Grupos

 

EM NOME DO FILHO

 

“Às vezes o importante não é encontrar

o nosso “Eu” interior, mas acordar o

nosso “Nós” coletivo...”

 

Outro Poema Para o Meu Filho

 Thiago Frederico Alvim Correa Leite

 

 

Ah meu filho THIAGO FREDERICO, terás que me perdoar!

Não te carreguei no colo, nem troquei tuas fraldas

Sequer corri atrás de tua febre auroral, ou te ensinei minhas malucas canções tristes de trilhas desumanas

Sequer brinquei de bolinha de gude ou pipa contigo

Nem contei histórias para que dormisses em paz

Porque a vida me levou de ti e eu fiquei órfão de filho...

 

Na noite escura de minha alma, eu pobrinho também sofri

Lutei muito para conseguir um lugar ao sol sem sol

E quando a vida nos apartou; eu fiquei à margem do caminho...

E a vida também te magoou tanto, te cobrou demais, e agora me apareces assim

Como uma luz de emergência no meu coração partido; o bendito filho...

 

O que fizeram de ti? O que fizemos de nós? As ruas da amargura...

E a culpa dos pais; que não soubemos de cuidar, e agora ouço

Meu coração amargurado tentando reconstruir esses caminhos, porque o encontro

Teve uma asaluz que pela mão de Deus intermediou esse retorno

Para um pai saudoso, doente e ainda mais triste; que não sabe o que fazer de abraços perdidos, dos cálices de ausências

Porque em nome do Filho de Deus retornas e temos

Que resgatar essas lágrimas, essas feridas, entre abraços e a consagração do amor como o melhor milagre, o melhor remédio...

 

Passei a vida inteirinha escrevendo poemas-filhos

Lidando com alunos-filhos; sobrinhos filhos... E nos poemas

Divaguei sonhos, cantagonias, errações; plantei canteiros, e agora me apareces

E sei que posso te tocar, te dar o afeto que se encerra no meu peito

E seguiremos sabendo que podemos contar um com o outro

Até finalmente um dia eu ser recolhido como sucata para ser reciclado e  então me continuarás

E dirão que terás a minha cara, a minha coragem, o meu instinto de sobrevivência

E o meu senso agudo de clamar por justiça ainda que tardia

Como elos da mesma corrente que finalmente se encontram, se ligam e no amor e na dor terão que se sustentar um no outro

 

O abraço que não te dei: o amparo impossível pelos descaminhos do longe, muito longe

E agora te encontro e agora terei que tardiamente aprender a ser pai; terás que me ensinar, meu filho

A tirar as amarras de tuas tristezas, caminhar contigo, correr da chuva... brincar com meus velhos carrinhos quebrados

E com meus dinossauros que, como eu, decoram estantes vazias

Porque és meu filho, porque sou teu pai, e, Em Nome do Filho teremos que prosseguir juntos

Nas alegrias e nas tristezas, nas perdas e nos danos; duas almas tristes tentando barulhanças e contentezas

Porque a vitória com lágrimas é santificada na convivência de aprendermos um com o outro

Como ser e como não ser, para sermos pais e filhos

Ao lado de minha Musa Rosangela que também te acolhe e te abençoa com ternura maternal...

 

Ah Thiago Frederico; meu filho com nome de santo como diz a velha balada

Como eu queria que não fosse assim; eu seria um pai cobrador, chato, queria que estudasses, trabalhasses, que fizesses o melhor

(Os Corrêas tem essa luz e cruz: sobrevivem... e Vencem...)

E caminharíamos cada um pela mão do outro

Como temos ainda que tentar fazer agora; recuperar o tempo perdido...

Nunca é tarde demais – podemos reconstruir essa estadia unidos

Porque carregas minha alma nau; e minha vida fecha um ciclo, em ti e em teu nome se completa agora

E teremos que conviver em paz com isso... conviver ... conviver...

Pai e filho salpicados de lágrimas juntos novamente

Assim na terra como no céu

E seremos pais e filhos desaprendidos de serem pais e filhos

Que se completarão um no outro... que aprenderão um com o outro

E junto construiremos uma estrada de tijolos amarelos muito além de Itararé, muito além de nós mesmos

E nos fortaleceremos um no outro

A lágrima e a luz formando aquilo que teremos juntos e para sempre:

Um Lar!

 

-Você terá um lugar para chamar de seu

E eu finalmente terei de volta o sangue do meu sangue

(Entre suor e lágrimas) para chamar de

 

MEU FILHO...

 

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Silas Correa Leite

E-mail: poesilas@terra.com.br

Blogue: www.portas-lapsos.zip.net

 

 

 

 

 

 

 

Pequena Resenha Crítica

 

 

Um Romance Fora de Série:

“Os Negócios Extraordinários de um Certo Juca Peralta”

Do Literato Sergio Mudado

 

Que a literatura moderna é perigosa

é algo inconteste. A única resposta

digna da crítica que ela suscita, é que

essa literatura venenosa exige um novo

tipo de leitor: um leitor que ‘responda’

 

Paul Ricouer, Pensador Francês

 

-Eu sou macaco de auditório do médico-literato Sergio Mudado, desde que me deliciei com o livraço Vassalu, que tive o prazer de resenhar e que, acho, vertida para o inglês, devidamente encaminhado para um agente literário dos Estados Unidos daria um filme clássico muito melhor do que Tróia e Gladiador, e que, em tese, trata do mesmo tema, época e idade média da história. Estupenda obra prima.

-Por isso, quando recebi “Juca Peralta”, Romance, custei a me preparar para a leitura que teria que ser especial, prazerosa, e que, certamente iria mexer com meus botões sensoriais. Vivendo época pessoal difícil, de amarga caminhadura, finalmente entrei de vereda na leitura que prometia, aqui e ali parando, indo e vindo, até que finalmente tomei pé definitivo e dali em diante, escolado, salve-se-quem-puder, caí no fluxo narrativo e babei. Baba baby, diria a canção. Pois foi por aí...

-A narrativa de Sergio Mudado cativa, seduz, empolga, pega o ledor feroz pela mão, leva-o para passear no parque temático das contações, uma linguagem ao mesmo tempo em que cult e pop, lembrando aqueles historiadores e cronistas mineiros que deitam falatório e seduzem, aplainam, e, levados da breca, fazem o leitor seduzido curtir, gostar, “cerrir” (como se diz lá em Itararé), e outros prosopopéias de mais um clássico da literatura brasileira que o Sergio Mudado é mesmo o numero um atualmente. Só senti o mesmo prazer quando li O Baudolino do Umberto Eco, Sergio Mudado no mesmo patamar, no mesmo nível.

-Contações com esmero, dados filosóficos e místico-conceituais, passando pela história de Minas e suas semeaduras gerais, do Brasil  de muito ouro e pouco pão, do mundo que Brecht rotulou como em tempos tenebrosos, como se o autor inventasse uma toda própria memória recorrente de idas e vi(n)das, alguns dados místicos, e, toma-lá-da-cá, o bendito boêmico personagem principal Juca Peralta que pinta e borda alardeios e mesmo insanidades, e bota suspensório em cascavel, aprontando das suas peraltices, entre prazeiranças e contentezas de um livraço. Muito prazer de ler, acreditem. Sergio Mudado narra com uma baita maestria, que dá o que sentir, curtir, florir-se. O próprio pensador francês Paul Ricouer ainda reafirma, a propósito do livro e de seu prumo literário: “Não temos a menor idéia do que seria uma cultura em que não se soubesse mais o que significa ´narrar,”

-Sergio Mudado dá show. Romance pontuado com causos do arco da velha – o escritor um grande mentiroso? – e o leitor entra de mala e cuia e mente lavada, e vai sendo bombardeado pelo implícito, explicito, internarrativas, ora sob um enfoque, ora sobre outro, na garupa do historial o leitor é conduzido e monta a galope o romance-quase-novela todo. Será o impossível? Pois, a acredite, se quiser, o livro de mais de 400 páginas cumpre a missão maravilhosamente, Sergio Mudado no auge, esmerilhando mitos, lendas, fofocas, mentiras e, claro, o conhecido e magnífico fluxo narrativo que é como se o doutor médico, também aí incluído importante (com prisma todo próprio) também uma persona en-passant no livro, e ainda assim por isso mesmo nos trouxesse mentes, corações, sentimentos, perdas e drenos, sob a sua ótica-criação de primeira grandeza, em belos horizontes, trilhas, errações, contrações e bravezas. Bravo.

E em troca de e-mail com o literato Sergio Mudado, dele tirei dados, pondo pimenta-camari na minha leção: “...No Juca Peralta você chegará a um capítulo no qual Juca e Noel Rosa passeiam pela noite da cidade em (1936), e a atmosfera é de pura magia.  O livro, admito, não é de leitura fácil e contém alguns segredos que podem ser desvendados ou não. Noge é o inverso de Egon, e é justamente um alter-ego do grande memorialista Pedro Nava (José Egon de Barros). Ele se torna o senhor do tempo podendo ir e vir, passado e futuro. Cleópatra é Ísis, deusa maior do panteão egípcio. O rádio Matador existiu como foi descrito. A Leitora, que acompanha quem narra, também existiu (e existe) de verdade, acompanhou a feitura do romance. Existe assim um espécie de realismo mágico. O livro começa em janeiro de 1939 e termina em setembro quando inicia-se o II conflito mundial. Nele entram, além de Pedro Nava, Guimarães Rosa, Thomas Mann, Joyce, Proust, Kayan  e outros. O universo do romance é complexo, mas não indecifrável.... Bem, eu me diverti muito, escrevendo-o. Minha mulher, que não é leitora "profissional" foi colhida pelo livro, o que me tranqüilizou... (...)”

-Wesley Duke Lee disse que "O que realmente me interessa é a qualidade da ilusão." No caso de Sergio Mudado ainda é a qualidade excepcional da imaginação, sentição, “dom de iludir”, cultura histórica, conhecimento dos descaminhos e configurações interioranas da matreira Minas, dando voz a figurinhas carimbadas de sertões, ruas, bares, quintais e zonas das mulheres de difíceis vidas fáceis, altares, quebradas, monturos, escombros e purezas, como no caso do viajante companheiro que é o Fábio, um aprendiz de Juca em mundos e cafundós.

-Entre magias, feitiços, mágicas, zonas de meretrício, cabarés, bares, crônicas, derramas, poemas, muita MPB e Noel Rosa cifrando todo o livro, mais poemas, insinuações paraletrais de quadrinhos, cantilenas, dados folclóricos, mineirices e pujanças, Juca Peralta pelo seu criador Sergio Mudado vai indicando dados dicas de rincões e suas tipicidades, curas, remédios, purgações, bacilos, pachorras, intermediações, matadores de aluguel, bares, comidas e comilanças, mais acidentes de percurso de amor que é cego e carecido, prostitutas, amantes, perigos, acidentes; um mosaico interiorano dessa Minas que muito bem representa a nossa brasilidade mestiça, entre imigrantes, lugares aonde o Judas perdeu o All-star, e vai por aí o bolero, as acontecências, bravatas e impertinências de percurso, feito um bem-bolado daquele que, certamente, é sim um dos maiores escritores atuais de Minas Gerais, um médico romancista. Já pensou?.

-Sobre o maravilhoso livro do cavaleiro medieval de Sergio Mudado eu já tinha escrito (fragmento):  “A história é uma pedra na consciência da civilização. Van Tieghem diz que a categoria social e a importância do escritor crescem em forma notória. Deve ser isso. Os privilégios dos caminhos da literatura contra os sandeus do absurdo que ainda impunemente viçam e mandam. Milton Hatoum diz que o escritor passa a vida inteira tentando dizer uma verdade profunda através de uma invenção literária. Sergio Mudado acertou e brilha na sua obra. Aliás, o próprio dia de brilhar (ilha de edição?) vive dentro dele, espelha ele, está no romance dele, Vassalo. Carne e coragem. Idade Média destilada como sangria letral. Por fim, como muito bem observou a amiga Maria Ilsen na apresentação do livro no site da Livraria Cultura, só a consciência da finitude explicaria a busca da continuidade muito além da vida, além dos sentidos. Alguns se tornam vassalos desta busca. Outros, plantam árvores, criam filhos, deixam obras importantes como Vassallu, A Saga de um Cavaleiro Medieval (de Sergio Mudado)”.

