Grupos

Vou aproveitar o assunto do combate à dengue para abordar a questão da submissão do indivíduo ao Estado. Não é nada contra a campanha da dengue.

Pouco antes da epidemia de dengue, houve uma demissão de 5500 agentes de saúde. Se você me perguntar "o que importa isso agora?", eu responderei: a crise foi fabricada para apresentar a uma população assustada uma solução que não seria tolerada em outra situação. Já temos casas arrombadas com amparo judicial com o objetivo de eliminar focos do Aedes aegypti. E nós mesmos já recebemos a visita de um agente de saúde (do Estado) em nosso domicílio. Mesmo que seja justificável a ação do Estado, no ponto de vista da saúde pública, convém não nos acostumarmos. Nos acostumarmos a um Estado que age, alerta que é calamidade hoje o que era sensacionalismo ontem e diz o que fazer ou não em uma comunidade sem iniciativa própria, desagregada e desinformada.

O bisbilhoteiro da vida alheia e a pessoa de má índole, ao atirarem um desafeto pessoal ou alguém do grupo alvo de seus preconceitos particulares, culpado ou inocente, no calor da "caça às bruxas" da ocasião, já deixaram de ser as pessoas desprezíveis que são para serem cidadãos honrados envolvidos na solução de uma calamidade nacional. Foi assim na luta contra o comunismo no Brasil da ditadura militar e é assim na luta contra os "terroristas" nos Estados Unidos pós-11 de Setembro, para citar dois exemplos.

E por falar em caça às bruxas, pesava sobre o católico romano da Inquisição a responsabilidade de denunciar, com ou sem provas, qualquer suspeito de heresia, em especial os de sua própria casa. Se conhecesse um suspeito e não o denunciasse, pagaria multa ou seria expulso do país. Aquela época era de um mundo assombrado: pessoas com epilepsia, com problemas psiquiátricos, com deformidades físicas ou mesmo canhotas estavam possuídas ou vitimadas por demônios ou aliadas com eles. E o abrigo para esse mundo assombrado por demônios era a Igreja. Hoje, o Estado é o abrigo para o cidadão que pode ser atacado por um criminoso em qualquer praça, contrair uma doença venérea na primeira transa fora de seu relacionamento estável, ficar sem energia elétrica se não pagar uma conta mais alta e gastar menos, perder um filho arrastado preso ao próprio carro levado em um assalto ou morrer por uma picada de mosquito.

Já podemos denunciar bandidos foragidos no Disque Denúncia (também nada contra). Podemos denunciar usuários de salas de informática que não façam "bom uso" dos computadores. Já podem os cristãos denunciar não só comunidades do Orkut envolvidas com pedofilia como as que contrariem a sua visão da sexualidade como pecaminosa e indesejável ou seu lema de que o Cristianismo é a verdade absoluta e o cristão é a encarnação da virtude e da ética.

A privacidade, o anonimato e, o que está fora do assunto, a liberdade de expressão, que são as últimas salvaguardas de pessoas sem intenção de prejudicar quem quer que seja para se protegerem de governos arbitrários e civis de mente limitada, são mostrados como ameaças. São mostrados como esconderijos de malfeitores e indisciplinados para atos que prejudicam ou ameaçam a nação, que nessa hora deixa de ser uma entidade fantasmagórica com curiosa existência autônoma para incluir as pessoas que ela abarca. Já vimos no jornal quebras de sigilo telefônico ou bancário revelarem planos de terríveis criminosos, outros terríveis malfeitores presos com a ajuda de imagens de câmeras de vigilância e terríveis criminosos presos após uma revista da polícia movida por uma "atitude suspeita" que não seria observada em alguém mais claro e bem vestido. O sucesso brasileiro e mundial do Big Brother e de programas similares (que são, na melhor avaliação, vazios de conteúdo) é um sinal aterrorizante.

O Estado une a população em torno de si antes que a população se torne coesa lutando por seus interesses com boa informação, espontaneidade, clareza de objetivos e linha de ação própria, em vez de se limitar a procurar um "salvador da pátria" por tentativa e erro a cada eleição. Os nossos colegas de serviço ou escola são nossos concorrentes, metade dos indivíduos do nosso sexo querem nosso(a) namorado(a), os rapazes querem se aproveitar das nossas filhas adolescentes e o nosso vizinho, além de invejar o que temos, pode estar criando mosquitos no quintal.

Novamente, nada contra a campanha contra a dengue.

