Grupos

Para os que não sabem (que não são poucos, inclusive entre as mulheres), o Dia Internacional da Mulher é uma data celebrada desde 1910. Em 8 de março de 1857, 130 operárias de uma fábrica em Nova Iorque entraram em greve pela redução da jornada de trabalho de 16 para 10 horas por dia, foram trancadas na fábrica e o prédio foi queimado.

Quantos, em séculos passados, temiam uma revolução feminista ao menor direito dado às mulheres? Mas e daí que as mulheres desse início do século XXI escolham quando e com quem vão se casar, sejam alfabetizadas, possam se candidatar à presidência e, algumas, usem minissaia e tenham piercings? Que mulheres vemos? Mulheres que continuam aceitando a lavagem cerebral de que têm de ser mães, ser exclusivas de um único homem, ter um corpo dito perfeito e não parecer nem de longe uma "safada". Mulheres que, com honrosas e gratificantes exceções, têm o nariz empinado quando não têm baixa auto-estima; usam roupas minúsculas quando não acham que não devem expor os joelhos; são competitivas quando não são servis; são frustradas com o casamento quando não são frustradas por não terem se casado; são intelectualóides quando não são alienadas. Quantas mulheres se importam com as homenagens ao Dia Internacional da Mulher retratarem não uma mulher, mas um estereótipo feminino?

Agrada a muitas mulheres ver os homens se rendendo ao arrastão femista. Parece que a cada cargo de chefia conquistado por uma mulher, a cada formatura de uma mulher em um curso de maioria masculina, a cada mulher que se impõe em um ambiente de trabalho, o homem é como um invasor de uma propriedade expulso pelo proprietário. Da confusão entre femismo e feminismo vem a confusão entre anti-femismo e machismo. Um texto interessante sobre isso é "Qual a diferença entre feminista e femista", do blog A Vez das Mulheres (http://www.grupos.com.br/blog/a-vez-das-mulheres/permalink/14863.html).

Dia 15 de julho é o Dia Internacional do Homem. Quantos sabem? Porque o comércio não se prepara para esse dia como se prepara para o 8 de março? Será aquela confusão entre feminismo e femismo, querendo que os homens tratem as mulheres não como iguais em valor, mas como um misto de vítima e superior?

Homem também tem valor. Vários são bons pais, filhos e esposos. Vários são bons profissionais, dedicados não só ao trabalho como ao público-alvo. Vários são amigos, amáveis, divertidos, inteligentes. Vários homens têm qualidades mal conhecidas, especialmente pelas mulheres, para muitas das quais eles são os carregadores de peso, os pagadores de contas, os que observam seus decotes como se devessem ter desviado os olhos, os adversários do mercado de trabalho, as escadas profissionais. Eu mesmo gosto de ser homem porque serei mais um homem a não ser machista, intratável, ciumento e reprodutor de um mundo ruim em vários aspectos (apenas não sou partidário do amor platônico e do que chamam de respeito, porque não tenho coisa alguma contra o sexo).

Ao longo da História, vários lutaram, alguns com mais sucesso, por um mundo melhor. Certamente foi o caso daquelas operárias. Se você é homem, já pensou em um mundo sem machismo ou femismo, e sem o preconceito, a repressão sexual e a competição regulando a relação entre homens e mulheres? Feliz Dia Internacional do Homem.

Walter Nunes Braz Junior

Sua casa é segura?

20:07 @ 27/07/2007

Você já assistiu o filme "Inimigo do Estado"? Foi exibido no Supercine em maio. Caso não tenha assistido, o resumo é o seguinte: um advogado, interpretado por Will Smith, é perseguido pelo governo por ter uma fita de vídeo mostrando o assassinato de um congressista, que era contrário a um projeto que atentava contra a privacidade do cidadão comum. Ele é rastreado em tempo real através de imagens de satélite e câmeras de vigilância, além de ter vasculhados usos de cartão de crédito e telefonemas. Tudo com as clássicas cenas de perseguições, fugas e outras de filmes do gênero. Ele não é procurado por um crime.