-Pois “O Negócios Extraordinários de um Certo Juca Peralta” é desde logo um clássico. Já no prefácio Benedito Nunes diz do realismo grotesco de Juca Peralta, e comenta: “Nas conversas dos personagens(...) intercalam-se o tempo todo versos das modinhas de Noel Rosa, também feito personagem. O próprio romance é um híbrido conjunto fragmentado, que é persegue e perseguido pelo Tempo e suas loucuras. Em contraponto com as peripécias de Juca Peralta, estão as idas e vindas da própria narrativa, que se divide em três partes dentro de um período datado – a partir de janeiro de 1939, ano fatídico, já instalado o Estado Novo por Getulio Vargas. Não esqueçamos (...) que essas idas e vindas é o próprio Tempo em seu fluir invisível, que se elabora como matéria prima da própria narrativa,m o Tempo vertiginoso, que tem medida desigual(...)”

-A Orelha de Juca Peralta já alerta a proposta: “Uma parceria – Semeei-te em mim - diz, quem narra e lê”, selando um pacto entre o leitor/narrador/autor, “perigo, musica e perfume(...) a atmosfera do texto”. E explicita ainda na orelha: “O leitor que ousar acompanhar quem narra, terá, se sobreviver aos perigos que o espreitarão ao longo da jornada, a oportunidade única de sair de si mesmo e contemplar outro universo(...). Sentirá no espírito, ao mergulhar neste mundo fantástico mundo de palavras alinhadas, imenso deleite. E,s e for arguto, poderá reconhecer nesses resquícios de literatura uma declaração de amor a palavras e aos gênios que a transformam: Nava, Rosa, Mann, Proust, Joyce... (...) Romance saboroso, regido pelo antigo deus que, ainda hoje, ilumina a existência dos amantes da arte, dos leitores capazes de ouvir no vento de estrelas a sinfonia cósmica do Senhor do tempo, da Magia e da palavra” 

-O vendedor-Inspetor Juca Peralta, caixeiro-viajante, o aspirante a vendedor Fábio, o rádio Matador feito uma metáfora que se comunica, fere, brinca e se expande literalmente, mais expressões, doenças, filosofias, mitologias, fantasmas, tudo impregnando as facetas do livro que são várias, vários prismas, vários espaços cênicos, tudo um verdadeiro vislumbre para quem adora literatura de alta qualidade criadora e narrativa impecável, entre tantos personagens que vão, voltam, somam, dramatizam, ironizam, recheiam o livro, com viagens de trens, estações e paragens, baldeações (inclusive trans-narrativas) citações bíblicas, ou outras em latim, francês, um verdadeiro destrinche das facetas dos personagens, técnicas de narrar e mesmo confeito criacional do autor, fora de série mesmo. Não é qualquer um que pode criar uma obra assim. Não é qualquer dia que uma jóia preciosa assim nos cai na graça ledora impertinente de se deixar encantar. Mil maravilhas.

-Tuberculose, loucuras? Juca Peralta é o “jogo de amarelinhas “(Fidalgas...) de Sergio Mudado? "Cada romance tem de ser um objeto único. O enredo ordena a sua forma. A estrutura do relato segue a intensidade da narração.", diz Juan José Saer. Por fim, falando sério, deixo que o leitor procure o seu exemplar do belo livro, corra atrás, vá ser também Juca e Peralta atrás de seu comboio, lugar-tenente de ilusões, culturas e artes lítero-culturais fantásticas, trem noturno ou não. Porque, de uma forma ou de outra, assim na terra como no céu, loucos ou saradinhos – de perto ninguém é normal, cantou Caetano Veloso – somos todos filhos de estações de trens; afinal, já no passado não cantou o Ministro da Cultura Gilberto Gil, sobre o benfazejo Expresso 2222 da Central do Brasil?

 

-Sim, há um trem para as estrelas... E em Juca Peralta a vida é um comboio engatando acontenças, e a visão pode ser só um ponto de partida ou de chegada. Deste e de outro mundo.

 

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Silas Correa Leite - Santa Itararé das Artes/Samparaguai, Fevereiro 2011

Poeta, Ficcionista, Teórico de Educação, Conselheiro em Direitos |Humanos, Jornalista Comunitário, Premio Lygia Fagundes Telles Para Professor Escritor

Pós-Graduado em Literatura na Comunicação (ECA/USP)
Autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos premiados, finalista do Prêmio Telecom, Portugal, à venda no site
www.livrariacultura.com.br

E-mail: poesilas@terra.com.br

Blogue premiado do UOL 2009/2010: www.portas-lapsos.zip.net

Site de sua aldeia natal: www.artistasdeitarare.blogspot.com/

 

Poema

 

ERRAÇÕES (Auto-Retrato Testamental)

 

(Inferno astral de agosto de 2010)

 

Breve e agudo, epigramático, irônico, cara e coragem verbalizando

Esperança-utopia sempre – um outro mundo (as letras! as letras!)

Idílios pastoris, epifanias, e cortes na própria carne. Ai de mim!

Corte seco na linguagem espandongada, verve satírica, contundente

Resíduo cru da Geração 45 ainda (misticismo poético), nos Anos 60

Condensações – essências e medulas – eis o estilo quando não desenfreado

Às vezes a metralhadora dialética – sai de baixo; os vazamentos gerais

Às vezes o paradoxal, enxuto, anti-retórico – os versos – e os véus

Haiquases, microcontos, twitter-poemas, alma-olaria – a alma-nau

A palo seco vez em quando (vice-versos) – rigor concreto (neoconcreto)

Lucidez verbal; jorro neural - polaridades – chorumes em verso e prosa

Visibilidades, pertencimentos – humanismo de resultados, goya-marx

Remontagens de vocábulos – pensadilhos, trilhas, urbes, hangares, o caos

Jogam-se palavras no macadame das idéias, mixórdias, consertos críticos

Paródias, refabulações, letras de rocks e blues, hinos, louvações gerais

Desmontagens de palavras, parágrafos, trocadilhos, kamikazes urdidos

Ideologia-guaraná, signo não verbal, vanguarda, e-book, morte à matéria

Ficção-angústia: e chistes espirituosos, cracas, contentezas, barulhanças...

Volúpia, paixão de escreviver: estrelamentos, ilhamentos-crusoés na web

Prazer lúdico: jogo palavreal – o avesso do haver-se (palavras cruzadas)

Neologismos-chistes: salmos contemporâneos,  existir dói o sobreviver

Romance com loucura-lucidez, vários finais, técnicas de lesmo com asas

Contraposições – desvairados inutensilios, bem-te-vi, bem-te-ri, aleluias

Significados e metalinguagens: metáforas etílicas, carpideiro cervejólogo

O que o poeta no fundo é? Errações & erranças – sal da terra oxidado

O inconsciente: clarificações – campo de trigo com corvos – porta-lapsos

O sentido de sobreviver, o retiro letral: ensaios-estúdios, homem-cerveja

Ensaísta de ocasião, resenhista e outros istmos. Ilhações-cibalenas: diques

Rações de subvida: existencialismo com placas de capturas: range a rede

Santa Itararé das Letras, Cidade poema, terra-mãe, auto-exilio íntimo

O pântano da condição humana - desterro de pasárgada: shangri-lá...

Sagrado coração de ser-se: inventário de partilhas, testamento-vazão

Escrever é éter, é ter, é ter-ser(se): código de barros macunaímicos

Épico-cético: o cínico estado mínimo, ai de ti neoliberalismo-câncer

O antivida: exílio literário, ócios do oficio nas enlivrações-bastilhas

Lacônico ou exagerado: complexo, obstinado, transliterário-purgação

Abismal subjetivo, declínio e levitação, aqui jazz o que se escreveu pra ser

Itararé-mãe: o neomaldito - fuga do ser de si em verbos-cálices, fermentos

O poeta finge a dor: solidão-coivara, solidão-albatroz, surrealismo ópio

A provinciana metrópole: Samparaguai, roubismo desde os bandeirantes

Neo século: ansiedade, Rosangela musa-vítima: salvação da lavoura

Onírico: fantasmas, fantasias e espiritualidades – consciência-remorso

Sacrifício, fome, dormir na rua, máscaras mortuárias, escombros de ler

Poemetos-feições. Prêmios, midia, tv – escrever é fuga do não se achar

Prosa cênica: Provocações (Pan-Abujamra), tudo a ler. Escrita catarse

O grotesco, a sozinhez da alma – geração teflon em infovias efêmeras

Vestígios de ausências. Guardados incontidos, poesilhas e entretextos

Não necessariamente nessa ordem o testamento letral do inferno agosto 

Surrealismo, realismo fantástico, meio século-banzo: inquietudes.

Neruda-Lorca-Whitman-Rilke-Maiakovski-Jorge de Lima, Lispector

Alma-vida insana, precariedades, olhar-furacão, tez chão, ultrapássaro

Luz sobre as trevas: eu estive lá-aqui-mesmo: condenação a viver é isso

Escrever cetras e carbonos, vagações e poemas, contos, nas errações

Dei testemunho de mim escrevendo. Corto os pulsos com poemas, singro

A literatura como tábua de carne da vida. Condenaram-me a sobreviver

Destilo prosas e versos, pastoreio poemas, delato, testemunho, assino só

A passagem pela vida como se arrastasse a dor, a tristeza e a solidão

Escrever válvula de escape: A vida é um erro? Fermento odes-errações

Na tábua de carne da vida, onde me sirvo em penúria do existencialismo

Possível; quase cárcere de tentativa. Olhando os martírios das lavrações!

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Silas Correa Leite – Augusta Sampa/Santa Itararé das letras

E-mail: poesilas@terra.com.br  - Site: www.itarare.com.br/silas.htm

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Editores esnobam Machado de Assis

Esdras do Nascimento

 



A reportagem da Folha de S.Paulo enviou, pelo correio, a seis editoras uma novela de Machado de Assis, pouco conhecida, intitulada Casa Velha. Como autor, constava um nome desconhecido. Os originais, impressos em computador, estavam encadernados com espirais, o endereço do autor era um hotmail do correio eletrônico, criado especificamente para isso. Seis meses depois, a Companhia das Letras, a Objetiva e a Rocco responderam dizendo que não tinham interesse no livro. A Record, a L&PM e a Ediouro não responderam nem acusaram recebimento. Nenhuma delas reconheceu que se tratava de um texto de Machado de Assis.

A Editora Objetiva recebeu 547 originais em 1998. Isa Pessoa, responsável pela seleção de textos, disse que pelos menos vinte páginas de cada livro são lidas para avaliação. Além de duas pessoas que se dedicam a esse trabalho, na editora, também são usados colaboradores de fora.

Vivian Wyler, gerente editorial da Rocco, disse que recebe quarenta originais por mês, havendo períodos em que esse número chega a oitenta. Três funcionários fazem a primeira leitura. Quando o livro interessa, é submetido a uma segunda e a uma terceira opiniões de leitores que têm, no mínimo, mestrado em literatura.

A Companhia das Letras recebe por mês cem originais em português, que são avaliados por sete pessoas e, eventualmente, submetidos a pareceristas especializados.

Na opinião da gerente editorial da Objetiva, "estilos também envelhecem. Uma coisa é o autor dentro de seu contexto literário e político. Outra, é ele hoje. (Casa Velha)... não cativa, não está dentro do que estamos buscando, não tem empatia com o leitor brasileiro de 1999".

Vivian Wyler, da Rocco, afirmou que "o problema é de mercado mesmo. A pessoa que avaliou o livro disse que, de cara, pesou o fato de parecer uma novela histórica, gênero que teve um boom há alguns anos. Só para 99 já contratamos três livros assim, sendo que dois são exatamente desse período. Julgamos que o autor imitava um estilo antigo, o que é complicado para o leitor de hoje, às vezes, um empecilho. A linguagem é um pouco rebuscada".