Walter N. Braz Jr.

p. s.: "Big Brother zeals for you" (O Grande Irmão zela por ti) - 1984

Jesus Cristo nunca existiu.

Não é brincadeira, nem absurdo.

Diria você (que assumo que seja cristão) que todos sabem que Jesus Cristo existiu. Até os ateus, pensa você. Na verdade, cerca de 2 bilhões de pessoas acredita que Jesus Cristo era o Filho de Deus encarnado. Dirão alguns que o Alcorão menciona Jesus. Em primeiro lugar, de acordo com o ex-sacerdote Alberto Rivera, o Islamismo foi criado pela Igreja Católica Romana para combater o povo judeu, portanto isso não prova nada (diga-se de passagem, o Islã saiu bem à Santa Mãe e ao Judaísmo). Em segundo lugar, o Alcorão também é uma literatura religiosa, e sabemos que a veracidade histórica e científica não é preocupação dos livros sagrados.

Quais as nossas fontes sobre o Deus-Homem? Primeiro, os evangelhos canônicos. Depois, os evangelhos apócrifos, seguidos por produções de clérigos, cristãos do meio científico e alguns escritores de araque. Nenhum texto do século I, fora os evangelhos canônicos e apócrifos, sequer menciona Jesus Cristo. Ora, se o Filho de Deus foi tão histórico quanto, por exemplo, D. Pedro II, pessoas fora da igreja também escreveriam sobre ele, independente da sua aceitação ao Evangelho. E diz Jo 21. 25 que se todos os milagres de Jesus fossem registrados, o mundo não comportaria os livros. Então por que tudo que temos sobre o Cristo em documentos não religiosos são míseros trechos, aqui e ali, que se descobriu serem fraudes piedosas?

De acordo com Alfredo Bernacchi, em “Sinto muito, mas Jesus Cristo não existiu”, a Diáspora foi uma queima de arquivo. Deve chamar a atenção que um movimento de populares em uma província qualquer do Império Romano se interesse em reafirmar as relações de submissão que já existiam (veja Ef 5. 22 - 6. 9 e Cl 3. 18 - 4. 1, por exemplo). O Cristianismo foi criado pelo Império Romano. Agora imagine alguém tomar conhecimento desse tal Jesus na época em que os evangelhos canônicos foram escritos (cerca de 60 a 100) e não encontrar ninguém que tivesse mais de 10 anos quando ele teria sido crucificado (cerca do ano 30) que sequer confirme a sua existência. Por essas e outras, se deu o massacre romano, que ainda passou como o castigo de Deus sobre o povo que rejeitou o seu Filho (e a responsabilização dos judeus pela morte do Cordeiro de Deus pela Igreja Católica até 1958 foi um Programa de Proteção a Testemunhas ao contrário). Muito material que provava a inexistência de Jesus foi destruído pela Igreja Católica Romana. Deve chamar a atenção que o interesse por argumentos e evidências a favor do Cristianismo é relativamente recente, e ainda não é característica comum dos cristãos.

Mas finalmente, mesmo que seja verdade que Jesus Cristo nunca existiu, não seria melhor não divulgar isso, ou nem pensar sobre o assunto? Não explodiria uma onda de violência ao redor do mundo se todos soubessem disso? O Cristianismo não revolucionou o mundo com uma mensagem de amor? E afinal, a moral elevada do Evangelho não é o que importa? Bons princípios éticos, humanos e de boa convivência podem ser adotados sem a necessidade de uma religião. Quem conhece ateus (pelo menos alguns) mais de perto sabe disso, e alguns religiosos são melhores que seus livros-texto, mestres ou deuses nesse aspecto. Quanto à revolução promovida pelo Cristianismo, leia “Jesus Cristo dividiu a História?” (em http://paraisoconcreto.blogspot.com/2006/08/jesus-cristo-dividiu-histria.html) e “A página negra do cristianismo - 2000 anos de crimes, terror e repressão” (em http://www.dantas.com/realidadebr/textos/paginanegra.htm). A valorização dos servos, dos pobres e das mulheres, bem como o desenvolvimento científico e as liberdades que os cristãos vislumbram nos Evangelhos são um exagero de poucos textos bíblicos onde há espaço para plantar tais interpretações, em uma releitura ao estilo do último quarto do século XX. Não só isso como esses progressos foram combatidos pelas igrejas cristãs até um passado relativamente recente em que sua luta foi perdida e insistir na visão de mundo bíblica seria chamar o riso e a falência. Dizer que só conhecemos a harmonia, a ética, a moral e a humanidade com Cristo é a arrogância cristã do monopólio da virtude. É crassa ignorância tanto sobre o mundo cristão quanto sobre o que houve antes e fora dele. E o homem Jesus Cristo não pode ser dissociado da figura de Deus (dos evangelhos, o de João é o mais claro ao tratar disso). Logo, se Jesus Cristo não existiu, isso afeta a figura de Deus. Mas isso é outro assunto.

