Grupos

A vida acontece em grupos.

PROTESTO

02:19 @ 04/06/2008

ESTE BLOG ESTÁ MUDO EM PROTESTO PELA FALTA DE PALAVRAS.

INCOMUNICABILIDADE (by Fi)

17:51 @ 06/06/2008

     Woyzeck para além de todas as camadas que já cansamos de discutir, é também um texto sobre a incomunicabilidade... Para além da humilhação, da manipulação social, da loucura, da sanidade, da miséria, dos destroços, há também a inapetência Woyzeckiana de expressar os seus sentimentos, suas angústias e há ainda, a falta de honestidade e de clareza de todas as personagens umas para com as outras. Há aquilo que não se diz porque não se sabe dizer e há ainda aquilo que não se fala por não se querer falar... E é aqui que mora a provocação:
     Para além do nosso diálogo e da capacidade de escuta que desenvolvemos em nossa turma (ou mesmo manco posso nos chamar de grupo?) há uma dimensão de jogo que pode radicalizar a incomunicabilidade de Woyzeck. Uma falta de comunicação que quero aqui levar para um lado positivo, pois gostaria de ver o trabalho de vocês se desenvolver sem que eu soubesse...
     Gostaria de vê-los jogar e explorar os instrumentos que conquistamos até então sem que houvesse a necessidade de eu falar : Platô, desequilíbrio, imagem etc... Quero propor que vocês mesmos experimentem se lançar desafios, sejam físicos ou não, para que novas dinâmicas possam surgir, não de modo a mudar as propostas, mas sim, dando-lhes mais ânima. Pensando mesmo a questão da incomunicabilidade, gostaria que vocês se impusessem regras que elhes desafiassem a falar seus textos não apenas na básica estrutura de respostas às perguntas, mas mais ainda, em uma dinâmica tão viva e tão peculiar à lógica daquele universo expressionista que criamos. Não dêem suas deixas apenas, mas assim como seus corpos estão desenhados, desenhem e brinquem com a maneira de dizer esse texto, quem sabe por exemplo, só falar ao tocar a madeira ou ainda ao olhar para o lado, ou talvez depois de contar até dez. Não são regras complexas e nem precisam ser explícitas, são apenas provocações que vocês mesmos se fazem.
     Pouco me importa quais são os desafios, me interessa saber que vocês se desafiam e são desafiadores, como até hoje souberam ser...
     Por fim, estou pensando com carinho em deixá-los todos de DP, quem sabe assim posso ter mais um semestre de prazeres infindáveis e verdadeiros ao ver o teatro virar processo compartilhado de criação artística, como tanto acredito e como tanto vocês me dão a oportunidade de vivenciar.
Beijos na bunda de cada um de vocês
Evoé e até terça...
Fi

Büchner e Beckett (?!)

14:03 @ 11/06/2008

Segue o texto e a reflexão de minha amada e admirada cúmplice Joice Marie Tavares (bacante! rs):

 

Bom, já faz um tempo que lendo o Woyzeck, mais especificamente a fala da nossa avó-que não necessariamente é uma avó, como já discutimos, mas sim um ser sem idade, talvez mitológico assim como Tirésias ou as pitonisas de Apolo e seu oráculo; um ser que viverá sempre, não morrerá porque não nasceu, está presente em todos os tempos e pode muito bem metaforicamente representar o tempo, não linear, mas circular e não subdividido, mas contínuo – lembrei da última fala da peça de Samuel Beckett(o maior expoente do teatro do absurdo) “Fim de Partida”. Quando li esta peça pela primeira vez (há mais ou menos cinco anos atrás) fiquei extasiada como se estivesse diante de um abismo! Fiquei ainda mais impressionada quando resolvi pegar esta última fala de Clov em Fim de Partida de Beckett e ler em seguida da fala da avó do texto de Büchner. Estou empolgadíssima com essa pesquisa que comecei já faz um tempo, e sinto imensa necessidade de compartilhar com meus companheiros Woyzeckianos, também coloco à disposição de vocês um artigo muito bacana que me ajudou bastante a compreender melhor não só o Beckett, mas também o nosso Büchner. Leiam vocês, assim como eu fiz e reparem por si mesmos as semelhanças das falas:


Última fala de “Fim de partida” de Samuel Beckett


Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levando e busco o que comer. Mas você não levantará e nem conseguirá o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vasio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, então você será como um pedregulho perdido na estepe”.


Fala da avó em “Woyzeck”


Era uma vez um menino pobre, que não tinha pai, nem mãe. Tudo estava morto e não havia ninguém mais no mundo. Tudo morto. E o menino andou, procurando dia e noite. E já que não havia ninguém mais no mundo, quis ir para o céu, onde a lua olhava com tanta simpatia. E quando chegou na lua, viu que era um pedaço de madeira podre. E então foi para o Sol, e quando chegou no Sol, viu que era um girassol murcho. E quando chegou nas estrelas, viu que eram mariposas douradas, estavam espetadas, como se espetam os vaga-lumes nas árvores. E quando quis voltar pra terra, a terra era um porto destruído. E o menino estava sozinho. Então se sentou e chorou, e até hoje ainda está sentado, sozinho.