Ruth Lanna, da Companhia das Letras, informou: "Fui procurar os registros e encontrei a entrada desses originais e também a saída, mas não a avaliação. Não sei dizer os motivos. Mas afirmo que o texto enviado foi analisado. Se você recebeu uma carta de recusa, é por que ele passou nas mãos de um leitor aqui dentro".

Como informa a reportagem da Folha, Casa Velha foi publicado pela primeira vez entre 1885 e 1886, dividido em 25 episódios, na revista para senhoras A Estação: "O romance é ambientado no Rio de Janeiro, em 1839. A dona de uma casa oligárquica quer impedir que seu filho se case com uma de suas protegidas. Para ajudá-la, chama um padre, que mais tarde narrará esses eventos ao leitor".

Lúcia Miguel Pereira foi a responsável pela publicação de Casa Velha em livro, pela primeira vez em 1944. Machado de Assis, ao contrário do que fez com a maioria dos seus outros trabalhos escritos para jornais e revistas, não reuniu os episódios para editá-los num volume. Isso não quer dizer, porém, que se trate de obra menor, insignificante, de Machado. Nem, tampouco, que seja uma obra-prima, simplesmente por ter sido escrita por ele. Quem estiver interessado em conhecer essa novela de Machado poderá encontrá-la no volume II das suas obras completas editadas pela Nova Aguilar.

Tempos atrás, num concurso de contos, no Rio, Sagarana, de Guimarães Rosa, perdeu para uma coletânea de histórias curtas assinada por Luís Jardim. Na comissão julgadora, voto decisivo, estava mestre Graciliano Ramos. Na França, André Gide mandou devolver os originais de Em busca do tempo perdido, de Proust, por considerá-los ilegíveis.

Em 1959, Umberto Eco escreveu uma bem-humorada coluna mensal de paródias para um jornal literário italiano. Essas paródias foram reunidas em livro em 1960, em dois volumes. Um dos capítulos foi intitulado "Infelizmente, estamos devolvendo o seu...". Reunia textos imaginários de avaliadores de originais sobre textos oferecidos aos editores por seus autores ou agentes:

* A BÍBLIA, anônimo – As primeiras centenas de páginas deste manuscrito realmente me fisgaram. Cheias de ação, elas têm tudo o que os leitores de hoje querem numa boa história. Sexo (aos montes, incluindo adultério, sodomia, incesto), assassinatos, guerras, massacres e por aí vai. O capítulo de Sodoma e Gomorra, com os travestis dando forma aos anjos, é digno de Rabelais; as histórias de Noé são puro Júlio Verne; a fuga do Egito merece uma grande produção cinematográfica. Em outras palavras, uma verdadeira bomba, bem estruturada, cheia de ginga, plena de invenção. Mas, à medida que continuei lendo, entendi que o manuscrito é na verdade uma antologia, envolvendo diversos escritores, com muitas, muitas mesmo, passagens de poesia, outras partes enjoativas e tediosas, e lamúrias que não fazem sentido. O resultado final é uma antologia monstruosa. Parece ter um pouco de todo mundo, mas termina apelando para ninguém. E adquirir os direitos de todos esses diferentes autores vai significar grandes dores de cabeça, a menos que o editor cuide disso ele mesmo. O nome do editor, a propósito, não aparece em nenhum lugar do manuscrito. Há alguma razão para manter sua identidade em segredo? Eu sugeriria comprar os direitos apenas dos primeiros cinco capítulos. Neles estamos pisando firme. Também se poderia pensar num título melhor. Que tal Os desesperados do Mar Vermelho?

* A ODISSÉIA, de Homero – Pessoalmente, gosto deste livro. Uma boa trama, excitante, embrulhada em aventura. Grandes momentos dramáticos, um gigante de um olho só, canibais, até algumas drogas – mas nada ilegal, porque até onde sei o lótus não está na lista do Departamento de Narcóticos. A cena final segue a melhor tradição do western, com algumas lutas pesadas, e a história com o arco é um golpe de mestre de suspense. O tom é calmo e ponderado, sem ser pesado. E a montagem, o uso de flashbacks, as histórias dentro de histórias... Em poucas palavras, este Homero é a coisa certa. Inteligente demais, talvez, comparado ao seu primeiro livro. Eu imagino se é realmente dele este trabalho. Sei, é claro, que um autor pode se aperfeiçoar com a experiência, mas o que me causa um certo desconforto – e, finalmente, me leva a dar um voto negativo – é a confusão que a questão dos direitos vai causar. Em primeiro lugar, o autor não é encontrado em lugar algum. As pessoas que o conhecem dizem que sempre foi difícil discutir qualquer mudança a ser feita no texto, porque ele era tão cego quanto um morcego, não conseguia encontrar o próprio manuscrito, e até dava a impressão de que não estava completamente familiarizado com ele. Será que realmente escreveu o livro ou apenas o assinou?

* A DIVINA COMÉDIA, de Dante Alighieri – Alighieri é um típico escritor de domingo. Seu trabalho mostra um inegável domínio da técnica e um considerável faro narrativo. O livro, no dialeto florentino, consiste de cerca de uma centena de capítulos rimados, e muito de seu conteúdo é interessante e de boa leitura. Eu particularmente gostei das descrições de astronomia e de certas noções teológicas concisas e provocativas. A terceira parte do livro é a melhor e terá o maior apelo; envolve assuntos de interesse geral, concernentes ao leitor comum – salvação, a visão beatífica, adoradores da Virgem. Mas a primeira parte é obscura e auto-indulgente, com passagens de erotismo barato, violência e crueza absoluta. Mas o grande inconveniente é a opção do autor por seu dialeto (inspirado sem dúvida por alguma idéia de vanguarda).

* EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, de Marcel Proust – Este é um trabalho indubitavelmente sério, talvez longo demais. Poderia vender como uma série, mas não deveria ser publicado como está. Precisa de um trabalho editorial sério. Por exemplo, a pontuação deve ser refeita. As sentenças são muito elaboradas; alguma tomam uma página inteira. Bem trabalhado, reduzindo cada sentença para um máximo de duas ou três linhas, quebrando os parágrafos, o livro seria aceito. Se o autor não concordar, então esqueça. Como está, o livro é muito – qual é a palavra? – asmático.

* CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA, de Immanuel Kant – É um pequeno e razoável livro sobre moralidade, que poderia se adaptar perfeitamente às nossas séries filosóficas, e poderia até ser adotado por algumas universidades. Mas o editor alemão diz que, se nós o comprarmos, teremos que nos comprometer não apenas com o livro anterior do autor, que é uma coisa imensa em no mínimo dois volumes, mas também com aquele no qual está trabalhando agora, sobre arte ou sobre julgamento, não tenho certeza. Todos os três livros têm mais ou menos o mesmo título, logo teriam que ser vendidos num pacote (e a um preço que nenhum leitor poderia recusar); de outra maneira, os ratos de livrarias poderiam confundir um com o outro e pensar "já li isso antes".

* O PROCESSO, de Franz Kafka – Um pequeno e agradável livro. Um thriller com alguns toques de Hitchcock. O assassinato final, por exemplo. Poderia ter algum público. Mas aparentemente o autor escreveu sobre um regime de censura pesada. Se não, por que todas essas vagas referências, esse truque de não dar nome a pessoas ou lugares? E por que o protagonista é colocado em xeque? Se esclarecermos esses pontos, o suspense ficará garantido. Escritores genuínos devem ter em mente as cinco questões básicas dos velhos jornalistas: quem? o quê? quando? onde? como? por quê? Se pudermos ter mão livre na edição, eu diria: compre-o. Se não, não.

* FINNEGANS WAKE, de James Joyce – Por favor, diga ao editor para ser mais cuidadoso ao distribuir livros aos analistas de textos. Eu sou leitor de língua inglesa, e vocês me mandaram um livro escrito em alguma outra língua remota. Estou devolvendo-o em pasta separada.

De toda essa história polêmica, fica a constatação de que três editoras das mais importantes do país sequer acusaram recebimento de originais recebidos. Essa prática é comum. E deixa alucinados os autores, que entram muitas vezes em paranóia escrevendo cartas, enviando faxes e e-mails e telefonando às editoras, no esforço inútil de tentar saber o que foi feito dos seus livros e se eles serão publicados ou não. Raramente recebem respostas. Nem mesmo a gentileza de um telefonema. Os gerentes editoriais, com raras exceções, tornam-se inacessíveis. Sonhando talvez com o dia em que haverá livros sem autores.

 

 

Poema Homenagem

 

Sagrado Coração do “Tomé Teixeira”

 

04.09.2010 – Centenário da Escola “Tomé Teixeira”

 

-Levanta Guri! Tem Aula no Tomé!

Final dos Anos 50 em Itararé.

A mãe fervendo roupa no fogão com vermelhão

E eu já de bubuia com roupa humilde, cerzida

Saía pra constelação da escola; viajoso para a lavoura da vida

Aulas com a Mestra Jocelina querida.

 

Frio junino de rachar cachos de mamonas

O pai debulhando chão de estrelas na acordeona

-Vamos, vamos, se aprume depressinha menino

Teu destino

Está no ensino...

 

Lá saía eu serelepe com o par de congas de segunda mão

Olhar de bezerro desmamado, carente e pidão

Aprender a mais suprema lição.

-Bom Dia Querida Professora Jocelina

(Ela é própria ternura que de si mesma se ensina)

 

Verbos. Tabuada. Desenho. Geografia:

A pedagogia que era a mais portentosa harmonia.

-Oito Vezes Oito?

(Arroz com biscoito)

Eu, rimando, pensava – mas não dizia

E a professora bondosa era meiga, não ralhava

E a Cartilha Caminha Suave perene ensinava

Foi por aí que nasceu a minha primeira poesia

Certamente que muito pueril; e a mestra melhorava

Corrigia... incentivava...

 

Dia da Pátria, Dia do Índio, Dia da Árvore, Dia da Bandeira

-“Salve Lindo Pendão da Esperança...”

Nos tempos do Tomé Teixeira eu era muito criança

E uma escola como aquela era alumbrada e prazenteira.

-Quem descobriu o Brasil? – Perguntava a Professora na chamada oral

E eu hiperativo e espeloteado de presto berrava: Pedro Álvares Cabral!

 

A Professora Jocelina que fez o Poeta

O menino que teve a primeira mestra como um anjo em sua vida

Ensinar a Ler e Escrever é dádiva – e benção - de Deus

(São tantos os pergaminhos dos aprendizados meus)

-Á “bença” Professora Dona Jocelina Stachoviach de Oliveira!

-Deus te abençoe curumim, poetinha aluno do Tomé Teixeira!

 

Virou poeta; o menino tornou-se também por causa dela um escritor

Canta Santa Itararé das Letras muito além do céu distante do interior

“Minha Terra tem pinheirais

Onde canta o Sabiá Aristeu

E Tomé Teixeira o berçário

Que luz em minha vida acendeu!”

 

Cem Anos da Escola Tomé Teixeira, Centenário

Berço, ninhal, ponto de partida – encantário

Cem Anos no Historial da melhor Educação

“Entra Aluno, Sai Cidadão”

Patrimônio Educacional ilustre é

A Escola Tomé Teixeira de Itararé

 

“Pobre só tem uma saída/Estudar para ser alguém na vida”

“Quem não estuda/Não muda”

O Tomé Teixeira foi a escada para o céu, a minha providencial ajuda

O menino pobre aprendeu a pedagogia do afeto com exatidão

E sua louvação agora se clarifica muito além da adorada Itararé

Cidade Poema que sua aldeia nativa e terra-mãe ainda é

E assim, vitorioso, do fundo do seu coração

À primeira escola pede a benção:

-“A Benção Sagrado Coração do Grupo Escolar Tomé Teixeira”

As lições de amor da Mestra Alfabetizadora Jocelina são

Para muito além da constelação de uma vida inteira!