Walter Nunes Braz Junior - w42739@yahoo.com.br

Sujeira no jaleco

18:30 @ 13/04/2007

Meus comentários

É inegável a contribuição que a ciência séria pôde dar ao mundo. Mas é inegável também que o meio acadêmico não é totalmente formado de pessoas isentas, que seguem invariavelmente uma disciplina salutar e que têm apenas os melhores interesses para a humanidade em vista, como observa o autor. Não apenas um "rabo preso" com uma empresa, mas também com um governo, e até mesmo preconceitos pessoais podem guiar a produção de um cientista. Vejamos o caso da SIDA, para citar um exemplo. O que justifica a não descoberta da cura, ou pelo menos da vacina, até hoje? Uma indústria que ainda quer faturar bilhões de dólares sobre o sofrimento e o terror alheios. Daí, não só a cura não é descoberta como certos fatos sobre a doença, os testes e os medicamentos, como casos de SIDA sem a detecção do VIH, são mal conhecidos do público. De outra forma, o VIH poderia ter tido a mesma sorte do vírus da varíola.

A Academia têm assumido hoje o papel da religião da Idade Média. Há alguns jovens que se mostram ensimesmados simplesmente por serem graduandos de universidades. Experimentemos mostrar esse texto para alguém. Haverá quem entenda que o autor condena a ciência como um todo, talvez querendo o retorno à Idade Média. Diante de algumas pessoas, falar de mesquinharias guiando trabalhos acadêmicos é como falar sobre escândalos sexuais de clérigos a um católico praticante; discutir se temos um aquecimento global ou um resfriamento global está mais longe de falar de ciência séria e outra coisa que de uma discussão qualquer entre espíritas e católicos; pensar por si mesmo é como ser ateu na Inquisição.

Dirão os cristãos que toda essa corrupção na ciência vem do fato de ela ser "humana", enquanto as suas "verdades divinas" são estáveis. Enquanto na Ciência um fato que discorda de uma teoria leva a uma nova teoria, que conserva a parte correta e corrige a parte errada da antiga (salvo quando preconceitos no meio acadêmico ou interesses mais baixos impedem isso), na Religião leva a um de dois desfechos: ou a criação de uma segunda falácia para salvar a primeira ou pior para os fatos e quem não ignorá-los. Isso para não mencionar que os cristãos não conhecem minimamente sobre sua própria religião, ou saberiam que uma "verdade eterna" de um século pode ter sido ponto ignorado, polêmica ou mesmo heresia grave no século anterior ou no seguinte. Saberiam também que a sua própria Bíblia não foi tão pétrea quanto se diz, já tendo tido trechos ou mesmo livros inteiros adicionados, subtraídos ou postos em dúvida nas idades Antiga e Média.

Mas somada a essa corrupção científica, ainda temos uma educação em empobrecimento, mesmo nas escolas privadas brasileiras, e até mesmo no Primeiro Mundo. Perceba como somos educados a desvalorizar e odiar o conhecimento. Pelo que aprendemos, a Matemática é uma série de loucuras, a História é uma coleção de fatos ultrapassados, a Geografia é um monte de informações de lugares aonde talvez nunca iremos, e assim por diante. Aprendemos também a sermos pedintes intelectuais, recebendo modelos prontos para resolver provas e trabalhos, de forma que a nossa ignorância segue impune e somos aprovados a cada ano ou semestre. Eu mesmo já percebi erros em fórmulas ou em suas deduções, tanto em aulas, quando, ao alertar o professor, nem sempre fui bem visto por alguns colegas, quanto mesmo em livros didáticos. Com isso, podemos crer em certas "descobertas" científicas e estatísticas que seriam no mínimo estranhas para quem tenha aprendido bem os conteúdos de 1º e 2º grau, se lembre bem de o que se dizia 10, 5 ou 2 anos antes, ou tenha simplesmente um bom raciocínio.

Walter N. Braz Jr.

