Grupos

A vida acontece em grupos.

TODO SOMOS WOYZECK

17:40 @ 23/04/2008

 

Todas as personagens da peça têm seu quê de subversivo. Mas acho que o que deve nos interessar é: como deixar isso claro para quem vai nos assistir? Como subverter a platéia? E aí fica incluso uma série de reflexões que vão começar a ser feitas, talvez até mais intensamente, agora que abandonamos em parte o trabalho de mesa e partimos de fato para o trabalho prático de montagem. As dúvidas vão surgir cada vez mais, e podemos nos assegurar disso. Woyzeck não seria Woyzeck, o texto que atravessou incógnito o século XIX e nos chega tão impetuoso como nos chegou, a ponto de merecer uma aula toda especial no nosso cronograma de História do Teatro, como vocês podem observar na programação dada pelo Zécarlos no inicio do semestre.

Woyzeck é o texto que chega sem graça pra mim e que se torna o motivo mais freqüente de minhas reflexões desde a aula em que foi decidido que seria ele o texto de nossa montagem. Woyzeck se tornou uma forma de ver o mundo, exageradamente dizendo.

Mas como trazer todo esse estremecimento pessoal para o palco? Como levar todas as conclusões das coletivas woyzeckianos para a sala Dina Sfat do Teatro Ruth Escobar em Julho? Qual é a nossa realidade material de trabalho? São questões e pontos que pra mim não podem ficar de fora.

Primeiro há algumas pontuações pessoais sobre trechos da peça que eu gostaria de fazer. Primeiro a disposição dos quadros, que não acredito necessariamente que deve ser levada tão a sério. Como por exemplo, a cena do aprendiz que é interrompida por uma cena do Woyzeck em um “campo aberto” e que logo em seguida continua na mesma hospedaria com a surra que o Tamboreiro-Mor dá no nosso herói às avessas. Essa cena (Campo Aberto) poderia, por exemplo, ser seqüenciada pelas cenas de Caserna entre o protagonista e Andres. E assim seria interessante que outras pessoas se manifestassem a respeito dessa disposição sugerindo soluções que possam ser mais interessantes que as propostas pela tradução. Claro que não se trata da mudança pela mudança e claro que se trata apenas de mais uma PROPOSTA.

Depois poderíamos colocar aqui no email os apontamentos pessoais, que às vezes por falta de tempo, não conseguimos fazer na aula a respeito das diversas personagens que circundam a história. Por exemplo, o fato de Büchner ter um pai médico, que de fato entrou em contato com um soldado chamado Woyzeck talvez queira dizer alguma coisa, e por que ele coloca nesse médico o tom alucinante também pode ser pensado pelo grupo. O capitão que é uma personagem que ao mesmo tempo em que é rato também é lírico, e que diz coisas coerentes com sua situação de rato, mas que também nos remete ao seu suposto lirismo “eu só fui a guerra para reforçar meu amor a vida”, a personagem vai a guerra para se salvar, numa situação limite, e sobreviver a qualquer custo, mesmo que isso signifique o sacrifico de outras pessoas, portanto o acho covarde.

Marie nossa querida personagem feminina, feminista? Marie rompe com todas as regras impostas a partir do momento que tem um filho fora do casamento e se permite se relacionar com um homem para satisfazer seus desejos de mulher.

Meu querido aprendiz que diz que o dinheiro está apodrecendo e que o soldado mata por que Deus deu ao homem a vontade de matar, e dessa forma vai em defesa do exemplo máximo de miséria, lirismo e compreensão que é o amado Woyzeck, que subverte a sociedade pelo simples fato de o negá-la por não compartilhar com ela os mesmos valores, e não pela violência pela não aceitação, e sim da forma mais sublime e lírica, sendo humano e amando. Seus valores ultrapassam os das personagens que o exploram, e acredito que mesmo que inconscientemente ele sabe disso, supõe no fundo, e o clímax de sua automarginalização social se dá no momento em que mata sua amada.