  Enquanto a fala da avó parece contar a história do nosso Franz Woyzeck, a fala de Clov caberia perfeitamente na boca do próprio no fim!!!!! A impressão que tenho às vezes enquanto leio Woyzeck e Beckett(e não sei se exagero em dizer isso, mas digo) é a de que o Beckett poderia ser um Büchner levado às últimas conseqüências do absurdo!

  E as semelhanças entre o absurdo de Beckett e o épico-dramático de Büchner não se resumem a apenas essas falas. Fiquei ainda mais impressionada quando ao ler Fim de Partida inteira novamente, comecei a prestar mais atenção nas recorrentes presenças de referências bíblicas, o que em Woyzeck também acontece. As semelhanças entre as peças estão presentes na forma e além disso parece que ambos, Beckett e Büchner dialogam.

  O que me fez começar a pensar mais profundamente no que é Deus em Woyzeck e no que estava o Büchner querendo dizer com tantas referências a Deus ao longo do texto, foi a minha dificuldade com o momento Marie/Bíblia; já que eu estava com Fim de Partida e Woyzeck nas mãos resolvi buscar mais respaldo para uma pesquisa que me ajudasse a entender melhor o que significava a Marie e a bíblia e todas as outras referências religiosas do texto. Comecei a pensar no que é deus em Woyzeck e no Büchner.

  Lembro agora, do momento em que estávamos todos fazendo exercícios de adaptação do Woyzeck e do capitão e da seguinte cena: Mayara e Daniel; ela, uma empregada cuidadora de um velho; ele, o velho. O velho numa total relação de dependência física da empregada, e ela também subordinada a ele. O Filipe comentou a semelhança dessa cena com a relação das personagens de Fim de Partida, Hamm e Clov. Hamm, cego e paralítico pergunta o tempo todo a Clov como está o tempo e as coisas fora do enclausuramento dos dois. De sua imobilidade Hamm administra as últimas provisões de ambos. Penso, talvez não sem exagero, que o Woyzeck poderia muito bem ser o Clov e o capitão o Hamm:


Capitão: Como está o tempo Woyzeck?

Woyzeck: Mal senhor capitão, mal, muito vento!


Hamm: E o Sol?

Clov: (ainda olhando) zero

Hamm: Deveria estar se pondo. Procure bem.

Clov: (depois de procurar) Dane-se o Sol

Hamm: Então já está escuro?

Clov: (ainda olhando) não.

Hamm: Está o quê então?

Clov: (olhando) cinza.(abaixando a luneta e voltando-se para Hamm, mais alto) Cinza! (mais alto ainda) CIIINZA!

Hamm: (sobressaltado) cinza? Você disse cinza?

Clov: preto claro. O universo todo.


  Intrigada e empolgada com tais semelhanças, comecei a buscar artigos, textos, livros, qualquer coisa que pudesse me esclarecer ainda mais essa relação Büchner/Beckett, não achei nada que explorasse tal assunto e encontrei um artigo de nome: Beckett: entre a cruz e as letras – uma leitura de Fim de Partida. Com certeza Dioniso e Apolo me ajudaram nessa, tamanha é a sintonia do artigo com minhas dúvidas a respeito do elemento deus na obra desses dois. O artigo aborda justamente a religiosidade no texto de Beckett e na biografia dele, detalhe: na aula do Zé Carlos cujo tema era Büchner foi dito que o autor de Woyzeck morou com um pastor protestante e teve um noivado secreto com a filha desse pastor. Beckett tinha uma família onde a religião era o protestantismo.

  Samuel Beckett nasceu no subúrbio de Dublin, numa Irlanda marcada historicamente pelas disputas religiosas entre católicos e protestantes.

  As peças de Beckett refutam dogmas do protestantismo, trata os fundamentos da vida cristã pelo viés da desesperança, a ausência de salvação , dos fracassos humanos e da frustração da criação do mundo.