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Silas Correa Leite

 

 

 

Pequena Resenha Crítica

 

 

Romance “SAL DA TERRA” de Caio Porfírio Carneiro: O Encharcamento de Almas Carentes Expropriadas

 

 

“Cada escritor vai soprar no espaço em branco o

seu próprio carma, a sua sabedoria cavada no

atordoamento causado pelo tanto de mistério que

nos constitui e humaniza” - João Gilberto Noll

 

 

 

 

Com uma narrativa realista a palo seco, o Romance “Sal da Terra” de Caio Porfírio Carneiro, um dos pilares da UBE-União Brasileira de Escritores faz tanto tempo, com brilho de estréia já no seu lançamento em 1965 (Editora Civilização Brasileira, RJ), depois relançado em 1980 e 1984 pela Editora Ática, SP, retorna agora, quarta edição em todo o seu esplendor, pela Editora LetraSelvagem (Taubaté-SP), mantendo ainda o mesmo vigor como se fosse romance atual, porque ainda encanta e abre os olhos para a realidade-sal de uma região, de um tempo, de um espaço-lugar, como fosse momento atual numa joiada literatura de já-hoje. 

 

Parias, tarefeiros, brabos e mansos, nas lidas das Salinas do Ceará, sofrido nordeste brasileiro. E os nominados personagens sofrendo calos, cegueiras, entre maxixes, deformações, meretrício, mais águas salobras, cloreto de sódio, ainda a agonia, tragédia, crueldades, exploração humana, sangrias desatadas, aqui e ali na técnica do leque, abrindo e fechando parágrafos entre diálogos cortantes que enredam a compreensão do historial como um todo.

 

Guedegue, Cristina Louca, Bibio, Cego Delfino, Mestre Nonato, entre outros, personagens fortes e marcantes vão se passando e pontuam as acontecências entre os paradoxos de beleza e horror, no cotidiano doloroso da sobrevivência tornada possível a custo alto, preço infame, feito uma geografia de dezelo humano, com implicâncias de impropriedades sociais, o próprio continente branco (“impurezas no branco”), a diversidade beleza/sordidez, mais miséria, exploração, o homem brucutu feito peão ou fantoche expropriado entre o sal, o sol e o ser, ou bisonho sub-ser no caso, entre pirâmides de sal grosso e a própria miséria urdida; miserabilidade branca de uma solidão aterrorizantemente branca-selvagem, em que a pior aridez é a relação de troca capital/trabalho. Mudou muito desde então?

 

O peão tarefeiro brabo como abominável homem do trabalho pesado e mal-remunerado, quase sub-servo, o ferro-de-cova; num formigueiro branco entre travessias de sub-operários com brechas na sola do pé, a cegueira precoce, a luminosidade de uma salina que também provocada viola e cega. Diz o Negro Valério: “Salina só tem beleza por fora(...). Come por dentro que nem rato”.

 

Sim, no romance SAL DA TERRA salina tem cor e lavra carpida de morte “caiação de cemitério”, todos os personagens como lazarentos desfilam cada um ao seu modo desconfigurado entre as rudezas de muito cloreto de sódio, o maldito e lucrativo sal.

 

“A viração vibrava nas frinchas do telhado e as pilhas de sal, enfileiradas no barranco, branquejavam ao luar como estátuas silenciosas. Acordes tristonhos de um violão para o lado do puteiro. Gritos ao longe de um menino apanhando (pg. 38)”. Essa é a cruenta tônica narrativa, ora entintando os núcleos desumanos dos negredos do aldeamento, ora uma fluidez do real translucidando o próprio verbo salgar as carnes que foca, conta, liga, entrelaça, permeia. A última capa do livro aponta o cenário: “As mazelas de um meio físico e social hostil e degradante”.

 

Escombros humanos salinizados. Prosa propositalmente crua, sendo ela mesma também salinizada. Desalento. Melancolia, a própria brancura de certa forma paradoxalmente turvando a lucidez dos expropriados, entregues à própria sorte, ao deus-dará, os tais tarefeiros obtusos. Sal marinho e carne humana enquanto o subviver. O charque social. O achaque do explorador, os parasitas e as paranóias do entorno.

 

“Uma grande paz branca envolve a salina. As águas claras dos escoadeiros corriam em filetes como compridas tranças (pg.46)” Iniciação de mão-de-obra quase escrava que aleija, degrada... Iniciações amorosas. Relações de conflito. Caio Porfio Carneiro fala de sua terra com mostra de quem contundentemente bem exercita o verbo escrever com olhos que resvalam  para um devão sócio-crítico da antropologia.

 

George Lukács diz que romance é a história de um herói insatisfeito que busca valores artísticos num mundo degradante. Assim é o romance SAL DA TERRA de Caio Porfírio Carneiro. Uma obra entrecortada de diálogos justapostos, conferindo desfechos, inclusive no pré-final que implicita um desdizer, o possível que, o talvez de; manejos de véus literais e assim por diante, bulindo com a imaginação e a sensibilidade do leitor nos sentidos tácitos ou nas aproximações das narrativas, quando não num proposital distanciamento dos quadros cênicos descritivos, levando e trazendo o leitor para aqui e ali, indicativos do que elucida no contar. O homem sal da terra? O escritor sal da terra, dando a sua temperança no olhar, descrever, fabular?

 

Turvam-se águas e salinas, para descobrir-se a transparência da terra em transe; buscando-se a transparência humana, o homem também como sal de si mesmo. Sem contar não podemos parecer humanos. E contando mostramos o desumano. Esse mundo não é falso, esse mundo é um erro, diria Mia Couto. Escrever é exercitar a paciência para descrever núcleos de remorsos incontidos?

 

A terra e o feitio do homem. O homem o bicho da terra. A terra sal do homem. O fatalismo regional. Nonato o Mestre da Salina. O sertão-sol-mar. O submundo do trabalho expropriado e o próprio sentido metáfora do sal nesse intento salgando idéias, corações, músculos, almas; secando-as ao sol para o charque lacrimal do devir a vidas carentes expropriadas na mixórdia da sobrevivência difícil. A subvida, ou a vida-cloaca no pântano da condição humana.  O homem pântano do homem.

 

Caio Porfírio Carneiro destrincha a carne, o sangue e o eio do sal do que conta. Tempera parágrafos, nunca salga demais as contações, não se excede nas errações. Mas a vida (vida?) das salinas está muito bem exposta literariamente e o livro SAL DA TERRA é testemunhal.

 

Obstáculos existem na sobrevida, detalhes pungentes enredam, a selva-salina na salmoura em testamento de vidas ao rés do chão saltam aos olhos na leitura; sinais e desejos, lumes e limos, contextualizando atos e passagens, compartilhando assim com texto tenso a invisibilidade dos comuns na brancura fria das salinas, feito vazamentos de águas paradas, rabiscando luzes literais nelas, para um romancear que traz o pertencimento dos inválidos, encharcados pela rudeza crua da sobrevivência roubada nesses brasis gerais com a tez chão dos que vegetam a mingua.

 

Escrever é colocar sal na ferida vida dessa brasilidade expropriada. E Sal da Terra de Caio Porfírio Carneiro resgata isso num belo romance.

 

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Silas Correa Leite

E-mail: poesilas@terra.com.br

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Pequena Resenha Crítica

 

 

Livro “Artesã de Ilusórios” - Um Tremendo Bordado Literário de Letícia Palmeira

 

 

A compreensão não é um saber abstrato.

 

É um saber em ação.

 

Paulo de Camargo

 

 

 

-Mas, afinal de contas, o que é mesmo que Letícia Palmeira escreve? Como classificar sua primeira obra, a estréia em alto estilo, de salto alto? Conto, crônica, ficção, prosa em verso, prosa poética, derramas subjetivos, criações letrais, pirações, qual a classificação narrativa do exuberante livro “Artesã de Ilusórios”, Editora Universitária, UFPB, 2009? Essa é a questão.

 

Você começa a ler e, baba baby, fica encantado; acha que está entrando num conto, depois periga ver é ensaio, quando não começa meio croniqueta e vira conto, ou vice versa, para não dizer que não falou de flores, ela entra e sai toda prosa de narrativas mirabolantes que seduzem, cativam, tornam o livro um mosaico de tudo o que ela purga, fermenta, depura; olhar de artista descrevendo a vida, com paradoxos, entraves, janelas abertas de sua alma em jorro letral. Já pensou? Artesã de Ilusórios, é, talvez, mas só talvez, uma heroína insatisfeita buscando-se a si mesma, auditando valores existenciais, momentos, transgressões, tentando a autenticidade num mundo perdido, degradado...

 

-A mulher e flor-fêmea no exercício exuberante de toda a sua existencialização enquanto alma pensante, transbordando, dando corajoso testemunho, quando retrata, recolhe, registra e diz a que veio. Talvez para pensar a vida em que habita, levita, constrói e resgata peculiaridades em verso e prosa. É a mulher que não se basta, não se contém, não se enquadra. Somos continuações. Letícia Palmeira é a liga. Escrevendo ela se dá inteira, questionadora, a consciência-passageira no viço da vida, buscando a felicidade de participar, enxergar, se inserir inteira na paleta sensível de seu estar em si. A artesã que escreve é isso.

 

-Artesã de ilusórios tem guardados incontidos, com suas vertentes, feito um rosário de parágrafos, de palavras bem torneadas. O texto sagrando a lida da vida. Romântica e crítica. Com seus conceitos e incompreensões que mapeia, entre afetos e circunstancias de viver e ser. “O mundo de janelas abertas. São palavras em terno e gravata, grávidas, idosos, infantis, famintas e libertas. Palavras são a certeza e a visão concreta das dúvidas”. (Pg. 21, Afeto Literário). Essa é a prosa viçosa dela, formada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba.

 

Fala de bichos, gatos, elefantes, dragões, e também do bicho-homem, o bicho-ser, no olival bem ilógico da vida. Quer o arsenal dos verbos. A vida é crucial? Qual é a imagem de nós mesmos no contexto de uma sociedade adultizada e machista? Não, não podemos fugir do lugar e estar que somos. Ou podemos, no escreviver, os destemperos alucinados?  No tear de Letícia Palmeira, de anjos a borboletas, cercando o circo da vida.  Compondo ou recompondo. tudo. Flores e árias. Clarões. E ela mesmo também ri-se de si, do que agrega, do que envolve com sua criação “Tabuada decorada para dias de prova – Pg. 47, Flor de Decassílabo.)

 

-Coletivo de pluralidades. Janelas. A madura escritora Letícia Palmeira pinta o quadro do que registra. “Vestígios de mim em outra face, num disfarce de casa antiga querendo mudar de lugar. Pg. 63, Janelas da Voz. A Mãe de Pedro arde em si, evoca almas, momentos, cicatrizes, faz um espólio de tudo. Como Clarice Lispector, poda-se para permanecer inteira e sempre na florada. O submarino amarelo é mais embaixo. A vida tem seus subterrâneos, de anjos a demônios. O amor também pode ser uma droga? Ela é cheia de questões, feminina e lúcida. Poeta a parir prosa feito artesã de si mesma. Se não nascemos inteiros, vamos nos fazendo. Assim é a escritora Letícia Palmeira. 

 

-Traz as compotas da vida em palavras. Os potes de açúcares literais. Diz do homem desconexo, de filosofias e ervas. A vida o que é? Fala de flores e de sabão em pó, fala de sol e de lua, de madalenas e banheiros. Será o impossível? Que perigo é uma mulher pensadora, sentidora, criadora, na plena posse questionadora de si e do que a cerca? A literatura de pequenos espetáculos resgatados. Ah os origamis dos dias...

 

-Quando escreve é só uma espécie de strip-tease, em que desnuda a vida em toda a sua magnitude? Que labirinto é o pensar/sentir/amar, um quebra-cabeças em que se situa sensual, come e bebe de literatura cozida em vapor de existencialização, feito um fio de Ariadne para ramificar a sua própria contemplação?