Me sinto Woyzeck em quase todos os aspectos da vida. Em não ligar para as ervilhas, não por não me importar com elas ou comigo, mas porque há outras coisas “maiores” com que posso me importar. Por não querer fazer parte da sociedade de injustiças em que vivemos. Por não compartilhar. Por ter perdido há muito a irmandade com as coisas, e por ser essa minha “loucura” meu grande trunfo. Por responder com música e poesia os ataques pessoais. E por não perder jamais o lirismo de fé e crença na vida. Ainda que a aceite como ela é, e saiba, e conheça as profundas cicatrizes de suas contradições.

Eu nego a sociedade não me importando com minha nulidade e efemeridade perante ela. Eu nego a sociedade com amor. E nego dando a outra face. Com coragem, e uma compreensão profunda, que é ancestral à racionalidade, que é no sentido mais lírico e instintivo da palavra, humana.

E é assim que o Woyzeck, em minha opinião não se abnega, não se entrega, apesar de saber que seu corpo é produto de chagas sociais, nem se revolta, woyzeck tem a compreensão instintiva das coisas. Que o capitão jamais terá, e que o médico em sua loucura ainda menos.

Há também o Tamboreiro-Mor, que vê na violência a perfeita saída para sua insegurança pessoal, e o medo de amar alguém que ele não possa possuir tanto quanto a si mesmo, para quem dedica seu maior e talvez único amor. Quantos rapazes não conhecemos assim? O T-M é o maior exemplo de como o sistema de repressão se transmite automaticamente entre as gerações, que de exploradas passam a exploradoras, sem nunca se questionar por quê.

E a partir dele ainda pode ser feita uma outra grande reflexão: todos esses homens vêm de um contexto que talvez nenhum de nós conheça, o da guerra. E aí sim, começa a grande viagem! Pois que coisa mais absurda e embrutecedora! Quantos perdedores não existem nos conflitos bélicos? Se a vida, como meio de produção capitalista e fetichista já nos é o suficientemente absurda que dirá a mortífera guerra! E o que esse absurdo pode causar nas mentes mais supostamente saudáveis!

O que será esse contexto bélico na vida do T-M? E do capitão? E do Andres? E do próprio Woyzeck? Quem são esses homens que em algum momento de suas vidas ficaram cara-a-cara com a morte? E o quanto isso traz de reflexão! Se já é difícil achar um sentido para a própria existência, que dirá quando ela fica a mercê de interesses que não são pessoais, e que não produzem sequer os produtos inúteis do capitalismo do american way of life?

Sim, pensemos.

Numa das críticas que li a respeito da peça, o autor dizia que as varas colhidas por Woyzeck e Andres seriam talos de madeira que seriam usados para açoitar seus colegas soldados”. E as autoridades, como o Capitão são “muito mais prostituídas do que constituídas”. Pensemos no capitão como pós-aprendiz-bêbado-subersivo. O que faz com que ele vire capitão? A alienação que faz com que o explorado veja na exploração não a causa de seus problemas, mas sim uma saída. Todo explorado que aceita sua exploração almeja um dia mudar de papel, e assim se mantém o sistema ancestral de poder desse bicho esquisito que é o homem.

            Voltando as nossas personagens subversivas ainda falta falar do misterioso Andres, sempre cantarolando alguma música, mas que assim como se supõe erroneamente o autismo e a esquizofrenia woyzeckiana, Andres se revela uma persona muito sensata. Trazendo Woyzeck para a realidade dos fatos, não se sujeitando ao experimento a que o colega se sujeita, Andres também acaba por subverter a ordem, ao se mostrar não um soldado sisudo, ou violento, mas lírico, o suposto auterego do quase revolucionário Woyzeck.

            Personagens que tem até seu quê de expressionistas tamanha sua subversão como a avó, que conta a história do menino que vê que a Terra é um porto destruído e sugere as mais belas imagens concretas, ou o cuidador do filho de Marrie que é um Bufão!

O Sensacional Charlatão, que se coloca à parte de todo o sistema social e que por isso tem toda a liberdade de analisar a sociedade que ele sequer pertence, por ser artista-reflexivo-homem-da-Praça-da-Sé, joga na cara de todos nós nossa bestialidade humana, e o quanto o cavalo Woyzeck pode ser parecido com algo que conhecemos bem de perto.