  “Fim de partida' é uma obra representativa e bastante conhecida do universo típico beckettiano. Escrita originalmente em francês, publicada em 1957, o texto tem quatro personagens e é composta de um único ato. O enredo transcorre em torno de uma possível partida de Clov, enquanto Hamm, seu decrépito senhor, paralítico e cego, administra o fim das provisões: alimentos, remédios, sonhos, ideais. Neste fundo trágico permeiam diálogos preenchidos de humor cáustico. Os pais de Hamm, Negg e Nell acentuam as relações de dependência e solidão num paralelismo constituídos de doses grotescas, escatológicas, poéticas e, particularmente românticas”. Trecho do artigo de Alexandra Gouvêa Dumas

  Em Fim de Partida, as personagens vivem num universo claustrofóbico, que lembra o fim do mundo bíblico, o dilúvio: Hamm pede sempre para que Clov olhe o tempo, na bíblia quem faz isso é um pombo. O próprio Hamm diz: “O fim está no começo,e no entanto continua-se”.Tanto em Fim de partida quanto em Woyzeck o fim está no começo, lembremos das imagens apocalípticas anunciadas por Woyzeck logo no início do texto. Em diálogo com Andres e depois com a Marie ele retoma a fala do clarão por sobre a cidade, um estrondo de trombetas e o prenúncio de uma tempestade (seria dilúvio?).

  Em ambos os textos a entidade deus é inutilmente envocada. Mais do que uma prova da atemporalidade de nosso velho Büchner, que pela primeira vez na Alemanha não só rompe na forma com a estrutura aristotélica do drama, mas também pela primeira vez faz de um marginal o protagonista de sua obra. E agora para mim não restam dúvidas de que o nosso Büchner refuta os dogmas e valores do protestantismo e a onisciência e onipresença absoluta de um deus. Depois dele o teatro moderno nunca mais foi o mesmo, depois dele minha vida nunca mais será a mesma, a NOSSA visão de mundo jamais será a mesma.

 

 

Ítacas

03:51 @ 20/06/2008

Não podemos passar sem esse texto, mais um maravilhoso, de nossa Marie Joice! Não podemos passar sem perceber que também nós, heróis não gregos, mas igualmente cansados e sedentos por porto, estamos em busca de ÍTACA:

 

O dia trinta vai acontecer, estamos certos disso. O nosso porto de chegada a gente sabe onde está, por isso o que mais importa é o caminho...O dia trinta é nossa Ítaca, Depois de toda a Odisséia, então que vivamos cada segundo, cada tensão, cada tesão, as dores e delícias dessa trilha...São nossas as madrepérolas, os ébanos e âmbares adquiridos nessa viagem Woyzeckiana...


“Se um dia partires rumo a Ítaca

faz votos de o caminho seja longo,

repleto de aventuras, repleto de saber.

Nem Lestrigões, nem Ciclopes

nem o colérico Poseidon te intimidem;

jamais os encontrará no teu caminho

se altivo for teu pensamento

se sutil emoção teu corpo e teu espírito tocar.

Nem Lestrigões nem os Ciclopes hás de ver

se tu mesmo não os levares dentro da alma,

se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo,

numerosas serão as manhãs de verão

nas quais com que prazer, com que alegria

tu hás de entrar pela primeira ver um porto

para correr as lojas dos fenícios e belas mercadorias adquirir:

madrepérolas, corais, âmbares, ébanos

e perfumes sensuais de toda a espécie,

quanto houver de aromas deleitosos.

A muitas cidades do Egito peregrina

para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente,

estás predestinado a ali chegar,

mas não apresses a viagem nunca.

Melhor muitos anos levares na jornada

e fundeares na ilha velho enfim...

rico de quanto ganhaste no caminho

sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-se Ítaca,

sem ela não te punhas a caminho

mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência...

E agora sabes o que significam Ítacas”.

Constantinus Kaváfis

Les Éphémèmeres

05:24 @ 20/06/2008

quase no close pro fim. que falta só um instante. logo, logo estaremos aportados na terra sagrada. logo, logo o começo do começo. (ou os fins, ou os meios...)esperando a chuva ritualística desaguar em nós. que venha como um dilúvio, chovendo 120 dias woyzeckianos até a última gota. cortando silêncios e partindo corações. partir e deixar partir requer coragem e empenho. e viver ainda dói e doerá. mas pra sempre insitimos. em estufar as veias e pulsar mais. inifinitas cortinas, com palcos atrás. efemeridades. . . não sei porque comecei esse post. acho que foi pra começar a matar as saudades antecipadas.

(sonhos nunca acabam bem.

simplesmente porque nunca acabam!)

 

 

A NOSSA VERSÃO!

00:48 @ 22/06/2008

#

Woyzeckianamente woyzeckiano!

Do verbo woyzeckamar (intransitivo!)

Taí!

 

quase.

02:06 @ 25/06/2008

O relógio marca as 100 horas finais. Mais ainda não é o fim. E nada disso importa. Pensemos com a dupla-razão. Tantas e tantas coisas mudaram desde o primeiro post. Várias coisinhas. Não quero medir a altura do tombo. Nada temos, mas vez em quando é tudo. Tudo mais ou menos quanto. (as vezes eu quero demais e eu nunca sei se eu mereço). Vida, vida, se é assim quero sim. é a hora de Reter o vão, chacoalhar guizos de canduras, afivelar saudades, beirar a ânsia de conter o então, e depois. Ajeitando tudo com urgências, levar nacos de almas, reinventar companhias, calcular senões, improvisar amor e depois, levar também a chave, para o caso de querer retornar" (roteiro para empreender a fuga - Whisner Fraga, revisitado).

