Grupos

A vida acontece em grupos.

 

Entrevistas com atores portugueses que montaram Woyzeck junto com Os Satyros, na filial européia.

Muito interessante as visões iguais e diferentes de personagens.

Vale a pena a olhadinha! 

http://br.youtube.com/watch?v=nvHQKf9w4qc

Aliás a pesquisa woyzeckiana no youtube é bem interessante!

 

Contagem regressiva.

05:30 @ 10/05/2008

Indigestas ervilhas, ração diária de angústia, do tempo, tempo, tempo mano velho. (no fundo do relógio está a morte - do conto lido na terça). Escrevo da ponta do quinquagésimo dia anterior à estréia. Minúsculas felizes observações sobre um processo verdadeiro de montagem. Aprendizado e crescimento. O teatro cumprindo seu papel. Nos subevertendo. Trazendo laços, intimidades, medos e vãs preocupações. Outras não. Posto que já vi, vivi, amei e até cri em todo unioverso Woyzeck, sendo este blog, e estas palavras poucas as mudas provas disso. As angústias do primeiro texto, e as pontuações, os resultados das infinitas coletivas, comitivas, caravanas (rs) woyzeckianas já digeridos, deglutidos, ruminados. Pequenas crises, no entanto permaneçem. Que o tempo amigo seja legal. Nos reserve a grandiosa morte do final.Mas que seja só no final. Que nada do que temos feito nos últimos 70 dias (pasmem!) se perca nos próximos 50. Que todo o aprendizado tenha sido absorvido. Ainda que restem as naturais e eternas dúvidas de aprendizes, que não esqueçamos que somos e podemos ser por muito tempo ainda, um grupo. Que nenhuma mágoa atrapalhe a força coletiva que deve existir de hoje em diante. Que a montagem estremeça cada cadeira ocupada pelo espectador-woyzeck. Que o universo criado em nós e por nós jamais se perca. Que as personagens se libertem no palco cheias de som e fúria. E que aconteça. E haja. E seja. Por sessenta minutos que seja, sejamos woyzecks com toda a potência que podemos ser!

Evóe camaradas.

versinhos!

01:02 @ 15/05/2008

Alguns versinhos los hermanescos pra algumas personas!

(viagenzinha, confesso, mas não custa nada dar uma lida! rs)

 

Tamboreiro:  Ele não é feliz/ sempre diz que é do tipo cara valente/ mas veja só a ente sabe/ que esse humor é coisa de um rapaz/ que sem ter proteção/ foi se esconder atrás/ da cara de vilão/ então, não faz assim, rapaz/ não bota esse cartaz/ a gente não cai, não! Ele não é de nada!/ essa cara amarrada é só, / um jeito de viver nesse mundo de mágoas/ ele não é de nada...

 

Charlatão: É de mágica/ Que eu dobro a vida em flor/ Assim!/ E ao senhor de iludir
Manda avisar, que esse daqui/ Tem muito mais amor pra dar!

e

Esse é só o começo do fim da nossa vida/ Deixa chegar o sonho/ Prepara uma avenida/ Que a gente vai passar!

 

Marrie: Veja bem, meu bem/ Sinto te informar que arranjei alguém/ pra me confortar/ Este alguém está quando você sai/E eu só posso crer, pois sem ter você/ nestes braços tais/ Veja bem, meu bem/ Onde está você?/ Somos no papel/ Mas não no viver/ Veja bem além destes fatos vis/ Saiba, traições são bem mais sutis/ Se eu te troquei não foi por maldade...

Woyzeck & Marrie: Eu vou, mas não me peça pra amar outra mulher que não você/ Eu não queria ir assim/ Tão triste, triste.../ Vem dizer adeus ao que restou de mim!


Aprendiz de Capitão: Eu não vou mudar não/ Eu vou ficar são/ Mesmo se for só/ Não vou ceder!/ Deus vai dar aval sim/ O mal vai ter fim/ E no final assim calado/ Eu sei/ Que vou ser coroado rei de mim.

