Religiosos moderados
17:05 @ 27/09/2007
Qualquer religião é um pacote produzido pela sua elite. Não há qualquer coisa sobre qualquer deus que não venha, na melhor das hipóteses, de crentes sinceros. Não há qualquer material fora do sistema religioso que o adepto de uma religião possa usar para convencer um de outra. Por exemplo, não se sabe de uma aparição de Nossa Senhora a um hindu. Isso é uma prova de que nenhum deus existe, mas essa é uma outra discussão.
Professada uma religião, é uma questão de coerência aceitar o pacote completo. Se a mesma fonte que diz que, por exemplo, Javé é o único deus verdadeiro diz também que ele criou uma igreja e inspirou a Bíblia Sagrada, estas declarações devem, a princípio, ser tão aceitas quanto a primeira.
Mesmo assim, surgem os religiosos moderados! Eles reconhecem que a sua religião perdeu a pureza original por intervenção humana. Reconhecem que os seus livros sagrados podem ter erros, introduzidos por boa fé, má fé ou descuido. Reconhecem os erros de fiéis e mesmo da liderança religiosa. Estão abertos ao diálogo com outras fés. Reconhecem que os decretos de seus deuses não precisam ser levados tão a sério.
Os moderados parecem que têm um deus feito sob encomenda.
Catar no livro sagrado o que é palavra divina e o que é palavra de homens, julgar quais mandamentos (todos claros e categóricos) devem ser obedecidos ou não no século XXI ou usar o famoso contexto bíblico para explicar passagens constrangedoras é não entender o que é seguir a religião que se professa. É algo como o duplipensar [1] ou o negrobranco [2] do romance "1984", de George Orwell.
Noam Chomsky já disse que "A forma ardilosa de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar estritamente o espectro da opinião aceitável, mas estimular muito intensamente o debate dentro daquele espectro... Isto dá às pessoas a sensação de que o livre pensamento está pujante, e ao mesmo tempo os pressupostos do sistema são reforçados através desses limites impostos à amplitude do debate". Isso também se aplica à religião. A Bíblia menciona, entre outros erros científicos, uma Terra em forma de disco e um céu sólido (Is 40. 22). Também, entre outros problemas, prega a intolerância religiosa mesmo no Novo Testamento (I Co 16. 22, II Jo 10). No entanto, coisas assim não são observadas ou mesmo conhecidas por muitos cristãos. Algo dessa ordem de grandeza pode ser dito de cada outra religião. Assim, as alas moderadas, as tradicionais, as fundamentalistas e as relapsas fazem debates periféricos e estúpidos, como se os pontos nucleares da religião estivessem solidamente estabelecidos, indivíduos de alas diferentes se hostilizam entre si, e todas pautam suas vidas por seus livros sagrados, freqüentam os trabalhos religiosos, dão ofertas, educam seus filhos nos padrões divinos e todos os requisitos para um bom fiel. E cada fiel ainda se sente bem de poder escolher entre um ramo mais tradicional ou mais "moderno".
Walter Nunes Braz Júnior
[1] "Duplipensar quer dizer a capacidade de guardar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas."
[2] "Aplicada a um adversário, caracteriza o hábito de afirmar impudentemente que o negro é branco, em contradição aos fatos evidentes. Aplicada a um membro do Partido, significa leal disposição de dizer que o preto é branco quando o Partido o exige. Significa, também, a capacidade de acreditar que o preto é branco, e mais ainda, de saber que o preto é branco, e de acreditar que jamais se imaginou o contrário."
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