(no dia em que ocês foi embora eu fiquei, sentindo saudade do que não foi, lembrando até do que eu não vivi. olhando as ruínas de Santa Cruz. o último homem no dia em que o sol morreu)

um pouco mais de nós.

02:33 @ 25/06/2008

stanislaviskamente, o resultado será de todos: o pipoqueiro da porta do Ruth Escobar (que é marido da pipoqueira da porta do Teatro Oficina), Marcelo e outro segurança da faculdade, que não sei o nome, o querido e grande Juvenal, os vermelhinhos simpáticos do fim de semana, as costureiras do guarda-roupa do CAC, NÓS, o Fi, o Dani, a Luana, o Elvis, o Vi, o Charles, Seo Álavro da adega, o taxista simpático, a voz do além na Augusta, o pai quase-bêbado de fim de madrugada, nossas personagens, Philipe Glass e Jean-Jacques Lemêtre, o amado Woyzeck, o eterno Büchner, a subversão, a internet, o carinho, que esse casamento coletivo faça Bodas de Prata!

Amém.

TODOS SOMOS WOYZECKIANOS.

06:45 @ 29/06/2008

Não há mais Cronos. Não há mais sábios nem cientistas. Fizemos o impossível. Viemos anistiar o século e traduzir no tempo este absurdo de nós. Subverteremos o espaço e tornaremos o palco, as cortinas, e as luzes da Sala Dina Sfat do Teatro Ruth Escobar, uma ilha grega do tempo em que os deuses ainda moravam no Olimpo, e Dioniso vinha em carnes maravilhosas festejar seu rito em homenagem. Chegamos enfim, a Ítaca. Porto dos heróis cansados. Enchente que deságua os fins e os meios. E a partir de agora o início. Inauguramo-nos, modestamente, sacerdotes. Os subversivos herdeiros estão prestes a pisar o solo sagrado desta Terra que finalmente está ao alcance dos olhos marejados de seus bravos guerreiros. Por pobre que pareça, Ítaca não nos traiu. Ítaca nos deu essa maravilhosa viagem, e sem Ítaca não teríamos partido.

            Partir para Ítaca exigiu a coragem de mesmo marinheiros mariados nunca abandonar o mar. Ainda que confessadamente, houvesse o desejo de saltar de peito aberto, resistimos. Que se morrermos afogados, morreremos juntos. Percebidas no outro de nós as razões para o existir teatral, e no teatro as razões para existir, não há mais o que temer, o que de mais importante esta montagem poderia nos trazer já nos trouxe: nós mesmos. 

Em algum lugar deste tempo ancestral que foram estes poucos meses, há a fotografia do segundo exato em que se teceram os fios e os sinais que nos ligam. De ontem em diante. Que sejamos sempre as delicadezas e as mágoas, e nunca apesar das delicadezas e das mágoas. Que toda dor seja bem-vinda. E que toda melancolia traga a beleza criadora das sublimidades.

Olhamos ao redor de nós e sabemos: chegamos. Mais as fúrias do fazer teatral logo começarão a formigar novas fomes. E então, saberemos que Ítaca esteve e pra sempre estará do lado de cá da cena, nos interiores de nós. E com receios e arrepios, saberemos que em breve será hora de partir novamente. Aproveitemos então a curta estadia no país dos palcos, para cumprir os últimos gestos e subverter os últimos limites.

Hoje é de novo o dia das expectativas, o dia da escolha dos textos, das personagens, e hoje eu pergunto, como há muitos anos atrás: será que toda a potência do universo woyzeckiano vai ser transmitido na mesma intensidade do que foi sentido por nós?

 

Não há dúvidas, daqui já ouço os primeiros tremores.

 

Ítaca não terá em breve mais nada para dar-nos, mas sábios somo somos agora, poderemos enfim compreender o verdadeiro sentido de ítacas. Reitero então o óbvio: que serei a primeira a dar os abraços, as flores, e as palavras, pois que sou fã declarada desta montagem. Cada passo, cada percalço, cada mágoa, cada sorriso, cada olhar e cada boca, cada frase, cada gesto, cada woyzeckiano.

Se as estruturas do Ruth Escobar nunca mais serão as mesmas já não me interessa saber, porque nós, os de então, já não somos os mesmos, e se reverberados os abalos sísmicos de dentro de nós não restará nem o pó, nem a areia, nem a sujeira da última cadeira da última fileira desta sala. Ainda que esta seja a última dor e a última delícia que este processo me causa, e estes os últimos versos que escrevo.