 

No livro, Zélia Farias (Especialista em Língua e Literatura Anglo-Americana pela Universidade Federal da Paraíba) muito bem diz: “Letícia foi Alice um tempo(...). Já era o tempo em que se cercava a Mário Quintana, Clarice Lispector, Virginia Woolf, Ana Cristina César, Lygia Fagundes Telles (...)”. Existir é a arte da paciência sem tédio ou remorso, ou muito pelo contrário? Letícia Palmeira é a busca viva desse entendimento. Mia Couto (in, Último Desabafo de Arcanjo Mistura), diz que esse mundo não é falso. Esse mundo é um erro. Será o impossível? Ah o solilóquio da reflexões depuradas!

 

-Na sua exuberante literatura, Letícia Palmeira escreve recortes de vida, páginas de angústia e desprendimento, paradoxos e cisternas, olhares plangentes, fragmentos e matizes corajosos, prosa e poesia, um verdadeiro liquidificador de idéias e cobranças a partir disso, feito uma artesã que junta carne e luz, céu e terra, caracóis e pedras, defeitos de fabricação e peças de reposição, coletivos e plurais.

 

O mundo está dividido entre magoados e inquietos, disse Gabriel Garcia Marques. Nem sempre a lágrima é a medida de todas as coisas. Ler Letícia Palmeira é um deleite. A flor corajosa da arte e da vida, numa linguagem que situa a lucidez e a criatividade. A mulher exercitando a sua plenitude. Daí, a literatura pura.

 

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Silas Correa Leite – Autor de Campo de Trigo com Corvos, Contos, Editora Design

 

E-mail: poesilas@terra.com.br

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Pequena Resenha Crítica

 

Romance “UM”, de Geraldo Lima – O Discurso Amoroso da Dialética Consciencial

 

 

 

“Estou farto de muita coisa (...).

Eu quero a destruição de tudo o que é frágil”

 

Roberto Piva

 

 

O que pode o ser humano, senão, entre seres humanos, AMAR?. Parafraseando o poeta, é isso o que se dá, naquilo que Cazuza chama de sua metralhadora cheia de lágrimas, em Um, o romance de Geraldo Lima, LGE Editora, uma dialética do discurso amoroso em que permeia a consciência, o paradoxo, o ser humano (no caso, sensível), entre seres humanos, AMANDO. E com tudo isso, claro, a narrativa que vai e volta, choca e instiga, se esconde, aparenta, cita, permeia, desce e sobe, sempre sob o pântano da condição humana nas relações humanas. Será o impossível? Geraldo Lima debuta e enlaça narrativas como quadros cênicos dessa relação amarga-doce, bonita-feia, alegre-triste, sensual-bizarra, mas, antes de tudo, como as cartas de amores são ridículos – olha o Fernando Pessoa! – romances de amor nesses tempos pós-modernos também. Pior, se entre o sagrado e o profano, a carne e o sangue, o santo e o convexo, vivenciam diálogos impertinentes, bem costurados com arrojo de criar sem cair na pieguice romântica do quase ou tanto... pode se dizer que o amor acaba mas a saga continua. Ex-amores são para sempre?

 

Pois é: o amor tem sim, loucura que a própria lucidez desconhece.

 

Como se descascasse uma cebola de relação que ameaça, explicita, sai de cena, pensa-se, o autor vai retaliando a relação, fatiando sofrências, acontecências, dando tempo ao verbo e o verbo se faz carne, como se faz tensão, solilóquio, espírito e carranca. Olha a consciência como leitmotiv. Ana é o fio de Ariadne ou Ariadne é uma consciência sagrada pesando, fio condutor, para um interlocutor (interlocutora – a consciência?) onde sempre depositamos o pão e o vinho, do que se vem da carne nas relações proibidas/permitidas, só sonhadas, quem o sabe? Crime e castigo? Ah o crime de amor que faculta o existir... A consciência é a serpente que envenena intenções (ou possíveis intenções em treva branca), ou clarificando pensares, ilações/alusões, faz um inventário de partilhas íntimas, abre véus, aponta o que existe e até o que não existe?

 

Geraldo Lima demonstra isso aqui e ali, teatrizando ora o possível, o entendido como havido, o medo de algo-alguma coisa, resvalando ora na poesia, ora na prosa, ora meio que lispectoriano sem perder a mão (e a ternura) jamais. Gostoso lê-lo.

 

A Ana que foi (foi?) e já não é. A Ariadne que poderia ter sido e não foi. O entremeio, o intertexto, as citações, o seminário (que aqui vem de sêmen?...); o possível pecado de, o padre e os estudos, o corpo, a devassidão; nunca completam de uma perdição cobra-cega no paraíso do contar. Que consciência é o divã? Divã de idéias; divagar delas, ah o romance como fio de meada, fio de Ariadne, olhar enviesado, tirar de véus, entrecortar, contando, entrecontar, cortando, pinceladas mágicas de ternura, sensibilidade, como se tudo entre quatro paredes, o voyouver, e vai por aí o bolero-(tango-)mixórdia da contação. O castiço a rapariga, o mortiço dos ambientes propositalmente turvos, e o sexismo, o amor e o pudor. UM, o Romance de Geraldo Lima poderia também se chamar Inferno, fosse invocada a consciência como narradora. Tudo bem, é o espírito que ama o espírito, antes do corpo amar o corpo... isso, nas fáceis vidas difíceis, mas, entre uma sedução e um seminarista, tudo ralhado, há bulhas e cismas. Periga ver. Sentir, chocar com o olhar do que conta o vai-da-valsa, com um medo-coisa, uma solidão-embuste, uma aparência que, sim, engana. De propósito?

 

Depois que conhecemos o amor, em que lugar (de nós) deixamos as asas? Extremos e lumes. Sangria desatada a... de novo, consciência... repigando sentimentos e ressentimentos. Tudo a ler.

 

Que cenário é a mente, a casa, a história, lugares nenhuns, todos os lugares? Paulo tece os momentos que passou com Ana, a quase fêmea-fatale (não são todas?), a mulher-aranha com quem morou por algum tempo. Fala da amiga Ariadne, tece acontecimentos e pessoas como referências de vida de passagem. E há o padre Artur, que lhe foi uma espécie de mentor. Com o autor caímos na redoma de vidas, além, claro, de uma sua experiência transformadora que nos leva a reflexões ora incabidas, ora insabidas, ora sagraciais. Sim, meus irmãos, cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é, e o que não é. Cada um sabe de que luz faz cruz, de que devaneio faz sentimento, de que santeria interior faz nau insensata, de que atitudes impróprias congela momentos, visões, prismas. Escrever é colocar dúvida em nós mesmos, a partir de olhares novos sobre frinchas revisitadas.

 

UM é isso: um romance sempre no começo de uma relação que é posterior e anterior ao seu tempo estagnado, mas que viça pela palavra, se alonga, debulha, questiona, avalia e até trinca intenções. Há entrelinhas no ler...

 

Que milagre é amar e escapar ileso? Escrever é lembrar, lembrar é escrever/ascender (e acender velas na solidão de uma alma em conflito). Depois que um corpo conhece outro corpo, fugir é mergulhar nele, mesmo que seja num palavrear confeitos, contrastes e ramificações do verbo sentir. E pensar é sentir com a alma. A carne é fraca, meus irmãos, o Romance UM foge do cepo da consciência, para cair no labirinto das confrontações. Um romance e tanto. E atual, moderno, nesses tempos em que uma igreja decrépita mostra as vísceras, em que a nódoa da historia nela depositada é remorso, e em que os que passam pelo genuflexório têm que rezar defeitos, lamúrias e resignações de fugas ainda não depuradas. Há um Deus? Periga ver.

 

A correnteza da narrativa é o contra-fluxo do medo de amar até a página tal, o lado b do que se passou. Há coisas no ar. UM é apenas o começo do zero ao infinito. Tudo pode ser, como também não. Tudo pode ter acontecido, como pode ser um delírio bem orquestrado entre o que houve e o que se coube na relação até o limite do provável.

 

A mão que oferece a maçã, oferece o delírio do corpo, da carne, do afeto trocado. Amou tem que rezar? A cartilha do amor é o corpo do êxtase levado ao destempero. Amar e sofrer.  A corrupção do corpo. A delação da mente. Turvamos o historial para sentirmos a transparência de nós mesmos? Mia Couto dizia que a melhor maneira de mentir é ficar calado. E narrar o questionável? Si, sem o prazer não podemos parecer humanos. E o humano em nós desmonta o falso-sagrado em nós. Escrevemos para medir o destino, ou o amor é um erro? 

 

Geraldo Lima é professor de literatura, e conhece do oficio de romancear. Tem outras obras, alguns prêmios, retrata as relações humanas levadas ao extremo, entre o zelo, entre a mancha; do achado entre o perdido, das neuras e dos perigos letrais das relações amorosas, feito um discurso da posse de, da libertação de, dos atropelos de.

 

Amar se aprende amando, diria o poeta. Há muita poesia no Romance UM de Geraldo Lima. Ler a obra é desnudá-lo. Ficamos cegos de tanto sentir, ou ler é tirar as tintas e panos do que ele conta, para sentirmos na pele que o livro vai além da experiência mística que inventa de contar?

 

Que hamster é o ser humano para o suplicio do conviver entre desiguais? Primatas querendo ser divinizados experimentam os horrores das contundências.

 

O Tibete talvez seja descobrir o humano em nós, depois que passamos tanto tempo no piloto automático da vida infame. E aí entra o amor na sua mais pura devoção, mesmo que paralelo ao medo do fotógrafo que retrata em nós a entrega despudorada, o inominável da submissão à carne, a tarja preta e o código de barras feito sermos todos nós ainda e assim, por isso mesmo o Número UM, introspectivo ou não, daquilo que sabemos de nós, entre o defensor e o algoz, a consciência e a circunstancia de.

 

O escritor é o que, com uma lanterna, procura o número que somos, que parecemos, que multiplicamos em silêncios, palavras, moinhos de ventos, filtrações e sagradas escrituras. Sagradas?

 

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Silas Correa Leite – Poeta, Ficcionista, Resenhista

Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design

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Escritor Geraldo Lima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pequena Resenha Crítica

 

 

 

 

Livro ‘DEUS DE CAIM” - Estágios Escuros de Vivências Romanceadas com Estilo e Furor

Ricardo Guilherme Dicke, Prêmio Walmap, Magnífica Literatura Arrojada em seu Esplendor Literário

 

 

As batalhas nunca se ganham. Nem

sequer são travadas. O campo de

batalha só revela ao homem a sua

própria loucura e desespero, e a vitória

não é mais do que uma ilusão de

filósofos e loucos.

 

Wiliam Faulkner, O Som e a Fúria

 

 

 

O cavernoso romance (novel?...) “DEUS DE CAIM” do surpreendentemente estupendo escritor Ricardo Guilherme Dicke, agora muito apropriadamente relançado em alto nível pela LetraSelvagem, na coleção Gente Pobre, sob a organização do escritor-editor Nicodemos Sena, bem faukneriano e contemporâneo ainda, destila verbos, venenos, e inventaria brumas da relação ser/sociedade, vida/morte, amor/dor, fantasia/frustração, carne/espírito, dilemas/sentido e percepção, moendas (interiores)/engenhos (de almas atribuladas), tormentas pertinentes/insanidades comportamentais arrazoadas, Deus e o diabo no húmus entre Pasmoso e a profunda cauda narrativa que flui com densa liquidez expressionista/existencialista, e os cárceres das tentativas. A prosa do espaço, a dialética do exterior e do interior “as geografias solenes dos limites humanos”(Paul Éluard) e a porção carbono-C rusoé de cada ser. E Nelly Novaes Coelho (crítica literária, USP) já no início do livro ricamente editado já muito bem levanta panos e tintas:

“O homem interrogante; aquele que sonda o vazio existencial (...); em Dicke predomina  a sondagem dos escuros do homem (...); Deus de Caim escava fundo um dos interditos que alicerça a civilização cristã ocidental (...); tempo de caos; romance labiríntico (...)”.