Como chegar a um regime totalitário sem que a população perceba? Mostrando o Estado como o grande herói a zelar pela sociedade. Mas contra que perigo? Uma ameaça grande controlada, ou uma pequena exagerada, ou um grupo apresentado como perigoso. Alguns casos emocionantes, bem explorados, podem ajudar a chamar a atenção do público. A luta contra o perigo fabricado é um espetáculo, mas durante ela se toma providências contra a reação de um pobre desrespeitado no serviço público, pobres em bairros abastados, textos colados em postes e outras coisas indesejadas.

Como se diz, temos um caos na segurança. Não deixamos de ver casas com algum "acessório" sobre o muro (cacos de vidro, arame farpado ou cerca elétrica). As notícias policiais são uma parte significativa de qualquer noticiário. Movimentos pedem o fim da violência. Mesmo bairros com policiamento satisfatório têm casos sérios de violência. Senhas e números de acesso a banco via internet e cartões bancários e de crédito podem ser apropriados por bandidos. Vírus de computador surgem aos milhares diariamente. Até a polícia é vítima da violência.

Então, a perda de privacidade é apresentada como benéfica para a população. Vemos nos noticiários casos de criminosos capturados com a ajuda de câmeras de vigilância (observamos, mesmo pelas reportagens, que as câmeras foram úteis não para prevenir crimes, inclusive homicídios, mas para prender seus autores). Vemos também quebras de sigilo telefônico mostrando esquemas de desvio de dinheiro público. Vemos também câmeras escondidas registrando esquemas de fraudes e comércios ilegais. Para cada medida de vigilância ou restrição é apresentada uma série de benefícios. E vai se descobrir que a lei para os "três pês" (preto, pobre e puta) é branda, que faltam policiais, que faltam presídios.

Ao mesmo tempo em que os cidadãos se ligam ao Estado, se desassociam uns dos outros, salvo nas campanhas organizadas pelo Estado e pela classe alta. Quem organiza assembléias ou manifestações populares sabe como é difícil, mesmo quando o assunto interessa a muitas pessoas. Os cidadãos dificilmente estão fora de suas casas quando não para trabalho, estudo, trabalhos religiosos ou ir ao comércio. Para o cidadão aterrorizado, cada pessoa trajada fora do padrão é um marginal, cada vizinho é um invejoso, cada colega de trabalho é um concorrente.

Quem acredita que cidadãos de bem não precisam temer a falta de privacidade não sabe sobre ditaduras. Essas pessoas também não se fazem muitas perguntas sobre suas religiões, não acreditam em uma sociedade radicalmente diferente, conversam majoritariamente sobre amenidades. Em qualquer governo mais severo, o "cidadão de bem" é, em última análise, o cidadão alienado e submisso. Falta a este "cidadão de bem" uma pergunta simples: por que tanta questão de um trabalho muito mais cansativo que frutífero de vasculhar informações pessoais de pessoas de quem não há razões aparentes para desconfiar?

Então, caminhamos para um cenário em que os principais bairros e logradouros de cada cidade serão vigiados por câmeras; filtros para internet bloquearão páginas contrárias ao governo ou aos preceitos da religião majoritária; cada pessoa será escrutinada por empresas, empregadores e policiais a partir de um banco de dados com cada deslocamento por ônibus, dado médico e outras informações; trabalhadores serão vigiados como presidiários nos seus ambientes de trabalho; preceitos e regras de condutas religiosos podem ser bases de leis, e podemos ter crimes como fornicação ou blasfêmia; pessoas poderão ser presas por escrever textos de crítica política, social ou religiosa. Mas, por enquanto, o perigo vem dos pequenos criminosos, desde as quadrilhas do crime organizado até os que levam um sabonete escondido no comércio. E também de grupos vilanizados, como sem-terra, manifestantes e mesmo camelôs. E, por enquanto, poucos pensam em abuso policial, absurdos judiciários, censura e outros assuntos graves.

Walter Nunes Braz Junior