Kathe a puta que se diz puta e que não lamenta seu estado de puta. Que é mulher, suposta maldição bíblica, tão quente quanto a outra que se vai, além do traficante Pablo Escobar (rs) que completa o quadro da salada de misérias humanas, tão diversas entre si e tão próximas, tão irmanadas justamente por serem humanas.

E então pergunto mais uma vez, será que tudo isso, toda essa riqueza vai ser transmitida na mesma intensidade que está sendo sentida por nós?

O texto que causa um estranhamento inicial, causará o espanto e estremecimento que os monólogos woyzeckianos nos propõe no momento de serem ditos? O que acontecerá com a platéia quando ouvir que “todo mundo é um abismo” ou “quer ser mais que pó, areia e sujeira?” As estruturas do Ruth Escobar continuarão as mesmas? rs

Eu espero sinceramente que não. E desejo profundamente que todos estejam tão mergulhados nessa viagem como eu estou.

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Que as referências biográficas sobre o dramaturgo alemão sejam escassas no sistema Google de pesquisa, tudo bem, mas que sequer existam no arquivo eletrônico do Instituto Goethe, é realmente chateante. Na sede italiana não há sequer referências das peças do dramaturgo, e em todo o sistema as obras que fazem referência a Büchner são mínimas. Depois de muito tentar achei, por acaso, uma linha do tempo sobre o dramaturgo, ainda assim em alemão, que tive que traduzir para o inglês e só então tentar decifrar para o português.  A intenção era descobrir até que ponto o caráter subversivo permeia a obra dramática de Büchner. As respostas ainda não são esclarecedoras, mas começaram a surgir algumas sugestões de novas pesquisas ao menos, e a partir delas criar o estudo que se segue.

Karl George Büchner nasce em 1813 numa cidade do interior da ainda não formada Alemanha, Godellau, e três anos depois se muda com a família para Darmstadt. Aos nove anos ingressa numa escola privada. Aos 14 anos entra numa escola secundária de Darmstadt e começa a ler textos clássicos da cultura Latina. Aos 18, por influência do pai médico, começa a estudar medicina na Universidade de Estrasburgo e conhece Minna Jaeglé com quem mais tarde irá se casar. Além dos estudos na Universidade, Büchner reflete sobre a situação política da Alemanha e acredita que a revolução, o confronto social é necessário para modificar a situação política. Em 1834 passa a fazer parte de uma sociedade política conhecida como “Sociedade para os Direitos do Homem”, onde escreve o panfleto “Paz às cabanas! Guerra aos palácios!” convocando a população a uma insurreição em Hesse e recebe por isso, juntamente com seus companheiros de sociedade, uma ordem de prisão que o levará mais tarde ao exílio. No ano seguinte é interrogado por um júri de magistrados em Offenbach, e no mesmo ano escreve sua primeira obra dramática “A Morte de Danton”, que é a primeira obra realista alemã e que trata dos desdobramentos da Revolução Francesa e analisa as causas de seu fracasso, e “Lenz”, uma homenagem a um companheiro de um movimento literário conhecido como “a jovem Alemanha”.

No ano seguinte é exilado na Suíça, onde escreve a comédia “Leonce e Lena”, e passa a dar aulas da Universidade de Zurique. Em setembro do mesmo ano começa a escrever Woyzeck, inspirado na história de um homem chamado Johan Franz Woyzeck que encontra nos laudos médicos da biblioteca paterna. A única obra que é publicada em vida é a primeira, diz-se que sua esposa teria queimado muitos de seus escritos. No ano seguinte, acometido de febre tifóide, Büchner morre aos 24 anos, no auge de sua juventude contestatória, que por mais que não seja lembrada nos verbetes dos arquivos do Instituto Goethe, com certeza serviu de inspiração para os outros jovens, seus contemporâneos que por sorte e saúde tiveram a possibilidade de viver o suficiente para se tornar muito mais conhecidos.

