TODOS SOMOS WOYZECKIANOS.
06:45 @ 29/06/2008
Não há mais Cronos. Não há mais sábios nem cientistas. Fizemos o impossível. Viemos anistiar o século e traduzir no tempo este absurdo de nós. Subverteremos o espaço e tornaremos o palco, as cortinas, e as luzes da Sala Dina Sfat do Teatro Ruth Escobar, uma ilha grega do tempo em que os deuses ainda moravam no Olimpo, e Dioniso vinha em carnes maravilhosas festejar seu rito em homenagem. Chegamos enfim, a Ítaca. Porto dos heróis cansados. Enchente que deságua os fins e os meios. E a partir de agora o início. Inauguramo-nos, modestamente, sacerdotes. Os subversivos herdeiros estão prestes a pisar o solo sagrado desta Terra que finalmente está ao alcance dos olhos marejados de seus bravos guerreiros. Por pobre que pareça, Ítaca não nos traiu. Ítaca nos deu essa maravilhosa viagem, e sem Ítaca não teríamos partido.
Partir para Ítaca exigiu a coragem de mesmo marinheiros mariados nunca abandonar o mar. Ainda que confessadamente, houvesse o desejo de saltar de peito aberto, resistimos. Que se morrermos afogados, morreremos juntos. Percebidas no outro de nós as razões para o existir teatral, e no teatro as razões para existir, não há mais o que temer, o que de mais importante esta montagem poderia nos trazer já nos trouxe: nós mesmos.
Em algum lugar deste tempo ancestral que foram estes poucos meses, há a fotografia do segundo exato em que se teceram os fios e os sinais que nos ligam. De ontem em diante. Que sejamos sempre as delicadezas e as mágoas, e nunca apesar das delicadezas e das mágoas. Que toda dor seja bem-vinda. E que toda melancolia traga a beleza criadora das sublimidades.
Olhamos ao redor de nós e sabemos: chegamos. Mais as fúrias do fazer teatral logo começarão a formigar novas fomes. E então, saberemos que Ítaca esteve e pra sempre estará do lado de cá da cena, nos interiores de nós. E com receios e arrepios, saberemos que em breve será hora de partir novamente. Aproveitemos então a curta estadia no país dos palcos, para cumprir os últimos gestos e subverter os últimos limites.
Hoje é de novo o dia das expectativas, o dia da escolha dos textos, das personagens, e hoje eu pergunto, como há muitos anos atrás: será que toda a potência do universo woyzeckiano vai ser transmitido na mesma intensidade do que foi sentido por nós?
Não há dúvidas, daqui já ouço os primeiros tremores.
Ítaca não terá em breve mais nada para dar-nos, mas sábios somo somos agora, poderemos enfim compreender o verdadeiro sentido de ítacas. Reitero então o óbvio: que serei a primeira a dar os abraços, as flores, e as palavras, pois que sou fã declarada desta montagem. Cada passo, cada percalço, cada mágoa, cada sorriso, cada olhar e cada boca, cada frase, cada gesto, cada woyzeckiano.
Se as estruturas do Ruth Escobar nunca mais serão as mesmas já não me interessa saber, porque nós, os de então, já não somos os mesmos, e se reverberados os abalos sísmicos de dentro de nós não restará nem o pó, nem a areia, nem a sujeira da última cadeira da última fileira desta sala. Ainda que esta seja a última dor e a última delícia que este processo me causa, e estes os últimos versos que escrevo.