moral cristã proíbe arbitrariamente e contra a natureza preenche os desejos, às vezes de forma perversa, e é buscado dissimuladamente. Isso é, pra mim, uma prova de que o Cristianismo é absurdo, desumanizante e, portanto, intrinsecamente hipócrita! Ou, numa referência bíblica, farisaico. Se eu quero uma relação sexual lúdica, agradável, com uma mulher que não se envergonha de gostar de sexo (sequer faço questão de que ela seja jovem, bonita e com um corpo “perfeitinho”) e que seja tão boa para ela quanto é para mim, talvez eu consiga algo perto disso com uma namorada com medo de que eu procure outras mulheres e de não estar saciada para rejeitar outros homens. Mas o mais provável é que eu não tenha esse êxito sequer com a minha esposa e não consiga mais do que ficar a sós com outra mulher com uma proximidade física restrita. Caramba, o que eu estou querendo de mais?! Mas mesmo que um homem conheça várias mulheres que lhe sejam atraentes (nem todos preferem jovens magras de corpos artificiais), a chance de que uma delas lhe “dê mole”, permita vê-la nua ou pelo menos deixe admirá-la, ao vê-la com uma daquelas roupas que mais mostra que esconde a nudez, sem “fechar a cara” é remetida ao mundo da fantasia.

Será a prostituição uma doença sócio-econômica e de costumes? Ou uma expressão de uma sociedade estúpida, hipócrita e sufocada? Existe violência física e social na prostituição, sem dúvida, com o extremo da prostituição infantil. Mas a abordagem de questões como essas tem sido pouco para ajudar essas meninas e mulheres e quase sempre tem servido aos arroubos de demagogos, de homens de vida dupla e de moralistas com uma visão pecaminosa do sexo. Sabemos, da Economia, que a oferta de um produto acompanha a demanda, o preço dele aumenta com a escassez e esse preço nunca é maior que o valor associado pelo comprador. Então, o que dizer de um “programa” por em torno de R$ 25,00, oferecido em uma “zona” de qualquer cidade média ou grande ou em uma boate às margens de uma rodovia? E não se pense, como dão a entender os ”gênios” da sedução, que a “zona” é freqüentada por homens acanhados e desinteressantes. Não poucos dos clientes, mesmo dos pontos menos luxuosos, são jovens, apresentáveis (um homem não acha outro bonito), bem relacionados, ou mesmo casados! E uma mulher mediana é capaz de proezas, incluindo não ter ou manter distância de amigos homens, para não ser tida como uma “qualquer”, como as da “zona” ou da pornografia. E essas mulheres “direitas” não fazem “coisas de vagabunda” (o que já incluiu a simples demonstração de prazer no ato sexual) mesmo com seus maridos.

As mulheres “decentes” só nos dão uma opção: o casamento. As de melhor índole vêem o casamento e a maternidade como os maiores tesouros de suas vidas, o que compensa, na visão delas, perder contato com amigos, ou mesmo brigar com os pais, se o “homem da sua vida” requer isso; as de pior índole vêem o casamento e o sexo como preços por interesses menores. Em ambos os casos, é o preço que elas dão por qualquer relacionamento maior que um coleguismo. E é da veneração que as mulheres, quase todas, prestam à exploração sócio-político-econômica, à atrocidade lógico-biológico-interpessoal que é o casamento que vêm a prostituição e a pornografia, que fazem a outra face da mesma moeda.

É mais fácil falar de feijoada com um judeu que de sexo por prazer com uma mulher. Mesmo que um homem saiba conversar sobre História, Saúde, Ciência e Tecnologia, Literatura, atualidades ou algum outro assunto, falar de sexo sem a visão suja que o Cristianismo lhe dá e sem acanhamento e hipocrisia renderá a ele um adjetivo de “atirado” pra baixo (a uma mulher, nem se fala). Como as mulheres que procuram um “relacionamento sério” reclamam das “segundas intenções” dos homens! Um casamento ideal para elas talvez seja com um homem impotente. Não importa que elas não se casem virgens, tenham transado com um homem que nunca viram antes, façam sexo oral com certa freqüência ou alguma coisa que seria chocante na época de suas avós e que suas mães aceitem sem concordar, inclusive já terem posado nuas alguma vez. O sexo, na mente de quase todas as mulheres, de não-religiosas a devotas, de analfabetas a pós-doutoras, de cobertas do pescoço ao tornozelo a vestidas com peças curtíssimas sem roupa íntima, continua sendo a parcela asquerosa do matrimônio e da reprodução, ou, no mínimo, um dote que só deve ser oferecido ao “príncipe encantado”.

Walter N. Braz Jr.

Fé, crença e o irracional

19:29 @ 31/03/2007

Artigo do Leitor por Sérgio Santoro, em 11/01/2002

Um artigo publicado no Jornal da USP mostra uma discussão entre um engenheiro e um jornalista sobre previsões de escrituras sagradas. Fala-se basicamente sobre a fé em "Coisas Mágicas". A magnitude deste tema é muito maior do que usualmente se crê e mudanças neste âmbito poderiam mudar profundamente o mundo. Num primeiro artigo, o jornalista fala de previsões realizadas em escrituras sagradas, que segundo ele, se confirmaram e assim aceitava a veracidade de idéias místicas.