Toda arte de alto nível é cheia de pontos de interrogações como se propositalmente desinterligados. A arte de escrever nos leva a afirmação da vida em nós. Lágrimas não ficam para sementes, senão na arte? É melhor ser triste do que arrogante. Quatrocentas páginas de puro deleite que, explorando o fluxo narrativo (em júbilo?) do autor, vai de casa a casa, de ambientes a embustes, de fachadas a desfrutes, do historial ao fabuloso, entre o espanhol ao francês, nacos de poesia propositalmente semeadas, levantando lebres, apontando sítios letrais e escavando horrores quase que impossíveis de serem silenciados. Escrever é teatro de ocupação?

Artista plástico e filósofo, de pai alemão, Ricardo Guilherme Dicke pintou sua literatura de tintas brilhantes, novíssimas para a época em que foi inventada, um épico com cargas humanas, demasiado humana, como diz, fragmento de ensaio a respeito do livro (Ronaldo Cagiano):

“Nos 21 capítulos da obra a história da família Amarante vai se desdobrando numa colcha de retalhos de situações conflituosas e metaforizam a própria historia do Brasil (...)” (In, Carlos Herculano Lopes, Caderno Pensar, Estado de Minas, 06/02/10).

Aliás, Hilda Hist o considerava “um gigante”. Caim, Abel, Lázaro; personagens desbiblificados entre sombreados com querelas, acontecências, traições, taras; a vida nua e crua revelando sinais de pânicos e disfarçando conflitos, neuras. A par disso, bem pintados, filosofados, livros bons acabam joias preciosas. O medo nos delimita? Existe mais insanidade do que sensatez na vida, nas cargas dos ombros dos homens, no mundo. Somos todos espécies transfiguradas de paisagens com passagens de agonias, sonhadores ao extremo, não moscas-de-frutas. O Deus de Caim soma tantos pontos de interrogações até sobre palavras não ditas; dadas a entender.

“Romance capaz de abalar a nossa ficção” - (Guimarães Rosa). O âmago das crueldades destrinchadas em núcleos cênicos e traços existenciais carregados de ferramentas de crueldade e características psicológicas. Os arquétipos da fantasia e de uma loucura surda, enviesada, tudo em DEUS DE CAIM, a partir do mote de um irmão atentando contra o outro. A realidade é mais embaixo.

A consciência, a inconsciência, o que afinal resta dos refinamentos de uma ótima ótica para ver/sentir/; escrever com domínio da pena. Dicke naturalmente arrasa quarteirões, expõe as vísceras de momentos retratados, mas, ainda assim, com a ótica apurada de um pintor, desqualifica e expressa  o horror (de viver?); teatro de ocupação reinando o tempo todo, num vareio de linguagem. Você só acredita porque está lendo. Como é que pode? No mundo da fantasia os monstros engordam parágrafos; na verdade, sangue/suor da dura e inominável vida real. Real?

Contundente, impoluto, altamente criativo, perspicaz, denso, e ao mesmo tempo de uma fineza extraordinária. É difícil ler Dicke e ficar indiferente. Não há neutralidade na sua leção. A atônita realidade captada em parágrafos que vão embora... Realidades sentenciadas com estilo e alto pendor estético, num talento literário surpreendente, agora reconhecido. Quem sairá do labirinto do livro sem se impressionar com as virtudes?

A história fala de nós, segundo Horácio, em sua sabedoria latina. Às vezes temos demônios e anjos à flor da pele. Nas dissonâncias há mais pureza do que no estojo linear das ideias. A arte de buscar o incompreensível nos leva à afirmação da vida. É o paradoxo de sobreviver além da sentição, e campear o lado pensador do humanus. A meditação não é escrachante quando aponta o humano vagando em suas erranças existenciais e sublógicas. Pode isso?

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“(...) Lembremos que toda pessoa tem o direito à vida, não é? Mas de onde lhe advém esse direito? Da Bíblia. E tirá-la, é claro, equivale a tirar um direito fundamental que constitui, desde o tempo de Moisés, violação à lei (...). O problema é este – chegar-se a um plano utópico em que não haja necessidade de leis e necessariamente todos os preconceitos se tornarão cinza inútil, relegada aos museus da morte e das coisas extintas. Imagine o que é não existir nem poeira desses preconceitos de agora que tanto nos martirizam, imagine uma cidade futura e ideal, em que todas as aspirações e inibições que jazem em nós sufocados, reprimidos e inexprimidos, aliadas à técnica elevada à perfeição, o que não seria! Por enquanto só algo mui longínquo disto se delineia em algumas obras de artes. Aliás, toda obra de arte é utópica” (Pg 135). 

Você lê se palpitando no entressombreado do livro Deus de Caim e as cinzas aqui e ali soturnas das horas, relações e desmontes de significâncias, e reserva para a sua surpresa seduzida, um lugar para uma nova releitura ainda mais significante a seguir, e quiçá compreenda melhor, inteiro, se isso for possível, como a obra que vale o peso, a fama, a própria paixão de ler e de escrever. Obra única, feito um Cem Anos de Solidão, O Perfume, Baudolino, Invenção de Onira, A Espera do Nunca Mais, Vidas Secas, Grandes Sertões: Veredas. A narração é a redenção?

“Lidando com uma simbologia a que ele dá um sopro vital, fora do comum, Dicke não deixa coisa alguma de fora (...). O homem de fora está cercado de outra mundologia, as realidades violentas e subversivas da narração de Dicke envolvem com rapidez. Sexo e morte são evidentes (...). (Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras).  O ser humano precisa sentir sua exata sensação de estar e ser no mundo. Dicke tira pertencimentos das trompas da cólera, do desamor, da vida fugaz em sua saciadade de aproximação com estados calamitosos. Nada é impossível para ele. Desde Caim e Abel, a história nos fez acorrentados a culpas e sentimentos de medo e opressão.

A  irrazão humana. A emoção humana tão desnaturada. Surpreende-nos Dicke em cada parágrafo, mesmo quando a narração ou enfoque vara páginas de limbos.  A invisível esquizofrenia costumizada da apática sociedade decadente e falsificada para consumo. O biscoito da vida não é da sorte, não é de vida plena. Lágrimas não são guloseimas. Sentir dói. Em que lugar ficamos livres de tantos nós, senão nas asas da literatura? Bruce Hood dizia: “Nascemos com o cérebro desenhado para encontrar sentido no mundo. Esse desenho às vezes nos leva a acreditar em coisas que vão além de qualquer explicação natural.”

Uma obra clássica como Deus de Caim não se explica, mas se justifica pela excelência do autor. Em esmerada edição agora pela LetraSelvagem, Ricardo Guilherme Dicke é resgatado no auge do que a sua historicidade criativa congrega e vem-nos assim reeditado em sua maior obra-prima. Os porões da alma clarificados. Os subterrâneos da vida distinguidos com sua pena distinta, singular. Os sótãos de cabeças e sentenças nominados. É incrível a “lógica” funcional do escritor extremamente crítico, irônico, criativo e, claro, agora mais do que nunca, cult.

Literatura pura, de primeiríssima qualidade. Não há babel, bezerro de ouro ou cepo de Abrahão que esconda o sortilégio e o trágico fruto de Caim que vem enlutando a história da humanidade desde os primórdios. Escrever é pagar um preço? Escrever não é apenas cutucar onça com vara curta, é soltar todos os bichos. E Dicke faz isso muitíssimo bem, assustadoramente muito bem, liberta os seus (os nossos?), abre as comportas de seus próprios diques criativos interiores. Ah os escuros recônditos das almas embrutecidas com a fúria de ter que comparar, sobreviver, parecer que é o que não é.

E o Deus de Caim - que paira sobre todos nós – acode para uma leitura a altura, exige atenção pontuada, ao mesmo tempo olhar de remanso, para deguste e assim se poder sacar o esconderijo das ideias que ventila, ramifica, aponta e crava com o crivo de uma criação única. E quem sai ganhando é o leitor que se envolve dele, surpreso com a qualidade que custa assentar. Não é fácil. A vergonha, o incesto, a mentira, a dissimulação, o que pode parecer bizarro ou sexista. Quer mais humano do que tudo isso?

O estado decrépito do ser enclausurado em suas mesmices, masmorras e memórias cênicas, filosofando sobre conjecturas ou o que poderia ser e não foi, muito além das fronteiras das almas e seus estágios vivenciais estarrecedores. Ou seja, a humanagente no seu viveiro de contrastes. Vejamos a pintura literária:

“(Considerações, entretexto) O vermelho é a paixão e a força telúrica do Sol Matrogrossense, o azul são as paixões da noite e o negro a melancolia do sangue remotamente flamengo. O amarelo é a ânsia, o ouro, o desejo e as outras coisas nunca alcançadas. As formas que lembram labirintos e meandros ora são vegetações, ora caminhos, ora nervos em expansão, ora o ideal de um laboratório em que busco as equações de um mistério, de um nepentes ou de um descobrimento perfeito. Quero que quem os veja sinta uma contração pulsar e repulsar. E ao mesmo tempo, indague o que é o mundo – com múltiplos e infinitos signos estranhos – o que é o mundo, estas linhas, estas cores, esta massa, este movimento, este ser. Rilke disse que uma obra de arte é de uma solidão infinita. Quero pois que quanto mais solitário melhor. Cada qual encontre um pouco de seu eco que se perd e. É a natureza que recrio – e se fosse Deus – assim a recriaria – e é a relembrança dos países que não fui, no tempo das harmonias. É minha alma e a sua capacidade de entender alguma coisa que em mim não se perde para sempre, como as outras coisas que se perdem para jamais. É a poesia que não fui. As cores que eu amo e minha intenção de buscar entender o efêmero (...)”. Pg 251.

A extravagante literatura caudalosa (e por isso mesmo ocasionada de parágrafos em narrativas angustiantes) de Dicke; uma pintura extravagante de situações sociais em ermos e fugas, estados espúrios, de decomposições da efêmera vida social e sócio-familiar, quase árido, ou, como diz João Ximenes Braga (In, Dicke: o vôo da eternidade): “Dicke realiza uma estranha alquimia de política com metafísica na temática, e de realismo social como barroco no estilo (...) E ainda há intervenções de personagens místicos que o aproximam do realismo mágico (...)”. Pois Deus de Caim é uma soma disso tudo, e surpreende nos entremeios, na narrativa, nos belíssimos enfoques que o autor destaca e desenvolve com a paleta da escrita que mistura tintas de situações e aparências entre cores de convergências sociais apontando embustes; tirando etiquetas do armário, uma espécie as sim de romance-ensaio se reportando a conflitos, traumas e sequelas  da natureza humana em decadência.

Um dos maiores romances escritos no Brasil, e mesmo tendo sido inicialmente  lançado e premiado há cerca de quarenta anos atrás (Prêmio Walmap 1967), permanece muito atual, como toda obra de arte que se supera superando o tempo real, indo além de sua época como consagração de vanguarda e reconhecimento de talento e estilo próprio. Ricardo Guilherme Dicke, assim, escreveu um épico num estilo raro, único, onde concilia fluência e domínio absoluto da linguagem e da criação em seu esplendor, a verdadeira arte romancesca. Bravo!

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Silas Correa Leite

E-mail: poesilas@terra.com.br

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Pequena Resenha Critica

 

As Contações de Araken Vaz Galvão em seu Belíssimo Livro “Pargo e Outras Histórias”

 

“Meu destino me chama”

 

Hamlet - Shakespeare

 

 

-Quem toca um ser humano, toca um livro, disse Walt Whitman,  poeta-norte-americano, ele mesmo uma tremenda vida-livro. Foi essa frase que me veio à mente, quando coloquei a mão no livro “Pargo e Outras Histórias”, do ex-líder revolucionário (Anos 60/70), escritor e jornalista Araken Passos Vaz Galvão Sampaio, um brasileirinho bem brasileiríssimo nascido na Bahia e crescido na força e luta, no amor e na dor, nesses sertões de tantos brasis gerais de nosotros  - de muito ouro e pouco pão - e mesmo nessa nossa explorada América latina de lágrimas de sangue. Com formação em História e Cinema (Uruguay – na condição de exilado), agora um paladino da cultura que tem um acervo de mais de 2000 livros e batalha como promotor cultural em Valença e redondezas.

