Grupos

Um dos assuntos momentosos entre educadores e pais é o das crianças índigo.
A denominação, segundo Nancy Ann Tappe, considerada a primeira pessoa a identificar e a escrever sobre o fenômeno, refere-se à cor de sua aura, que manifestaria um grupo diferenciado de crianças que vêm encarnando na Terra desde a década de 70.
As principais características destas crianças poderiam ser resumidas em um forte senso de propósito e elevada auto-estima, na dificuldade em se adaptar às regras da educação tradicional e em lidar com formas de autoridade absoluta.
“Crianças Índigo” (1), a obra de onde extraímos as informações afirma, entre outras coisas, que “sua missão é desenvolver uma nova consciência no planeta” e que “vieram para nos apresentar um novo conceito de humanidade”. Diz ainda que “essas novas crianças podem nos ensinar a ter uma nova consciência de nossa auto-imagem” e “farão com que a sociedade viva o seu momento presente, pois é para isso que vieram”.
No entanto, a mesma obra descreve desajustes comportamentais e outros problemas de alguns índigos, como dificuldade de concentração e irritação emocional, sendo por vezes confundidas com crianças portadoras de DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção) ou TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade).
Sobre o livro, posso dizer que traz muitas boas orientações para pais e educadores de crianças índigo ou não, especialmente no quesito disciplina, diálogo e amor. As sugestões para lidar com os desafios da educação são muito boas, mas nada posso dizer quanto às sugestões de tratamentos e alimentação.
Sobre as crianças especiais, não é novidade que bebês mais inteligentes e vivazes têm nascido ultimamente em nosso planeta. A novidade é o clima de misticismo que parece envolver as afirmações em torno do tema.
A propósito das características relacionadas aos índigos, podemos observar que elas não apontam para uma evolução global do ser espiritual, mas para certas habilidades que se referem a um alto grau de desenvolvimento da inteligência intrapessoal. A inteligência intrapessoal, pertencente ao espectro das inteligências múltiplas estudadas por Howard Gardner e outros pesquisadores, quando bem desenvolvida, proporciona a capacidade de autoconhecimento e de estar bem consigo mesmo, de administrar os próprios sentimentos e emoções, além de autodisciplina e auto-estima.
Porém, muitos dos casos descritos como sendo de crianças índigo, não revelam, por exemplo, um grande desenvolvimento da inteligência interpessoal, pois vemos que tendem a se isolar, têm problemas no relacionamento social, irritam-se quando não são compreendidas pelos outros e podem ter condutas anti-sociais.
O fato de reportarem visões e contatos com “anjos” ou “espíritos” pode parecer singular para Carroll e Tober, os organizadores do livro, mas não para os espíritas que conhecem a mediunidade como capacidade natural dos seres humanos e sabem como as crianças costumam serem sensíveis ao mundo espiritual nos primeiros anos de vida. Por isso, parece-nos indicado conter o ufanismo e estudar melhor estes casos, antes de fazer afirmações que podem alterar o destino de nossos filhos e alunos.
Em seu livro “Os Mutantes”, lançado em 2003, Pierre Weil já observa na sociedade indicações de que os seres humanos em geral, e não somente as crianças, vêm atingindo uma nova consciência onde se destacam como mutantes em relação aos chamados “estagnantes”. Não sabemos se ou até que ponto as chamadas crianças índigo participam deste despertar para valores mais elevados de vida.
Agora, se essas crianças podem contribuir conosco? Claro. Se elas têm algo a nos ensinar? Muito provavelmente. Mas daí a dizer que são “filhos da luz” e “crianças da Nova Era” vai uma boa distância, criando expectativas que muito possivelmente recairão sobre elas mesmas, no presente ou no futuro.
Preocupa-me também a possibilidade de diferenças e discriminações feitas em relação aos “não-considerados-índigos” numa mesma família ou grupo de alunos. Dizem, os que apóiam a tese dos índigos, que eles vieram para nos ajudar a evoluir. Então, eu encerro perguntando: qual é a criança que NÃO nos ajuda a evoluir?

Notas: 1. Segundo o livro Crianças índigo, de Lee Carroll e Jan Tober, Ed. Butterfly 2. Os Mutantes - Uma nova humanidade para um novo milênio, de Pierre Weil, Verus Editora.

Rita Foelker