O engenheiro refutou essas idéias de modo linear e límpido, lembrando Carl Sagan no seu livro "Um mundo assombrado pelos demônios". Valoriza a ciência e a lógica e afirma que aquilo que não podemos explicar hoje, pode ser explicado ainda assim. Refuta a magia. Declara que aquilo que parece magia é apenas a ciência ainda não atingida. Parece discussão antiga. Na tréplica, o jornalista afirma que para sermos "culturalmente mais ricos" devemos "abrirmo-nos para o todo" para conhecer inclusive aquilo que a lógica não pode explicar, e apela par o universalismo do conhecimento e sugere que a universidade deva ser assim. De minha parte, acredito que a universidade e a ciência deveriam estudar fenômenos como Iemanjá, o Corão e o Livro de Jô, na medida em que são manifestações culturais fortes, que trazem magníficos conhecimentos de ordem histórica, sociológica, antropológica etc. não é possível que a universidade combata o irracional. Aceitar a irracionalidade é negar o que move a Ciência e a Universidade. Uma coisa é estudar e compilar dados acerca do fenômeno biológico, social e histórico de crenças. Outra coisa é alguém pertencente à universidade aceitar que as flores jogadas ao mar serão coletadas por uma mulher ou pelo seu espírito e isto mude o destino dos fatos. A universidade precisa dizer claramente um não. Se não o fizer, deixará de cumprir o seu intento primeiro e fundamental que é a difusão do conhecimento, da ciência, da lógica e passa a ser cúmplice de pensamentos e atos irracionais que atravancam o progresso da ciência e das civilizações. O engenheiro afirma que a aceitação do que é "mágico", especialmente por gente de universidade, "pode prejudicar muita gente". E ele está obviamente certo. O acadêmico se acovarda no momento de enfrentar a ignorância, o misticismo. Galileu recuou uma vez diante do poder da Igreja e, como ele, continuamos a não querer enfrentar o místico. Alguém pode achar que isto faz pouca diferença e que a universidade não precisa enfrentar a crendice. Que se pode conviver em paz sem prejuízos.

Engana-se. Quando a universidade não faz seu papel, combatendo o ilógico, difundindo a ciência e o pensamento racional, o que se vê é triste. Não são apenas oferendas a Iemanjá. Não são apenas jogadores que entram em campo com três pulos no pé direito ou com galhos de arruda na orelha. Não são apenas pessoas colocando roupa branca e cueca amarela no Reveillon, na esperança de um ano melhor. São crianças usando terno e chapéu de feltro preto em pleno verão. São médicos usando patuás. São empresários que tomam decisões (que afetam empregos e produção) após consultar os búzios. São doentes com leucemia consultando a cruz em busca de uma cura. São pessoas que se deprimem (ou se suicidam) diante da visão pecaminosa da própria sexualidade. São pessoas que beijam muros travando guerras infindáveis com outros que e ajoelham voltados para Meca. São mulheres proibidas de ir à escola, usando burka, enquanto outros pilotam aviões contra prédios esperando por setenta virgens no paraíso. No Ocidente comenta-se a irracionalidade que há no Oriente, como se não estivéssemos cercados de irracionalidade por aqui. A irracionalidade atinge a todas as áreas. As propagandas de produtos às vezes não se referem à qualidade nem ao preço, mas colocam uma família feliz consumindo-o ou uma mulher seminua. Publicitários contam com nossa irracionalidade.

Até rouba-se por irracionalidade. A razão claramente mostra que a atitude honesta e solidária rende mais vantagens individuais do que a atitude egoísta (as nações mais solidárias são mais desenvolvidas – ou vice versa?). O preço do desprezo à racionalidade é incalculável. Custa milhões de dólares, milhões de vidas; custa sofrimento e dor. Claramente, a ciência e o planejamento racional, aliados ao respeito à vida e ao planeta podem abrandar imensamente o sofrimento desta e de próximas gerações. A universidade ainda se acovarda diante do místico e não tem a coragem de levantar-se e negá-la de pé. Permitir que um menino na escola aceite a Teoria Criacionista, ao invés de negá-la firmemente não é respeitar a sua Fé, mas é comprometer seu raciocínio e atrapalhar seu futuro. A universidade ainda teme a força das religiões e por não combater abertamente as irracionalidades que delas emanam (por covardia e não por falta de convicção) permitem que o mundo se submeta a um rol infinito de martírios. A universidade, em todo o mundo, está como Galileu. Recuada e com medo. Mas creiam, a Terra se movia e ainda se move.

Sérgio Santoro é cirurgião e mestre em medicina pela USP.

Comentários deste artigo, enviados por alguns leitores:

Fraquíssimo o artigo. Quem, nos tempos de hoje, resume fé a flores ao mar ou roupas brancas para das sorte no 1º dia do ano, e coisas do tipo, não deveria sequer escrever uma artigo. Quem acredita que só aquilo que conseguimos compreender é que existe, está sendo, no mínimo prepotente. Negar a existência de Deus é confessar uma pequenez de espírito digna de pena. E reduzi-lo (Deus) a crendices populares. É confissão de uma visão muito restrita deste mundo. Que Deus, com sua infinita bondade, tenha misericórdia deste podre escritor.

Valéria - São Paulo - 10/01/2001 às 16h25min

Que pena doutor, homens tão cultos como senhor, tão simples e "realistas", mas ainda resta uma esperança. Concordo com vária observações suas, mas faça como o apóstolo Paulo, da Bíblia, considere um pouco de sua sabedoria, como esterco e ao estar sozinho, lembre-se existe um Deus, não uma religião, que te ama muito. Morreu na Cruz por você e por mim (não tenho a mesma cultura sua).

Luiz de Jesus - Belo Horizonte - 10/01/2002 às 16h25min