Büchner também servirá de inspiração, algumas décadas mais tarde, aos naturalistas e expressionistas em seus dramas sociais. Quando o texto Woyzeck é descoberto, após passar por um delicado processo de restauração dá origem a um libreto de ópera de Alan Berg, sob o titulo de Wozeeck.

A geração de Büchner está para a Revolução Francesa assim como a nossa está para a ditadura e o movimento estudantil, claro que consideradas as devidas proporções. Mas Büchner é um jovem que vê com absoluta nitidez a sociedade em que faz parte, e talvez por isso saiba denunciá-la tão bem, sendo seus dramas atemporais, e quase exclusivos na história da dramturgia mundial.  Woyzeck é o primeiro protagonista miserável, e no entanto não é um símbolo realista, ou naturalista, é um símbolo humano do que a luta pelo poder e sistema de opressão do homem contra o homem é capaz de fazer.

A influência do “Sturm Und Drang”, o movimento que propõe rupturas artísticas importantes por proclamar a liberdade criadora do artista, e que teve nas figuras de Goethe e Shiller os principais líderes, ainda encontra na obra de Büchner alguns ecos que podem ser vistos talvez na proposta estética de Woyzeck, que não se pode afirmar com certeza que seja esta que apresentamos, de quadros esparsos, uma vez que o dramaturgo morre sem de fato terminá-la. Mas que esse é um ponto importante na análise woyzeckiana, não há dúvidas, uma vez que a pesquisa artística só vai romper de fato com as formas estéticas nos movimentos de vanguarda do século XX, que também têm na Alemanha um dos palcos principais.

Woyzeck é um texto altamente subversivo, e a influência dos tristes ecos da Grande Revolução se faz presente em todas as obras de seu autor, talvez porque o tema permeava os discursos dos jovens liberais da década de 1830, quando o capitalismo começa a se estabelecer como sistema econômico e já começam a surgir os primeiros descontentamentos sociais, e a revolução passou a representar nesse caso o estabelecimento dos ideais burgueses e não os do povo explorado pelo sistema de produção.

Logo surgirá Karl Marx e as primeiras insurreições européias, infelizmente Büchner não assiste a Primavera dos Povos, nem sequer lê os estudos do teórico do comunismo. Aliás, a influência marxista sobre Büchner parece que se dá do lado avesso. Quando Büchner escreve Woyzeck, sua última obra dramática, Marx ainda com 17 anos ingressava na Universidade, e só escreve seu primeiro livro em 1841, cinco anos após a morte do dramaturgo alemão. Não seria impossível que o próprio Marx tivesse lido Büchner.

No entanto é nítido o cunho social e subversivo da obra deste jovem contestador que morreu tão cedo, e que talvez por isso que não tenha feito parte dos grupos de esquerda que levariam as insurreições de 1848 que ocorreram por toda a Europa e que são o embrião de todas as revoluções sociais que se seguiram. Mas Büchner acaba por se decepcionar com a luta política. Não participa da grande Revolução Francesa nem participará da revolução socialista da Rússia, e por isso encontra-se neste estado apático que talvez seja o mesmo em que vivemos, apesar de sua geração nem de longe lembrar a alienação e caretice da nossa.

Talvez por isso que os revolucionários da Rússia de 1917 esperavam tão ansiosamente a eclosão da revolução na pequena Alemanha, pátria mãe do teórico do comunismo, Karl Marx, e de uma juventude cheia de talento que além do grande Goethe, Shiller, Kleist, também inclui George Büchner, que não fez parte desses grupos pelo simples fato de não ter tido tempo, talvez se o tivesse seria tão citado nas obras de estudo literário quanto seus antecessores e compatriotas.

A obra de Büchner ao contrário dos mestres Goethe e Shiller é abominada na Alemanha nazista e considerada mais um dos exemplos de arte degenerada.

Essas são algumas das peças do imenso quebra-cabeças que agora representa a biografia deste autor que de absolutamente desconhecido para mim, tornou-se uma referência importantíssima em minha formação política e teatral, só é realmente lamentável encontrar tão poucos estudos em língua portuguesa a respeito de sua vida e obra. 

 

AS OUTRAS VERSÕES

13:32 @ 25/04/2008

Eis que inauguro a sessão As Outras Versões, que terá por missão mapear na rede referências de outras montagens woyzeckianas.