Sujeira no jaleco

Fraudes, espionagem, dinheiro corrompendo pesquisas, cobaias humanas... Afinal, o que há de errado com os cientistas?

Cientistas sempre renderam boas notícias para jornais e revistas em todo o mundo. Ultimamente, nem sempre nos cadernos de ciência. Uma série de escândalos escabrosos envolvendo pesquisadores de diversos centros de pesquisa nos Estados Unidos e na Europa vêm destronando a velha imagem do cientista como uma espécie de semideus, protegido da mesquinharia dos mortais. Sob os tradicionais jalecos brancos, foi revelado um submundo de espionagem, fraudes, fabricação de dados e disputa por dinheiro - muito dinheiro. Um enredo mais próximo do velho seriado de TV Dallas do que dos documentários da Discovery Channel. "O dinheiro é hoje a principal motivação para fazer ciência", diz o jornalista americano Daniel S. Greenberg, autor do livro Science, Money, and Politics (Ciência, dinheiro e política, inédito no Brasil). Desde que publicou, em 1967, o livro The Politics of Pure Science (As políticas da ciência pura, também inédito por aqui), Greenberg se especializou nas promíscuas relações entre dinheiro e pesquisa científica nos Estados Unidos - situação bem diferente do Brasil, onde a falta de verbas é o principal problema. Em seu livro, Greenberg diz que a velha imagem da comunidade científica como um grupo de pessoas empenhadas unicamente em contribuir para o bem-estar da humanidade é coisa do passado. E ele não está sozinho. As mais prestigiadas revistas de ciência do mundo vêm dando cada vez mais espaço para a cobertura de escândalos do mundo acadêmico, preocupadas também com que alguns desses casos terminem respingando na credibilidade de suas publicações. Na revista americana Science, por exemplo, o tema scientific misconduct (imposturas científicas) já ganhou uma seção fixa. E até mesmo personalidades como Kary Miullis, a bióloga vencedora do prêmio Nobel de Química, em 1993, por desenvolver a Reação em Cadeia de Polimerase (técnica de multiplicação de fragmentos do DNA que inspirou o filme Parque dos Dinossauros), reconheceu recentemente que a mais importante mudança na ciência na passagem do século XX para o século XXI é o fato de que o interesse econômico suplantou o eterno desejo de expandir o conhecimento humano na condução das pesquisas.

Tudo por dinheiro

Em 1955, perguntaram para Jonas Salk, criador da vacina da poliomielite: "Quem é o dono da patente da vacina?" Salk respondeu: "Ninguém. Você poderia patentear o Sol?". Agora tente se lembrar de ter ouvido uma resposta parecida de algum cientista famoso por esses dias. Difícil, não? A resposta de Salk lembra uma era de inocência, quando a aventura da descoberta, o reconhecimento dos colegas e do público eram as principais motivações dos cientistas. É claro que ainda existem pessoas com essas motivações, mas o dinheiro parece estar falando mais alto e influencia cada vez mais o resultado das pesquisas. Um artigo do New England Journal of Medicine mostrou, há quatro anos, que os pesquisadores que apoiavam o uso de determinadas drogas para o tratamento de doenças cardíacas eram, em sua maioria, ligados financeiramente às companhias produtoras dessas substâncias. Pouco depois, o Journal of The American Medical Association (Jama) analisou diversas pesquisas sobre o efeito do cigarro nos chamados fumantes passivos levando em conta um único fator: se o autor da pesquisa tinha ou não alguma ligação com a indústria de tabaco. O resultado não foi nenhuma surpresa: os que eram vinculados aos fabricantes de cigarro concluíram que as baforadas alheias não faziam tanto mal aos não-fumantes - exatamente o contrário do que pregavam as pesquisas independentes.