 

Todas as histórias (ficções, memórias, contações, narrativas de luzes e peregrinações) dedicadas a alguém em especial; contas,  elos de um mesmo diadema-dilema; sobreviver... As acontecências da vida-livro de Araken geraram um mosaico de escritos de suas andanças, e da obra já diz a prefaciadora Gerana Damulakis: “São histórias essenciais(...) e imprescindiveis, não apenas por capazes de nos cativar, mas porque, além disso, são factíveis de não necessariamente estarem atadas ao tempo e ao lugar onde se passam: elas simplesmente nos alcançam(...).” Escrever é explorar vazios? Pedro Bandeira diz que nos livros estamos todos nós, está a humanidade, estão os registros de tudo aquilo que somos, que amamos, que esperamos, que queremos transmitir para o futuro.

 

O autor de per-si retrata (in, pg 15 – Confissões, Nada Mais), dizendo na espécie de apresentação da obra: “Não se tratava de fazer apenas aquilo que mais amo: escrever. Tratava-se tão somente de uma maneira de preencher vazios, quase sempre criados pela solidão, fosse ela a solidão sobressaltada da vida na clandestinidade, a nascida por imposição do isolamento nas prisões da ditadura militar, ou ainda a oriunda ao acosso desta mesma ditadura, ou mesmo a do exílio, quando se sente uma solidão sem raízes e povoada de saudades reprimidas(...)” Só os corajosos são sábios, diria Ardis Whitman.

 

No conto “Amnésia” (pg 19), o autor narra um quase causo, que na interleitura propositalmente pode parecer contradição, pois avança, recua, quase inventaria também, na própria metalingüística que no rol da história parece uma daquelas que o povo conta e é; do oral para o letral. Os contos são datados, como dedicados. “Circulo Vicioso” (D.I.U.) é belíssimo, criativo, cênico. Que filme de vanguarda daria. Já “PARGO” – que nomina o mosaico de ficções – é tristemente denso, ao mesmo tempo que terno, poético, muito lindo. E nele o escritor alumbrado cita Helio Pólvora “Não sou historiador, sou ficcionista – e o que me atrai em literatura é a fantasia, a criação. A exatidão me repugna”.  E vai por aí o bolero enlivrado. Em “Laicra, Nunca Mais”, o irônico se acentua, sem o autor perder a mão, antes, feito ourives, dá  a cada tópico frasal seu quinhão de vida dura, luta brava, seu olhar sensível, talento criacional também, sem perder a ternura jamais, antes, até gracioso também.  No conto “Os Mortos” – talvez o melhor conto do livro – vê-se (lê-se) a dor, o horror, o estertor da vida, a ditadura dos mortos, os coturnos dos mortos-vivos, torturas entre ratazanas. Tristices. E o extraordinário, fantástico. Os zumbis muito depois de Palmares, em tempo de trevas da chamada Canalha de 64 (Millôr Fernandes)?. O que resta é um grito pardo no ar. A datação referenda. Escrito em Montevidéu, 1970. Um auto de exílio?

 

Em “Amador”, Zac é o personagem belamente historiado. Lindo e gracioso trabalho, das peripécias de um bon-vivant no moreno pais tropical em sua latinidade sensual. Daria um minissérie bem sex-brasilis. Já em “A Volta do Paraíso”, retrata-se a descoberta do amor, a iniciação, nos porões da memória, o sexo, o prazer, a vida, as contundências de. No causo “O Jegue”, a cultura, o folclore, o prisma popular... e as lágrimas. “Pássaro Pintado”, então, é maravilhosamente triste, as tintas (inclusive narrativas) do autor contam/pintam um quadro belíssimo. Ah a desnatureza humana... “Bode Velho”, outro conto, é o menino lembrando, os frutos de ser criança... até desaguar nas palavras que parecem tocar crepúsculos íntimos de cada um, o tempo-rei e seus curtumes; vejamos a qualidade do contar: 

 

“Mas o menino queria falar das laranjas, de Cabrito (o burro baio), da casa onde nasceu, da fazenda Veneza, que era do seu avô, onde ele estava chegando montado em um burro, trazendo um saco de laranjas. O menino queria dizer que ele não era seu próprio avô, não era avô nenhum, que ninguém podia envelhecer assim, tão de repente. Quis gritar. Eu não sou meu avô. Mas só consegui balbuciar “Cabrito, Cabrito”(...)”

 

Na história “Precisa-se”, o mata-borrão do tempo... os rastilhos das memórias... a mão criadora no auge. Ah as relações humanas ao grau máximo.Verônicas e Walkírias entrelaçam as vidas dos sonhadores... Viver não é grátis, custa caro. A seguir, no mesmo diapasão, o escritor Araken entabula “A Alma Feminina”, feito a vida imitar a arte, a arte musical retratando despertencimentos das trilhas e macadames vida, o José (do poema de Drumonnd?) se indagando “Para onde...”? (E Agora, José?). Confesso que bebi... confesso que vivi (Neruda), ou confesso que sofri? Tudo a ler. E dizem que a alma humana na verdade é feminina... Vá saber...  “Tarde demais”, outro trabalho, uma espécie assim de crônica-conto que evoca Mário Quintana, mas é ao mesmo tempo a cara e a coragem  do autor, ele também partícipe do açougue das almas. Nunca é tarde demais para lembrar... escrever, dar testemunho, contar; o olhar restaurando cisternas e olhos d´água, fermentações e lamúrias revisitadas, para não dizer que não falou de flores....

 

“Doce Amargura” diz de contentices e prazeiranças, amargura-ilha, sentimentos de vida, do mundo, dos que resistiram. Sobreviver dói. E a sopa de letras como que se nos alimenta, feito uma angústia-vívere entre rupturas e paradoxos de nós mesmos. A dor da gente não sai no jornal, cantava Paulinho da Viola. Por fim, o último conto, “Ela é Carioca”, em que todo trabalho é feito de pérolas musicais, citações, a beleza da vida, dos corações, os escritos que, afinal, vão dar em nós mesmos, mais os compassos da vida, os companheiros de jornada, a harmonia da criação, a arte de escrever que Araken com qualidade transforma em canção e poesia. Quem toca esse livro toca toda uma vida aberta em páginas preenchidas de uma existência que se reafirma, numa busca, num sonho, no prazer de estar vivo apesar de tudo. Afinal, talvez, só exista uma caminhadura: uma trilha para dentro de nós mesmos. E depois disso, eis a obra, eis o autor, eis o livro, “PARGO e Outras Historias”, um belo testemunho de vida, entre vivências e descobrimentos, feito um espetáculo literário da própria existência, e ainda pela perseverança do escritor ARAKEN VAZ GALVAO.

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Silas Correa Leite

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Poema Homenagem

 

Casa da Mãe

 

Para Eugênia de Oliveira Correa Leite, In Memoriam, 13.03.10

 

 

Ir para casa e não ver a Mãe

É não estar em casa.

Ir para Itararé e não estar com a Mãe

É não estar em mim.

Ir para a Mãe e a Mãe não estar lá

Já é quase morrer.

 

Porque a casa e a Mãe se completam

Uma está em outra para assim muito bem estarmos em nós

E não encontrando a Mãe em casa

Podemos também não nos encontrarmos nunca mais.

 

Porque a casa-mãe-Itararé

É tudo uma soma de estarmos em nós mesmos

E da Mãe estar na casa e a casa ser a Mãe

Onde quer que a Mãe esteja.

 

Talvez, também, por isso é

A Casa, a Mãe, tudo - Itararé

Parte de nós. Como lágrimas no céu; como uma Igreja.

 

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Silas Correa Leite, Poetinha da Estância Boêmia de Itararé-SP

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Pequena Resenha Crítica

 

“Ideias Noturnas - Sobre a Grandeza dos Dias”, Livro de Contos de Eduardo Sabino

 

“O dia-a-dia não precisa ser extraordinário para

ser interessante. O cotidiano é riquíssimo de assuntos

e acontecências de toda espécie – fora e dentro da gente.

É só ficar com as antenas ligadas – as antenas da

curiosidade dos sentidos e dos sentimentos, de

senso critico, de senso poético, sem

esquecer do importantíssimo e

indispensável senso de humor”

 

Tatiana Belinsky

 

Você não consegue ler o livro de Contos “Idéias Noturnas” (Editora Novo Século, SP, 2009, 120 páginas, Série Novos Talentos da Literatura Brasileira) de uma só levada, a um só termo. Você é inesperadamente surpreendido na pegada de lê-lo e saber que tem que respirar a leitura, de alguma forma por si mesmo e de per-si, pontuando-a. Parar. Stop. Voltar a tomar pé e pulso no verbo ler. Reler. Porque cada vez que sondando antevê, “pensa” que é, que sonda o arremedo narrativo do devir, o tema e o andamento, mas tudo o que sentia parecer na verdade não é. Contos incomuns, algo (raros) estranhos, por assim dizer como elogio. Tiram você da lerdeza do ler puro e simples para uma sentição do que lê e admira. Grandeza dos Dias? Dos escritos também.

 

Os contos de Eduardo Sabino são claramente (literalmente)  diferenciados. Escreve com uma boniteza que reveste a surpresa da contação em agradável prazer de leitura. Já ganhador de Concurso, participante de antologias, colaborando com veículos de comunicação, inclusive sites, é também editor da revista eletrônica “Caosletras.blogspot.com”. Nasceu em 1986, e, sendo tão novo e tão bom, denso, contundente que seja, é encanto gratificante sabê-lo e conhecer desenhos da escrita dele nesse novo livro de contos.

 

Otimamente bem Prefaciado por Rinaldo de Fernandes, que dele aponta com conhecimento de causa: “O protagonista do conto (Purgatório, pg 25) está entre o sonho e a realidade de um cotidiano desbotado(...). A vida eterna não nos resolve a angústia de viver (Eternas Angústias de um Imortal, pg 29)(...). Os contos de Eduardo Sabino, irônicos e intensos, com personagens angustiados, alguns à borda do desespero, não raro flagrados em situação de pobreza(...)”.  Pois é, ironias, seres (quase-seres/sub-seres), animais, máscaras, monstros, vírus, loucuras... baratas. Doce Lar? Não há nexo na vida real.

 

Purgatório é sim, um conto sobre um “ser” urbanóide no entre-subsolo de um elevador; sobe, desce, lamurias, contemplações, martírios; reinando. O ser que incabe em si. Desconexões. Vazios. Impertinências (e um olhar ferino) do escritor retratando o ser de si no que vê, sente, repagina; em páginas de restos até porventura rotos que assim sejam. O olhar aproximando da trajetória alheia. “Todos abençoados porque estão vivos. Abençoados porque morrerão” (pg 31). Santo Deus!

 

Abismo (pg 33) uma das melhores criações do livro. Linda ficção. O abismo é viver; que é ser feliz, que é (talvez?) a própria estupidez de tentar ser Ser... A retina do escritor reformatando aspectos invisíveis, risíveis, verossímeis... criados, imaginários; resgatados também da rudeza dos dias...  Sim, diz Eduardo Sabino, é preciso estar muito próximo para conversar a língua do olhar. (Céu Aberto, pg 49). Um roteador de sombras, como um eu-endereço-de-mim, em mim e no outro. “La Sombra”, belo conto, pg. 53, especifica o norte (mote?), o estilo: “La Sombra, a essas alturas um vulto com olhos amarelos e fiapos de cabelo, sugeriu que poderia haver uma esperança se os outros enxergassem melhor o que achavam tratar de meros contornos desprovidos de luz(...).

 

Eduardo Sabino joga luzes letrais em contornos que redescobre, pincela, amalgamado capta nuances, enlivra desafetos afins, defeitos de fabricação do humanus. De heróis a anônimos, povoando a criação (O Herói e o Escuro, pg 57) a situações-conflitos, rostos e trevas, ideias verbais (aqui noturnizadas). Seres?. Retratando tristezas que nascem e morrem a cada dia. What a Wonderful World?