A prícipio divulgarei imagens de alguns cartazes para estimular as brilhantes mentes woyzeckianas. O mais sensacional será comparar as diferentes, e às vezes discrepantes, concepções de Woyzeck, mas que magicamente nunca deixam de ser Woyzeck!

Um brinde ao mestre Büchner!

Ensaio sobre a Atemporalidade

13:44 @ 25/04/2008

Eis que publico o texto de desabafo da Leyde, de gaito vai uma das belíssimas imagens que ela mandou:

Comfort, Eduard Munch, o pai expressionista de todos nós.

 

Caros Woyzechianos, algo me perturba, rsrs...

Tentarei em breves linhas passar um geral do motivo dessa perturbação, não tenho um poder de síntese tão bom quanto nossa querida Jack, e inclusive inicio a discussão pelo texto escrito pela própria, aliás, um ótimo texto como já foi dito, mas o mais interessante do texto é o levantamento que ele faz e que inclusive hoje passamos um pouco por cima e não nos aprofundamos tanto na discussão dos fatos que ele levanta, como por exemplo como transpor para o espetáculo toda nossa vivencia de conversas e estudos sobre o texto, como transmitir para o espectador tudo que sentimos, discutimos e pensamos a respeito do texto, hoje (sou extremista, saibam interpretar) inclusive de minha parte, senti que ao “materializar” as cenas estamos partindo exatamente para o caminho que Jack e acho que todos nós tememos, não me parece tão homogênea a “concretização” de Woyzeck(o texto) enquanto cenas, como é claro e bem definido Woyzeck enquanto discussão de mesa e entendimento. Entendam, não estou julgando as cenas, até mesmo porque estamos construindo-as ainda.. E é também nesse ponto que quero chegar:

Da construção dos personagens:

Chegamos ao consenso de que nosso Woyzeck  é atemporal. Mas essa afirmação hoje me parece vaga, pois visto  que o texto e a reflexão que ele levanta é atemporal hoje me parece até obvio, mas encarar todo o universo que estamos criando (enquanto contexto histórico, localização, enfim, como costumo dizer: hora, local e razão) como atemporal, ao invés de nos oferecer possibilidades criadoras, ao contrário, nos limita. Como construir um personagem (interior e exteriormente) que seja atemporal, tudo bem, a essência de determinadas “personas” pode ser atemporal (ex: Woyzeck pode possuir a mesma “essência” de um trabalhador de campo), mas Woyzeck é um soldado, tem modo de falar, de vestir, de andar, diferente do trabalhador rural, e acho que isso tem que ser levado em conta.

Quando penso em objetos para levar por exemplo, me pergunto se levo um espelho quebrado em que Marie se olha, ou Marie se olha apenas no reflexo da água? Woyzeck barbeia o capitão com navalha ou com um “prestobarba sensor plus gel”, rs (exagerei)?

É nesse sentido que acredito que a palavra atemporal precisa ser discutida.

É chegado momento de agilizarmos figurino, cenário, e precisamos pensar, que roupa essas pessoas usam? Que época? Como são as casas? A Rua? Chegamos ao consenso de “um lugar em ruínas”, terra e etc, mas porque, que lugar é esse? Porque está em ruínas? É o Largo São Francisco com seus mendigos durante à noite, é uma cidade com poucos recursos por descaso e “esquecimento” como vemos no nordeste por exemplo, é uma cidade que sofreu as conseqüências e privações do pós-guerra? Que lugar é esse?

Enfim, estou levantando a questão para ser discutida, contestada, derrubada, mas que não seja ignorada.

                                                                      ***

(e agora Josés?)

Sensualitá

14:06 @ 25/04/2008

Tamboreiro Mor ou

Woyzeck

no começo?

 

Tomasz Rut

Fazendo a sinestesia literária, os versinhos de Casimiro de Abreu tão coerentes com esse triângulo!

A Valsa


Tu, ontem,
Na dança
Que cansa
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo
Lascivo
Carmim;

Na valsa
Tão falsa
Corria
Fugias
Ardente
Contente
Tranqüila
Serena

Sem pena                                                                                                       
De mim!



Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!

Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...


Valsavas:
— Teus belos
Cabelos
Já soltos
Revoltos
Saltavam
Voavam
Brincavam
No colo
Que é meu;

E os olhos
Escuros
Tão puros
Os olhos
Perjuros
Volvias
Tremias
Sorrias
P'ra outro
Não eu!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!...


Meu Deus!
Eras bela
Donzela
Valsando
Sorrindo
Fugindo
Qual silfo
Risonho
Que em sonho
Nos vem!

Mas esse
Sorriso
Tão liso
Que tinhas
Nos lábios
De rosa
Formosa
Tu davas,
Mandavas
A quem ?!


Quem dera
Que sintas
As dores
De arnores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas,..
— Eu vi!...


Calado
Sózinho
Mesquinho
Em zelos
Ardendo
Eu vi-te
Correndo
Tão falsa
Na valsa
Veloz!

Eu triste
Vi tudo!
Mas mudo
Não tive
Nas galas
Das salas
Nem falas
Nem cantos
Nem prantos
Nem voz!


Quem dera
Que sintas

As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues
Não mintas...
— Eu vi!


Na valsa
Cansaste;
Ficaste
Prostrada
Turbada!

Pensavas
Cismavas
E estavas
Tão pálida
Então;
Qual pálida
Rosa
Mimosa
No vale
Do vento
Cruento
Batida
Caída
Sem vida.
No chão!


Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
Eu vi!

 

A imagem de Tomasz Rut, é uma referência trazida pela adoravél Doralice, e o os quadros desse pintor são todos nesse mesmo tom e igualmente sensuais!

Vale a pesquisa no google imagens!

 

 

 

 

 

tem.po.ra.li.da.de

12:26 @ 29/04/2008

E aqui vai a resposta do nosso querido diretor dionisíaco:

Aproveitando para postar mais uma imagem,  dessa vez é Van Gogh, outro expressionista sugestão da Marrie-Leyde!

 

 

"Eis que vamos nós à tentativa de dar conta das discussões infindáveis que se instauram em um processo de criação verdadeiro tal qual estamos vivendo...
 
temporalidade
tem.po.ra.li.da.de
sf (lat temporalitate) 1 Qualidade de temporal ou provisório. 2 Estado ou condição do que não é efetivo, do que não é perpétuo. 3 Bens temporais, coisas mundanas. 4 Interinidade. sf pl Benesses, rendas de eclesiásticos; prebendas. Temporalidades da vida: os bens desta vida, os ganhos, os proventos.
 