Outro exemplo da polêmica envolvendo conflito de interesses ocorreu na Universidade de Nottinghan, na Inglaterra. Há dois anos, a direção da universidade aceitou 5,4 milhões de dólares da British American Tobacco para financiar um Centro de Pesquisa de Ética nos Negócios - sem nenhum compromisso. A maioria dos cientistas da instituição fez vista grossa para a doação. Menos Richard Smith, professor de Jornalismo Médico na universidade. Como era editor-chefe do British Medical Journal, ele perguntou aos seus leitores pela internet se a universidade deveria ou não devolver o dinheiro. O resultado foi esmagador: 84% responderam que a universidade deveria, sim, devolver a pequena fortuna. Smith perguntou, então, se ele deveria pedir demissão caso a universidade não voltasse atrás. A resposta de 55% dos internautas foi positiva. Hoje, ele trabalha em outra universidade. "Não se trata apenas de casos isolados de conflitos de interesse entre empresas e pesquisa", diz o jornalista Daniel Greenberg. "É uma mudança no próprio jeito de fazer ciência." Para provar sua tese, Greenberg cita um estudo realizado pela Research Corporation, fundação americana que promove o intercâmbio de recnologia das universidades com a indústria. A pesquisa concluiu que, pelo menos nos Estados Unidos, as instituições de pesquisa trocaram o velho modelo educacional por um modelo de negócios, o que termina gerando distorções. Um bom exemplo dessas distorções é a negligência da indústria farmacêutica na pesquisa de drogas para a cura de doenças comuns em países pobres. Um artigo publicado no International Journal of Infectious Diseases revelou que dos 1223 medicamentos comercializados pelas multinacionais do setor entre 1975 e 1997, apenas 13 foram destinados a doenças tropicais. E, apesar de reconhecer os benefícios dos investimentos das empresas no financiamento de pesquisas, a própria Research Corporation faz um alerta: como os estudantes estão sendo rapidamente atraídos para trabalhar em pesquisas financiadas pela indústria, não estão sendo treinados como deveriam. Eles passam a se comportar como qualquer empregado de uma grande empresa: tendo a obrigação, inclusive, de manter o sigilo sobre o seu trabalho para garantir que as companhias possam patentear suas descobertas.

O segredo do negócio

Compartilhar dados sempre foi o melhor atalho para o avanço da ciência, mas, daqui para a frente, isso será cada vez mais raro. O potencial financeiro de pesquisas no campo da genética, por exemplo, faz com que os cientistas não queiram dividir informações com seus colegas. Uma pesquisa publicada este ano no Journal of the American Medical Association revelou que 47% dos geneticistas que pediram informações aos seus pares para publicar artigos sobre o assunto receberam um enfático "não" como resposta. "O velho modelo da universidade como centro de difusão do saber está comprometido", diz Corynne McSherry, autora do livro Who Owns Academic Work? (A quem pertence o trabalho acadêmico, inédito no Brasil). "Há uma confusão cada vez maior entre o saber acadêmico, que deveria ser de domínio público, e o saber comercial, da esfera privada". Corynne afirma que é preciso delimitar um espaço para que os financiadores de pesquisas não obstruam informações que deveriam ser de domínio público. "Pesquisas científicas não podem ser tratadas como segredos industriais", diz Corynne.

Ligações perigosas

Voê acaba de ler um artigo com a descoberta de que o leite materno tem toxinas que podem fazer mal às crianças. Agora experimente lê-lo novamente sabendo que o pesquisador foi financiado por um fabricante de leite em pó. Faz diferença, não faz? Pois é, se depender da maioria das publicações científicas, você não vai ficar sabendo muito sobre os vínculos financeiros que os cientistas têm com as empresas. Ao analisar 61.134 artigos publicados em 1997, pesquisadores das universidades americanas de Tufts e da Califórnia descobriram que apenas 0,5% das revistas especializadas revelaram os vínculos financeiros dos autores do artigo, incluindo contratos de consultoria com empresas privadas ou "detalhes" como saber se o pesquisador é um dos acionistas da empresa que produz o medicamento sobre o qual está escrevendo. Como nos Estados Unidos estima-se que cerca da metade dos pesquisadores prestam consultoria à indústria e cerca de 8% têm ações em empresas biomédicas, a conclusão é que fica cada vez mais difícil confiar nessas pesquisas. Mesmo as prestigiadas Nature e Science reconheceram que precisavam tomar cuidado com a publicação de artigos que ocultassem interesses financeiros.

Ficção científica

A canadense Karen Ruggiero era considerada uma jovem promissora psicóloga quando fazia suas pesquisas no prestigiado campus da Universidade de Harvard, Estados Unidos. "Ela era trabalhadora, extremamente organizada, enfim, uma perfeccionista", diz Herbert Kelman, ex-colega da psicóloga. No final do ano passado, Kelman também foi surpreendido quando soube dos métodos "pouco ortodoxos" de trabalho da colega: sem o menor escrúpulo, Karen simplesmente inventava dados que nunca haviam sido coletados em trabalho de campo. "Esse é um comportamento cada vez mais comum nas universidades", diz Lawrence Rhoades, diretor do Office of Research Integrity (o ORI, escritório de integridade da pesquisa), a agência vinculada ao Departamento de Saúde americano que recebe e julga as denúncias de fraudes acadêmicas. No caso de Karen, ela não poderá receber, nos próximos cinco anos, um único dólar da bilionária verba destinada à pesquisa pelo governo americano. "Cerca de 85% das denúncias que recebemos estão relacionadas à fabricação de dados", diz Lawrence Rhoades. Outro caso julgado pelo ORI foi o do neurocientista americano Evan Dreyer. Ele baseou sua pesquisa em uma fictícia sessão de testes em porcos. Assim como Karen, ficará sem mesada para tocar suas pesquisas.