 E a grande sacada do dia:

ANDRES:  Há muito uma menina vem maltratando o coração de um amigo meu/
Eu acho que ela também já chorou mas também acho que já se esqueceu/ Por que pisar num coração que ama e deixar ele sozinho/ Sabendo que sua vida mais que tudo necessita de carinho?/ Então eu imploro/ Oh Marie (rs)/ Não maltrate meu amigo/ Pois eu sei que seu coração só pensa em ti!

E vejam essa, Rô, achei que combina demais!

Eu cansei de ser assim/ Não posso mais levar/ Se tudo é tão ruim/ Por onde eu devo ir?/ A vida vai seguir/ Ninguém vai reparar/ Aqui neste lugar/ Eu acho que acabou/
Mas vou cantar/ Pra não cair/ Fingindo ser alguém/ Que vive assim de bem!

 

Faltaram muitos outros, mas não consegui fazer mais relações, se alguém tiver um versinho especial praquele personagem amigo, manda pra cá que a gente publica! rs

 

 

 

 

 

Faço questão de publicar:

 

Comentários,

 

Anônimo: Ora ora, quem serei eu que escrevo anônimo... Talvez alguém que não frequente o blog, hehe... Apenas gostaria de grifar a importância desta consciência de que os 70 dias passados não sejam considerados vãos e que o alimento que nos deram à alma possam servir para que agora a seiva da vida (ou da morte?) percorra nossos corpos, escorrendo por entre nossas vísceras... E que Dionisius com seus caos instaurado, olhe por nós satyros que somos, envolvidos que estamos, mergulhados, atolados, afogados na essência do RITO do qual ele é deus...

 

Ai, que assim meu coração não aguenta de tanta emoção! rs

O QUE É ANGÚSTIA

01:09 @ 16/05/2008

Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria - o que também é uma forma de angústia. Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia - e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai. Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda.

 

Clarice Lispector.

 

Fi,

obrigada

por tudo.

CHARLATÕES

10:52 @ 19/05/2008

 

            Um amigo meu diz que em todos nós existe o charlatão. Concordei. Sinto em mim a charlatã me espreitando. Só não vence, primeiro porque não é realmente verdade, segundo porque minha honestidade básica até me enjoa. Há outra coisa que me espreita e que me faz sorrir: o mau gosto. Ah, a vontade que tenho de ceder ao mau gosto. Em que? Ora, o campo é ilimitado, simplesmente ilimitado. Vai desde o instante em que se pode dizer a palavra errada exatamente quando ela cairia pior – até o instante em que se diriam palavras de grande beleza e verdade quando o interlocutor está desprevenido e levaria um susto de constrangimento, e haveria depois. Em que mais? Em se vestir, por exemplo. Não necessariamente o óbvio do equivalente a plumas. Não sei descrever, mais saberia usar um mau gosto perfeito. E em escrever? A tentação é grande, pois a linha divisória é quase invisível entre o mau gosto e a verdade. E mesmo porque, pior que o mau gosto em matéria de escrever, é certo tipo horrível de bom gosto. Às vezes, de duro prazer, de pura pesquisa simples, ando sobre linha bamba.

          Como é que eu seria charlatã? Eu fui, e com toda a sinceridade, pensando que acertava. Sou, por exemplo, formada em direito, e com isso enganei a mim e aos outros. Não, mais a mim que a todos. No entanto, como fui sincera: fui estudar direito porque desejava reformar as penitenciárias do Brasil. O charlatão é um contrabandista de si mesmo. Que é mesmo que estou dizendo? Era uma coisa, mas já me escapou. O charlatão se prejudica? Não sei, mas sei que às vezes a charlatanice dói e muito. Imiscui-se nos momentos mais graves. Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda força. Não posso infelizmente me alongar mais nesse assunto.

          Disseram-me que um crítico teria escrito que Guimarães Rosa e eu éramos dois embustes, o que vale dizer dois charlatões. Esse crítico não vai entender nada do que estou dizendo aqui. É outra coisa. Estou falando algo de muito profundo, embora não pareça, embora eu mesma esteja um pouco tristemente brincando com o assunto.

 

Clarice Lispector