“Exigir diploma de jornalista é o mesmo que exigir diploma de um poeta ou de um escritor.”
23:13 @ 05/06/2008

“Exigir diploma de jornalista é o mesmo que exigir diploma de um poeta ou de um escritor.”
por Léo Arcoverde
Ilustração de Douglas Lambert Oliveira
Foto Amancio Chiodi
Exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão? Se isso fosse levado em conta nos idos da década de 1960, no momento em que um jornal contratava um repórter, a carreira de Hamilton Almeida Filho, por exemplo, acabaria prematuramente. Daí, explica Mylton Severiano, palestrante que abriu as atividades do 1º Anticurso de Jornalismo Caros Amigos, Hamiltinho, ou HAF, como era mais conhecido, não se tornaria “um dos repórteres mais completos, lúcidos e brilhantes que conheci na minha vida profissional”. Deixaria, ainda, de ganhar, aos 17 anos, seu primeiro Prêmio Esso de Jornalismo.
Hamilton Almeida Filho, conta Severiano, destacava-se também como pauteiro, figura que, ainda de acordo com o palestrante, deveria voltar a existir nas redações. Nos primeiros minutos de anticurso, Myltainho - não confundir com Hamiltinho – citou dois exemplos que narram bem a perspicácia do HAF tanto em escalar a equipe de repórteres para apurar algum assunto, quanto na hora de “vestir” (forma de escrever e editar) uma reportagem. O primeiro se deu na edição de lançamento do caçula do jornal O Estado de São Paulo, o Jornal da Tarde, quando Hamilton Almeida Filho desconfiou do noivado de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, a partir de uma mancha identificada por ele, pauteiro, em uma foto onde aparecia o ex-jogador.
“Ele pegou uma lente, começou a olhar, mas não dava para definir que mancha era aquela no anular direito do Pelé. Então resolveu mandar a tropa de choque de repórteres para apurar ”, lembra Myltainho. Não deu outra: tratava-se de uma aliança. Pelé estava noivo e a edição número um do Jornal da Tarde trazia a seguinte manchete: Pelé casa no carnaval. Isso ocorreu em janeiro de 1966. O segundo exemplo é de cerca de 12 anos depois. Hamiltinho fez uma pauta que marcaria a trajetória daqueles que com ele trabalharam. Desta vez o episódio se passou no jornal alternativo Movimento, e a idéia do pauteiro era uma reportagem sobre tortura. “Isso por volta de 77, 78, quando trabalhar como jornalista naquelas circunstâncias era correr risco de vida”, lembra Myltainho.
![]() Jornalista: dar voz a quem não tem voz |
Não, Hamiltinho não pediu para o repórter destrinchar a história de dezenas de desaparecidos, vítimas do regime totalitário tocado pelos militares desde abril de 1964. Fez melhor: com uma barra de cano mais dois cavaletes, montou, dentro da redação, o temido “pau-de-arara”, equipamento em que, por horas, a pessoa que era torturada ficava pendurada e de cabeça para baixo. O próprio pauteiro Hamilton Almeida Filho fez o teste para saber quanto tempo o sujeito conseguiria agüentar – sem ser agredido. |
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Àquela altura, um homem com pouco mais de 30 anos, sem apresentar maiores problemas de saúde, suportou não mais que um minuto amarrado ao “pau-de-arara”. “Isso mostra uma atitude também importante para o jornalista, que é dar voz a quem não tem voz, aos mais fracos, mesmo que haja indícios fortíssimos de que aquela pessoa era criminosa.” |
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Tratando da trajetória de Hamiltinho, o chamado “repórter de calças curtas”, de infância humilde, filho de um palhaço de circo mambembe com uma bailarina, Mylton Severiano, editor-executivo de Caros Amigos, opinou a respeito de dois assuntos: a exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão e o desaparecimento dos pauteiros. “Jornalismo é vocação. Exigir diploma de jornalista é equivalente, para mim, a exigir diploma de um poeta ou de um escritor. Sou a favor, por outro lado, da existência de escolas de jornalismo. É claro que elas acrescentam algo, embora eu não concorde que a pessoa só comece a trabalhar depois de concluído o quarto ano de faculdade”, observou.
Em seguida, a palestra de abertura do 1º
Anticurso de Jornalismo Caros Amigos exibiu um trabalho de conclusão do
curso de Comunicação Social produzido por alunos da Universidade
Presbiteriana Mackenzie em 2004. Tratava do caso Escola Base.
Classificado pelo jornalista Boris Casoy como uma situação de
“emburrecimento generalizado, no qual toda a imprensa acreditava na
palavra em um delegado”, o episódio provocou uma das maiores polêmicas
da história do jornalismo brasileiro. O vídeo tem 13 minutos de duração
e nele são ouvidos os dois casais donos da Escola Infantil Base,
acusados, em princípio, de abuso sexual contra os alunos. Jornalistas
que acompanharam o caso também participam do documentário.
“Nesse caso, especificamente, todos esses jornalistas tinham diploma”,
diz Severiano. Daí em diante, o palestrante discorre acerca de sua
participação em revistas e jornais alternativos. Destes, Myltainho
citou veículos como O Bondinho, Ex-, Mais um, Doçura e o
livro-reportagem Extra-realidade brasileira, que, segundo ele, foi
pioneiro em publicar “algumas verdades” sobre a Rede Globo e cujo
título é O ópio do povo. “Como as festas dos altos chefes regadas a
cocaína”, afirma. Mais do que desprendimento, o editor-executivo de
Caros Amigos faz questão de ressaltar o preço que se paga quando o
jornalista se desvencilha da chamada “mídia gorda”. “Tem a ver também
com a vocação, ficar sem carro por um bom tempo, almoçando pão com
mortadela e jantando macarrão com Sangue de Boi (marca de um vinho
barato).”
Durante essa parte da palestra, Myltainho contou, por exemplo, que o
jornal mensal Ex-, do qual ele e HAF faziam parte, foi o único veículo
de informação da época a divulgar a morte do jornalista Vladimir Herzog
sem mencionar a versão do Exército – de que “Vlado” teria se enforcado
com o cinto do macacão usado por presos do DOI-CODI. “O Ex- era o único
jornal que não estava sob censura prévia. A gente escreveu a reportagem
em cima do fio da navalha. Tínhamos de contar sem contar, dizer sem
dizer, mostrar sem mostrar, onde, ao final, o leitor concluía que
aquilo (a versão oficial) era uma farsa.” A palestra de Mylton
Severiano foi seguida de um espaço no qual os cerca de 50 estudantes,
jornalistas e demais participantes do anticurso fizeram comentários e
questionamentos sobre temas como imparcialidade, o despreparo da atual
geração de jornalistas e o uso de pseudônimos em créditos de matérias.
A palestra, a exemplo das outras sete ministradas durante o 1º
Anticurso de Jornalismo Caros Amigos, durou cerca de duas horas e
ocorreu na redação da revista, em São Paulo, capital.
Publicada originalmente em Caros Amigos