Mas o que leva cientistas respeitados a arriscarem suas carreiras com um comportamento típico de um colegial que tenta enganar o professor? "Talvez seja a pressão por resultados rápidos", diz Lawrence Rhoades. Essa mesma pressa faz com que até instituições famosas terminem sendo envolvidas. Em novembro de 1999, por exemplo, a tradicional National Geographic foi vítima, sem saber, de uma fraude. A revista publicou a descoberta de um fóssil, na China, que seria o suposto elo de ligação entre pássaros e dinossauros. O paleontólogo Xing Ku, do Instituto de Paleontologia Vertebrada e Paleantropologia de Pequim, e Philip Currie, do Museu de Paleontologia de Alberta, no Canadá, batizaram apressadamente a nova criatura de Archaeoraptor lianoningensis. Passado mais de um ano, um especialista da Universidade de Texas fez uma tomografia computadorizada e descobriu que o fóssil não passava de uma montagem de 88 peças feita por agricultores chineses para faturarem com o contrabando de fósseis.

Intriga internacional

No ano passado, os biólogos japoneses Takashi Okamoto e Hiroaki Serizawa quase causaram um incidente diplomático quando foram acusados pelo departamento americano de espionagem. Eles teriam roubado mostras de DNA do laboratório da Fundação Cleveland, em Ohio, Estados Unidos, para levar o material para o Instituto Riken, no Japão. O problema é que as leis sobre o que é ou não espionagem científica variam de país para país e o caso ainda não foi encerrado. Não é a primeira vez que acusações e plágio estremecem a relação entre cientistas e seus renomados centros de pesquisa. O caso mais famoso desse tipo de disputa, no início da década de 80, envolveu o pesuisador americano Robert Gallo e o pesquisador francês Luc Montagnier. Gallo foi acusado pelos franceses de ter roubado sorrateiramente do Instituto Pasteur uma amostra do vírus da Aids, ficando com a glória de ter sido o primeiro a isolar o HIV.

Cobaias humanas

Uma série de reportagens publicada pelo jornal Washington Post, no ano passado, acusava pesquisadores americanos de fazer experiências de novos medicamentos explorando a vulnerabilidade dos pacientes de países pobres. A indústria farmacêutica Pfizer, por exemplo, foi criticada pelo teste do antibiótico trovafloxacin em crianças com meningite na Nigéria. A Pfizer rejeitou as acusações dizendo que os testes eram "fundamentais para a descoberta de um novo tratamento oral para essa terrível epidemia" - mas não explicou por que faz testes na Nigéria e não em uma de suas sedes em Nova York ou em Londres. Em Uganda, pesquisadores americanos foram criticados por experiências usando placebo em mulheres portadoras do HIV. Segundo os críticos da pesquisa, se as mulheres tivessem recebido o tratamento convencional poderiam ter filhos não-contaminados pelo vírus. Recentemente, até a comunidade internacional de antropólogos foi criticada. No livro Darkness in El Dorado, o jornalista Patrick Tierney acusou os pesquisadores de fazer experiências com índios ianomâmis sem o consentimento da tribo - além de terem transmitido doenças infecciosas para essas populações.

Mulher e negro não entram

Quantos cientistas negros você conhece? "Provavelmente poucos", diz a engenheira química Elizabeth Resekiala. Ela é uma das raras cientistas negras na Inglaterra e vem lutando para diminuir o preconceito racial na comunidade científica - para piorar a situação, uma pesquisa do governo inglês mostrou que crianças negras daquele país têm uma performance medíocre em ciências. Como se não bastassem as acusações de racismo, uma pesquisa do Conselho Nacional de Pesquisa americano, publicada na revista Science em dezembro, concluiu aquilo que a maioria das cientistas americanas já sabiam: ao terem filhos, suas chances de crescer na carreira acadêmica diminuem. O curioso é que com os homens acontece o contrário: quando se tornam pais, eles têm bem mais probabilidade de ascensão na carreira.