Queridos, compartilhando das angústias de todos e sobretudo, compreendendo as necessidades de vocês terem mais "circunstâncias dadas" para a criação de suas personagens tento aqui sistematizar um pouco mais as nossas discussões ao longo do trabalho de mesa.
Com ajuda do pai dos burros acima, pude perceber que o conceito de temporalidade se encaixa tanto quanto o conceito de atemporalidade que estávamos dando ao texto. Mais do que definir um momento histórico preciso, a qualidade que vejo em woyzeck é a de "estado ou condição do que não é efetivo, do que não é perpétuo".
Confesso que uma das minhas tendências iniciais foi a de localizar o Woyzeck históricamente em nossa montagem, inclusive, propondo como exercício cênico, uma releitura atualizada das relações entre as personagens. No entanto, hoje, creio que se nos prendermos especificamente a um ano de nosso calendário estaremos falando de um homem específico, que viveu em um momento específico e que teve data para nascer e para ser enterrado. Nosso Woyzeck vive hoje, nesse mundo surreal, globalizado, construído históricamente pelas batalhas de nossos antepassados que estiveram no entreguerras, na cidade abandonada, no nordeste. Nosso Woyzeck vive num espaço definido pela sua relação com o mundo e se veste tal e qual aqueles seres que podemos ver como indefinidos no lgo São Francisco. Ou seria possível definir o ano em que os mendigos vivem?
Sei que fica extremamente impálpavel partir desses pressupostos, mas a idéia é outra, que partamos dos locais e datas históricas para construir esse lugar destruído pela guerra, em que faltam suprimentos, em que o comércio não vive senão dos restos que sobraram e dos destroços que são encotrados pelo chão. Não é sem dúvida com prestobarba que o capitão se barbeia, mas com uma uma navalha que apesar de pertencer a um período específico ainda pode ser encontrada hoje. A questão não é definir se Woyzeck é um soldado da primeira ou segunda guerra, a questão que me parece mais latente é definir que Woyzeck é um ser da guerra e que as relações são pautadas nesse universo retratado nas imagens que Jack publicou no blog, algo um tanto quanto envelhecido, mas onde não se figuram retratos precisos de um período e sim, corpos marcados por experiências de vida.
Nesse sentido, creio que podemos adotar o período entre-guerras para enteder o homem que vive no mundo de woyzeck, mas não podemos perder de vista que nossos moradores de rua também pertencem a um campo de batalha atroz, bem como nossos nordestinos ressecados, ou indíos lutando na zona da mata.
O lugar de Woyzeck é sim, na minha opinião, um lugar imaginário, acinzentado pela história mas que poderia estar a 50 anos atrás como poderia existir daqui a cinquenta anos.
As personagens não caminham tanto segundo o olhar de uma época, mas segundo as suas necessidades básicas de buscar alimentos, roupas e suprir suas carências num mundo devastado. No entanto, também não vejo o nosso Woyzeck na alemanha ou na itália, nem no Japão depois da bomba nuclear, vejo nosso woyzeck num brasil-mundo, cultivado pela barbárie humana, em que os figurinos, as cores e os cenários retratam muito mais um ser no mundo do que um estar no mundo, ou seja, a cara da encenação segundo a vejo a partir de nossas discussões retrata muito mais a complexidade das personagens e de seus carácteres e sentimentos do que propriamente o espaço-tempo em que suas construções foram edificadas ou suas roupas costuradas. O conceito de atemporalidade segundo o qual penso que podemos nos aprofundar é aquele a partir do qual Marie usa um vestido de algodão cru, tingindo com tons de terra e cinza, não porque vive no interior do nordeste, mas porque seu interior, seu estado sentimental e psicológico está amargando e se tornando cada vez mais áspero, se borrando das imundície da barbaridada das relações humanas estabelecidas entre as personagens.
A questão que eu lhes proponho é então, como buscar a mesma poesia que encontramos no texto, nas falas e nas idéias das personagens na produção dos elementos como cenário e figurino, não abordando esses aspectos a partir de uma perspectiva realista, mas antes, a partir do simbolismos capazes de fazer com que as roupas que as personagens vestem sejam como sua segunda pele, abarrotada pelas experiências de vida pelas quais essas personagens passaram. E quais são essas experiências? As vivências que desde sempre estabeleceram relações de poder, abuso, humilhação, manipulação, instinto seja nos idos dos cínicos filósofos gregos, passando pelos homens trabalhadores da idade média ou pelos nossos operários e mendigos de hoje.
Coloquemos nosso Woyzeck no dia de hoje, mas como se hoje fosse ontem ou pudesse ser amanhã. Vistamos nosso Woyzeck como um homem, que antes de ser soldado, é um ser social desgastado pela história da humanidade.
Por fim, também não tenhamos medo de trazer essas referências todas, seja a navalha, seja a prestobarba, para que a partir do concreto, possamos perceber a forma que daremos aos nossos corpos. Nosso trabalho de mesa discutiu o universo espiritual de Woyeck... Pois que o universo carnal seja trazido na carne enquanto nossos ensaios se desenrolam, para que assim, nosso processo, continue sendo um processo de construção e criação e não apenas de transposição de idéias previamente estabelecidas.
Evoé,
saudades e até terça,
Fi

AS OUTRAS VERSÕES II

12:30 @ 29/04/2008

A montagem da delicadeza!

Woyzeck em bonecos!

O Limk do trailer da montagem no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=mBgmuicCxX8&eurl= http:// www.brisbanepowerhouse.org/events/video/ woyzeck-on-the-highveld/woyzeck-trailer/