 

Banzo (pg 75) emociona, cala fundo. Dói no literal. O melhor dos trabalhos. E por aí vai, O Inquilino, O Jardim Encantado, e outros tantos do mesmo gabarito. Eduardo Sabino relata aspectos (de condições humanas) entre espectros sub-existenciais até. De se ler com prazer, mais, entrar na alma da contação, satisfazer-se, sendo a leitura de “Idéias Noturnas” um imenso (muito) prazer. É o autor com talento dando voz aos desvalidos, aos tantos instantes-trevas da vida, inclusive a fragmentos de vidas retorcidas. Senti-las é isso. Escrever sobre elas, dando peso e fermento; purgações, coisa de quem está fazendo muito bem o que se propõe. In/purezas no pântano da condição humana? O criador se encontra no(a) self?

 

Nesses tenebrosos dias em que ando muito triste sozinho, escrevendo na pele do espírito a dor de um momento difícil, nervos frágeis à flor da pele, a leitura circunstancial do livro colocou um (algum) certo sentir novo (e revisitado no íntimo) em mim, como se tudo fosse mesmo só isso, cara pálida, nascer, sobreviver, morrer, no durante contorcer-se com a nossa dor, a dor dos outros, e, ainda assim e por isso mesmo  captar a grandeza dos dias. Será o impossível? Tudo a Ser.

 

Entrar no mundo criacional de Eduardo Sabino é ter a sensação de que se lê uma história que nasceu por si mesma, em si mesma, como referendou Julio Cortazar. E assim Eduardo Sabino acertou em cheio, acertou a mão. É do ramo e muito bem conhece do oficio e da linguagem de. Contos para se ler com o olhar, afinando-se na riqueza de quem sabe dar vazão a querelas talvez corriqueiras que parecem sair da esquina do olhar; de  um beiço de vida, num clarear de tardes e pertencimentos de seres que também são a nossa cara, pois a existêncialização não é nem uma herança e nem uma evolução apenas, mas, um certo modo de nos envolvermos com o sentido social-comunitário de nos fazermos em cada natureza de criadores e criaturas, feito espécies assim de “antenas” (parabolizadas) de nosso tempo, registrando tudo, doa a quem doer, custe o que custar. E dói muito mais em nós, sentidores, entre prismas e colchas de retalhos com sabenças sensíveis de foro íntimo. Goethe diz que “qualquer coisa que formos capaz de fazermos ou que sonhamos que somos capazes, devemos começar a fazer, pois a coragem traz consigo gênio, poder e magia”.

 

“Idéias Noturnas” é a magnitude de tudo isso e um rebite a mais. Sintam-se humanóides. Bem-vindos ao mundo literário de Eduardo Sabino e suas fragrâncias de dias cheio de ideias literariamente clarificadas.

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Silas Correa Leite – Santa Itararé das Artes, SP, Brasil

E-mail: poesilas@terra.com.br

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Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design, SC

 

 

 

 

 

Havia Um Caminho de Voltar Para Casa

 

 

Ah querida, pode acreditar...

Havia um caminho de voltar para casa

O pai estava vivo com seu acordeon vermelho

A mãe fazendo sopa de fubá com couve rasgada

Éramos uma família pobre mas ninguém estava morto

Ruas, quintais; Itararé emperiquitada no favo da memória atiçada

 

Tanto tempo se passou e nos mudamos de nós, querida

A névoa ainda vem com suas sombras em preto e branco

Olho pra você e já nem me reconheço mais em mim

Se éramos esperanças ou se tudo se acabou como um pesadelo

E os que restaram têm lágrimas entre sonhos dourados

Porque é Natal e muita coisa não mais faz sentido para todos nós

 

Ah querida, pode acreditar

Havia um caminho de voltar para casa

Itararé era tão pertinho, quase um crepúsculo íntimo

Mas nos perdemos e agora choramos pitangas

Porque sabemos que tudo acabou como uma noite

Que se vestisse de bruma para nos fazer recordar as tristices

 

O que vamos fazer de nós agora que descobrimos

Que o Natal tem um presépio de pobre e não há esperança?

Tanto tempo se passou e o que restou de nós depois de tudo

Senão esse sentido de ausência e um presente que já não há

Quando eu me sinto o próprio burrinho do presépio

E a única estrela que vejo é a dos olhos saudosos chorando?

 

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Silas Correa Leite, Santa Itararé das Letras

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Crônica de Natal (1)

 

Bolsa de Mulher - Solo Musical em Prosa Lírica

 

Para Danuza Leão

 

 

Amanhã...antes de se preparar para ir ao analista, de pensar em parar numa butique e comprar uma bolsa nova de grife; antes de sair para o penoso trabalho fatigante, de ter que dirigir até a faculdade ver uma pendência velha; antes de se preparar vaidosamente para fazer uma importante entrevista difícil, páre um pouquinho. Sente-se calmamente na sua predileta poltrona confortável, no seu melhor espaço do lar, e, coloque para rodar o cedê que tem na seleção aquela maravilhosa música que você mais adora; que mexe com você, resgata você, traz o céu para dentro de você, coloca você de alguma forma mágica em algum lugar do passado, nalgum sítio vetor extraordinário como um milagre, fazendo a sua consciência neural viajar como se recebesse um favo de mel, como se entrasse em alfa, fazendo você se sentir iluminada e dentro do seu próprio coração. Já pensou? Sentiu o clima? Sintonize. Capte a idéia.

 

Beba a música, baby! Coma a música com afeição. Inspire-na como se ela tivesse vida própria no seu psicossomático. Esteja dentro dela. Deixe que a balada rica e bela e fluente entre por seus poros, todos os poros, aquilate seu espírito de guerreira, desmanche seus andaimes (de resistência à sensibilidade tão ferida) faça você sorrir como uma criança pura que alguma forma você ainda o é, ou faça você chorar como um bebê procurando colo de mãe e mingau de maizena, numa catarse de transformadora oxigenação, e então você, numa paz algo zen-tropical, possa se encontrar consigo mesma em alto astral, no mais profundo interior de si. Lave-se no embalo e eleve-se. Música Maestro!

 

Há um Deus!

 

Pode ser...que depois do caldo encantador de passar pela musicália dessa pelica divina; dessa seda espiritual, como uma espécie de purgação perenal, muito além dessa decantação tonificadora, talvez você não precise mais correr tanto, suar tanto, sofrer tanto, se exigir tanto, se cobrar tanto, se dar tanto, nem ter que provar nada pra ninguém; se aceitar assim mesmo pujante como você é, nem precisar mais ir ao bendito analista caro, nem levar flores ao cemitério da saudade, tampouco sofrer eventual azedume temporão ou mesmo hormônico por causa de crisálidas que não vingaram, nem perder precioso tempo com bijuterias mal resolvidas da depressão, nem perder horas e dias com neuras a partir de perdas fúteis, inquietudes vazias, sobressaltos bobos ou ilogicidades próprias de certas químicas sazonais femininas de meia estação. Bolsa de mulher?

 

Qualquer música...As Flores do Jardim da Nossa Casa. Memory. Danúbio Azul. Caros Amigos. Se as Flores Pudessem Falar. Esse Cara. Nabuco, de Verdi. Hey Jude, Elis Regina ou Elvis Presley. Alguma, qualquer música especial e edificante, há de mexer de forma extrema e saudavelmente doce com você, com seu inconsciente, com sua gaveta cheia de gravetos de falsas culpas, e fará você relaxar como uma nuvem de algodão xadrez, descobrir-se inteira e plena em sua própria posse, em seu próprio corpo, em seu próprio eixo, em sua própria luz. Ah se a mulher soubesse toda a força que tem, na alegria e na ternura, na batalha e no tricô, na graceza ou no pudim de leite moça.

 

Tudo é música. Não dizem que certas mulheres são tão sonoras quanto penteadeiras de ciganas?

 

Muito antes da espécie humana existir no tapete voador do espaço cosmonal, no canteiro divinal da terra, o solo das galáxias inundava o espaço sideral feito palco pluridimensional. A música atemporal dos ventos, das nuvens, das chuvas de meteoritos, das poeiras cósmicas. A música dos anjos cor-de-rosa anunciando a primeira reforma de Deus, após o molde número um em imperfeito Adão e a grande perfeição final em Eva.

 

A Música que você bem ouvir (e muito bem otimizar-se dela), aquela que você receptar inteiramente e mexer com você a partir dessa beberagem e degustação é a que você levará para onde for. Você não veio daqui e nem vai terminar aqui. Sacou ou precisa de um mapinha? Você será o instrumento depositário, portador e hospedeiro sagracial dela. Pegue o ritmo.  Faça parte da orquestra sinfônica da natureza. Todo segundo de sua vida nesse plano é ensaio. Você não é amadora. Sintonize a sua sinfonia. Saque o batom mas também pegue o tom. E os metais.

 

Que instrumento você quer ser e parecer? Que caixa de ressonância você é? Música é vento, som, ar, soma. Entre a aritmética e o átomo. Seja uma trombeta, uma harpa, um bandolim medieval. Seja um acordeão vermelho, uma flauta transversal, um  sinal sonoro de catedrais e círios celestes.

 

Sendo música você soará eternamente. A vida é um estúdio. Gravando. Olhe o que você tem na sua bolsa de mulher. Rocambole de lágrimas? Tortas de perfumes? Omeletes de esperanças com rímel?

 

Deus é Sol Maior. E escreve por cifras tortas, pautas etéreas, pausas milenares. Solos de silêncios. Preces e almas naus.

 

Você é Lá. Versos brancos?

 

Eu, por mim mesmo, sou duas notas musicais: Si...lás...

 

 

E há ainda o descontente que não cabe em SI. Desafinado.

 

Ou você nunca vai querer ser a baliza lá na frente do festival de corais, preferindo assim ser uma nota musical chamada Ré menor? Fá sustenido? Ou viver sem Dó?

 

Seja a música. Soe alto. Vibre fé. O dial da Rádio Eterna nem precisa de antena.Você capta no coração. Conecte-se. Tudo é música. Que partitura perdida sem própolis você é? Você é opus de Deus,

 

Leia meu poema ao músico:

 

“Todo músico é mágico/Todo pensador se sobressai acima do lótus da condição humana/E há ainda os versos/Que enriquecem rocamboles/De renúncias sublimadas/Viver não pode ser um desperdício/De espaço, massa, água, ar/Toda música quer cantar isso/Numa opus sublime, singular/Cabeça, tronco, membros/Melodia, harmonia e ritmo/Todo músico quer traduzir/A luz que o procura o espírito...”

 

 

Deus é Música!

 

-0-

 

Silas Corrêa Leite – Da Estância Boêmia de Itararé-SP, Brasil

E-mai: poesilas@terra.com.br

www.itarare.com.br/silas.htm

 

 

Poema do Voo 447

11:06 @ 25/11/2009

 

AIR-BUS (FRANCE) VOO 447

 

I

Entre a água dos oceanos

E o sol límpido do quase além céu

O silêncio no todo entre derredor

 

A primeira nota do silêncio:

Não ter lugar de seu em self

Para ser chorado – e velado

 

A tristeza

Um exército de almas na

Tessitura do céu-mar-

Lágrimas

 

O aeroporto que nunca chega

A morte que talvez não exista

 

O horror, o estertor

O esplendor do vazio

 

A paz-aquilo(silêncio)

D.us?

 

II

 

Não haverá funeral, missa

Corpodespresente

Nem floração de lágrimas

 

Apenas o univer-sal?:

Oceano-universo-historial

 

A alma-valise

O espírito pleno flui o

Mar-da-tranquilidade

 

Viço-vida: o vôo, o outro

 

A morte é só na terra

(o silencial – tudo entre

O céu) infinito

Os oceanos – lágrimas

(de anjos)

Todos os sobre-

Viventes

 

III

 

No espírito e na liberdade

 

Nem culpas

Velocidades

Sistemas panes:

 

A fuselagem vítrea do

Self

(Céu)

 

A velocidade

Da purificação

Todos os chamados

Escolhidos

 

Não haverá mais dor

Assim na terra como no céu

 

Silêncio-quásar

Muito além da caixa-preta

Muito além do desjardim

 

-0-

 

Silas Correa Leite

E-mail: poesilas@terra.com.br