Infelizmente, o preconceito e o machismo parecem ser uma das últimas coisas que a ciência atual tem em comum com o seu passado.

Para saber mais

Na livraria

Science, Money, and Politics

Daniel S. Greenberg, University of Chicago Press, 2001

Who Owns Academic Work?

Corynne McSherry, Harvard University Press, 2001

Na internet

http://ori.hhs.gov/

Fonte: CAVALCANTE, Rodrigo.  Sujeira no jaleco.  Superinteressante, São Paulo, nº 178, pág. 70-3, jul 2002

A criminalização do sexo

17:45 @ 23/04/2007

Já reparou que parece que sexo é crime?

Houve um tempo em que mulher só ficava sabendo alguma coisa sobre sexo depois de casada. Os homens e algumas mulheres só se casam por causa do sexo e as mulheres sabem disso, mas todo mundo finge que não. Quando você transa, tem que ser no seu quarto, num motel, no meio do mato, sempre escondido. Menor de 18 anos nem pode ver ou ouvir falar daquelas coisas (apesar de que antigamente tinha mulher que casava antes da adolescência). Mulher então nem chega perto de homem direito.

O sexo, de tão sujo (na visão cristã, é claro) não pode sequer ser mencionado. Não podemos falar "daquilo" com qualquer pessoa, especialmente se for mulher. Se você quiser acessar pornografia, deve ser maior de 18 anos. Mesmo assim, ser visto acessando não é bom. Se você estiver em uma lan house ou sala de informática, pode ser objeto de reclamações. Se estiver no local de trabalho, seu emprego estará em risco. Se estiver em casa, haverá um problema em família. Em alguns países, como a Arábia Saudita, um filtro fará com que esse acesso sequer seja possível. Quantos vizinhos da "zona" ou de boates já quiseram a sua retirada do local? Quantas jovens foram expulsas de casa por engravidarem ou simplesmente perderem a virgindade sem casamento? Quantas moças tiveram aborrecimentos e sofreram represálias depois de um conhecido vê-las em uma revista, uma página ou um filme pornográfico? Quantas mulheres são discriminadas por serem mães solteiras, separadas, prostitutas ou simplesmente por não serem reprimidas? Até pouco tempo, o adultério também era crime. Também haviam os crimes contra "mulher honesta". Preconceitos tribais do Israel do Velho Testamento na lei do Brasil do século XX! Ainda havia a "legítima defesa da honra", que era a autorização para a própria "vítima" do sexo extraconjugal agir extrajudicialmente na campanha anti-sexo. E porque o estuprador é abominado mesmo entre presidiários? Pela mesma razão por que também se combate, mesmo que o ato não tenha conotação político-ideológica, a invasão de propriedades, a cópia de produtos, a falsificação de dinheiro, o desacato à autoridade e a perturbação da ordem. Assim como o copiador de produtos, mesmo sendo um bandido despolitizado qualquer, se volta contra a regra "se quiser, venda tantas horas do seu trabalho e pague", o estuprador, mesmo sendo um monstro machista despolitizado e sem ideologia formada, se volta contra o princípio "se quiser, só no casamento". Mesmo que os que cometem tais crimes, especialmente o estupro, não devam ser apoiados, a ação contra eles é majoritariamente uma inquisição capitalista.

Você já deve ter visto ou ouvido falar de campanha pra legalização da prostituição. Quem é contra e quem é a favor tem cada um os seus erros, mas por trás desse assunto tem o assunto do sexo. A prostituição é ilegal em muitos países. Um dos países onde ela rende prisão tanto para a prostituta quanto para o cliente é o cristão arrogante hipócrita Estados Unidos. As objeções à prostituição se dividem em duas partes: humanidade falsificada e valores cristãos. Verdadeira preocupação com a dignidade e o bem-estar da prostituta levaria a sociedade a ampará-la, não vilipendiá-la, inclusive defendendo a legalização da prostituição. Mas os valores cristãos fazem a sociedade cristã fazer da prostituta o seu boneco de judas, uma representação física da sexualidade que os homens não querem admitir perante a sociedade e que as mulheres não aceitam em seus esposos e querem erradicar em si mesmas. Quem é contra legalizar a prostituição não está preocupado com rede de prostituição, a dignidade das prostitutas, etc. Quem é contra a pornografia não está preocupado com AIDS, indústria do sexo, essas coisas.

