Olá Bom dia,
Obrigada Débora pelo incentivo ao trabalho da Rádio Escolar Som da Amazônia.
Um abraço.
Kátia Passos
Direto da redação
Impressão digital
por Débora Didonê
Repórter
06/12/2007 - 18:19
Boicote na Amazônia
Você já foi à Amazônia? Eu fui. Finalmente, realizei o sonho de conhecer pelo menos um pouco desse tão característico pedaço do Brasil durante minhas férias, das quais retornei há cerca de um mês. Foram duas semanas de descobertas pela superfície do Rio Negro e suas praias de água doce, em Manaus, por entre os afluentes do Rio Amazonas, que me levou de barco até Belém do Pará e, finalmente, na maior cidade do Norte do país, cuja combinação de tanta urbanidade com as paisagens naturais salta aos olhos.
Quando me planejava para ir à capital paraense, combinei de fazer uma visita especial. Queria conhecer pessoalmente a professora Kátia Passos, protagonista de uma história que contei cinco meses atrás nessa coluna. Responsável por projetos de implantação de rádios (analógicas e digitais) em escolas do Ensino Fundamental, ela organizou com 50 alunos de cinco escolas a Rádio Som da Amazônia, que fez a cobertura da 15ª SBPC Jovem (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) em julho. Dito e feito. Estive em uma das escolas que abraçou a idéia, a EMEIF Parque Amazônia, situada na comunidade de Terra Firme, uma favela que fica ao lado da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Depois de muita conversa por e-mail e telefone, conheci pessoalmente a professora Kátia Passos e de quebra, parte dos alunos que participaram da rádio. A paraense fez questão de me encontrar na escola para que eu também falasse com a garotada. Os jovens radialistas – dos DJs aos locutores e repórteres – se reuniram na sala de informática para me receber e contar sobre suas experiências. Fiquei contente com a acolhida, mas não pude deixar de pensar no contexto em que eles estudam.
A Escola Parque Amazônia fica em uma região considerada perigosa por moradores da cidade. Dizem que por ali ocorrem muitos roubos. Para lidar com isso, a própria escola precisa instalar grades por todos os lados – o que lembra instituições da periferia paulistana. Até para colocar na parede as caixas de som que transmitiam os programas da rádio, foram necessárias grades de ferro. Agora, restam apenas as caixas metálicas vazadas. Das caixas de som, nem sinal. Primeiro, porque a rádio da escola está parada. Segundo, porque nem com as grades o pessoal arrisca deixar seus aparatos à mostra.
Infelizmente, com a saída da professora Kátia da escola, os meninos não deram continuidade ao projeto. E não parece ser por falta de vontade. Afinal, todos estavam ali, contentes por poder se apresentar e contar o que fizeram na cobertura jornalística. Porém, em nossa conversa (que contou também com a presença de Lúcia Fernandes, administradora da escola) foi recorrente a reclamação da falta de acesso à internet na Parque Amazônia. Mais uma vez, veio à tona a questão da depredação. O problema é muito mais embaixo: mesmo que a prefeitura forneça os fios e cabos que ligariam os alunos à rede virtual, nada disso dura muito tempo na parede. Pois é.
Confesso que fiquei sem ação durante as queixas. E que tal abrir a escola para a comunidade? Sugeri. Lúcia disse que já fazem isso. Que tal realizar um movimento de conscientização sobre a importância da escola na região? Os alunos disseram que fazem isso. Lembrei então da troca de e-mails que fiz com uma jornalista de São Paulo, autora de uma reportagem que defendia o aumento do policiamento em torno das escolas para evitar o vandalismo. Eu discordei, é claro. Não penso que intimidar com fardas e armas seja a solução para a valorização do ensino (nem para nada). Pelo contrário, cria um ambiente hostil em um lugar que deveria estar aberto para a troca de saberes com a comunidade. Mas essa é uma longa discussão (que pretendo retomar).
Aliás, a Parque Amazônia tem policiais por perto. E nada mudou por causa disso. Talvez o que ela precise mesmo é de mais apoio da secretaria de educação, dos professores, dos pais e da própria comunidade para dar vida a um movimento sólido de interação com a escola. Digo isso porque sei que existem casos, em São Paulo, de iniciativas que de fato aproximaram as escolas de moradores locais, fazendo com que recebessem a todos de braços abertos, oferecendo sua estrutura. Afinal, o que está ali é de todos e vai ajudá-los a crescer (se ali permanecer). Outras instituições, embora ainda sofram com vandalismos, persistem em seus projetos para que isso um dia acabe.
Na edição deste mês de NOVA ESCOLA, saiu a notícia de que as escolas que usam computadores sem conexão com a internet não ganham em desempenho e ainda chegam às piores médias das provas oficiais. Na Parque Amazônia, a falta de alguns cabos “mágicos” desestimula também os alunos que se apaixonaram por softwares de edição de áudio e produção de podcasts -- mas sem internet não têm como usá-los. Mas tudo depende de encararmos a escola como um lugar que não pode, de maneira alguma, ficar em apuros. Deixar que ferramentas tão preciosas da Parque Amazônia se percam é como permitir um boicote ao ensino de todas as crianças que ali estão. É como dizer um NÃO às suas perspectivas, aos seus sonhos. Pergunto: NÓS vamos permitir isso?