Aludir ao sexo é feio! A Educação Sexual fala basicamente de concepção para futuros pais e mães, anti-concepção para um mundo que passa dos 6 bilhões de habitantes e doenças que não são mais exclusivas de homossexuais e prostitutas. Mesmo com pudores, e sem fazer a apologia à promiscuidade que os cristãos alegam, é alvo de protestos destes. O sexo não-reprodutivo, sem coerção jurídico-religiosa e minimamente prazeroso ainda é inaceitável para os cristãos. Lembremo-nos de que termos como "fuder", "porra", "putaria", "veado" e "galinha" são palavrões e ofensas.

A sexualidade reprovada, silenciada, reprimida, ainda existe. E o corpo não aceitará o espírito de renúncia e masoquismo que a mente aceita por qualquer motivo menos consciência e bom senso. Então, o capital usará essa sexualidade para seu proveito, como usa o desejo de segurança, a busca de auto-estima e outros interesses humanos. Virão daí as propagandas e os materiais publicitários com belas mulheres, não raro seminuas, anunciando bebidas alcóolicas, carros, cartões de crédito, aparelhos de barbear, sandálias de borracha e outros produtos. Virão também programas de televisão com belas mulheres, com freqüência seminuas ou em cenas de sexo ou nudez implícitos (lembra-se de quantas vezes víamos mulheres com seios à mostra em propagandas, novelas e outros programas, nem sempre à noite, por volta de 1990?). Se um cristão se incomoda com a baixaria da televisão (no que ele não está errado), deveria observar que a moral sexual cristã e a vulgarização do sexo são duas faces da mesma moeda. Mas tudo isso não é para mostrar o sexo como natural, mas para fazê-lo parte de um sistema de competição e exploração das necessidades humanas.

E a mulher é transformada pela Igreja e pela família, ou transforma a si mesma, em um corpo à venda para o sexo. Corpo esse, claro, dessexualizado, tendo em mente o sexo como sujo e indesejável, algo a ser feito como preço a pagar ou como sinal de posse do marido, nunca como prazer. Então a oferta do sexo quase desaparece e a maioria desses corpos alcança o preço de um casamento ou de um "caso", sendo oferecidos de forma pouco menos grotesca que uma droga a um viciado. Veja isso em Sexo e Alienação.

Observe que a anti-sexualidade é "pureza"; a mulher dessexualizada é "honesta", "direita", entre outros adjetivos; o homem dessexualizado (ou que se porta como tal) é "sério", "puro"; um hotel que não permite encontros sexuais é "familiar"; uma literatura com alusão a sexo deixa de ser "sadia"; e assim por diante. Mas por que tudo isso? Há alguma razão plausível que faça da sexualidade um mal, uma falha de caráter, mais indesejável que a ganância ou a desonestidade? Nada, senão a lenda do pecado original e regras absurdas para comunidades ignorantes. Mas porque as pessoas vêem o sexo como algo tão não natural? Um motivo é burrice. Isso é discutido em Sexo e Alienação. Outro motivo é educação cristã. Isso é discutido em A família é a base da sociedade. Outro motivo é covardia. Não só o sexo, como o bem-estar e as demandas individuais só são permitidas a quem puder e quiser pagar o preço. São o preço da moradia, dos alimentos, do transporte e tudo o mais, inclusive uma relação sexual para casados que as esposas, outrora sensuais e amorosas e hoje frescas e desagradáveis, não mais lhe proporcionam. Isso é tratado em Dominados pela posse. Mas a pessoa mediana, para não lutar contra esse mundo privatizado e a favor de um mundo que todos podem desfrutar livremente, prefere negar para si própria e os demais os seus verdadeiros desejos e necessidades, vivendo na hipocrisia, na auto-anulação e na auto-ilusão.

Mulheres, chega de tratar a sexualidade como uma doença! Se valorizem como pessoas, não confundindo ser mais que um corpo com abominar o sexo. Se "guardar" e exigir amor e compromisso para o sexo não é se valorizar, é fazer de si um item a mais no mercado político-econômico-religioso do casamento, um indivíduo que odeia o próprio corpo e contribui para a dominação da humanidade.

Imaculada V. S. Aranha e Walter N. Braz Jr.

(reedição do texto "A ilegalidade do sexo", de Imaculada V. S. Aranha, disponível em http://paraisoconcreto.blogspot.com/2006/11/ilegalidade-do-sexo.html)

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