TODO SOMOS WOYZECK
17:40 @ 23/04/2008
Todas as personagens da peça têm seu quê de subversivo. Mas acho que o que deve nos interessar é: como deixar isso claro para quem vai nos assistir? Como subverter a platéia? E aí fica incluso uma série de reflexões que vão começar a ser feitas, talvez até mais intensamente, agora que abandonamos em parte o trabalho de mesa e partimos de fato para o trabalho prático de montagem. As dúvidas vão surgir cada vez mais, e podemos nos assegurar disso. Woyzeck não seria Woyzeck, o texto que atravessou incógnito o século XIX e nos chega tão impetuoso como nos chegou, a ponto de merecer uma aula toda especial no nosso cronograma de História do Teatro, como vocês podem observar na programação dada pelo Zécarlos no inicio do semestre.
Woyzeck é o texto que chega sem graça pra mim e que se torna o motivo mais freqüente de minhas reflexões desde a aula em que foi decidido que seria ele o texto de nossa montagem. Woyzeck se tornou uma forma de ver o mundo, exageradamente dizendo.
Mas como trazer todo esse estremecimento pessoal para o palco? Como levar todas as conclusões das coletivas woyzeckianos para a sala Dina Sfat do Teatro Ruth Escobar em Julho? Qual é a nossa realidade material de trabalho? São questões e pontos que pra mim não podem ficar de fora.
Primeiro há algumas pontuações pessoais sobre trechos da peça que eu gostaria de fazer. Primeiro a disposição dos quadros, que não acredito necessariamente que deve ser levada tão a sério. Como por exemplo, a cena do aprendiz que é interrompida por uma cena do Woyzeck em um “campo aberto” e que logo em seguida continua na mesma hospedaria com a surra que o Tamboreiro-Mor dá no nosso herói às avessas. Essa cena (Campo Aberto) poderia, por exemplo, ser seqüenciada pelas cenas de Caserna entre o protagonista e Andres. E assim seria interessante que outras pessoas se manifestassem a respeito dessa disposição sugerindo soluções que possam ser mais interessantes que as propostas pela tradução. Claro que não se trata da mudança pela mudança e claro que se trata apenas de mais uma PROPOSTA.
Depois poderíamos colocar aqui no email os apontamentos pessoais, que às vezes por falta de tempo, não conseguimos fazer na aula a respeito das diversas personagens que circundam a história. Por exemplo, o fato de Büchner ter um pai médico, que de fato entrou em contato com um soldado chamado Woyzeck talvez queira dizer alguma coisa, e por que ele coloca nesse médico o tom alucinante também pode ser pensado pelo grupo. O capitão que é uma personagem que ao mesmo tempo em que é rato também é lírico, e que diz coisas coerentes com sua situação de rato, mas que também nos remete ao seu suposto lirismo “eu só fui a guerra para reforçar meu amor a vida”, a personagem vai a guerra para se salvar, numa situação limite, e sobreviver a qualquer custo, mesmo que isso signifique o sacrifico de outras pessoas, portanto o acho covarde.
Marie nossa querida personagem feminina, feminista? Marie rompe com todas as regras impostas a partir do momento que tem um filho fora do casamento e se permite se relacionar com um homem para satisfazer seus desejos de mulher.
Meu querido aprendiz que diz que o dinheiro está apodrecendo e que o soldado mata por que Deus deu ao homem a vontade de matar, e dessa forma vai em defesa do exemplo máximo de miséria, lirismo e compreensão que é o amado Woyzeck, que subverte a sociedade pelo simples fato de o negá-la por não compartilhar com ela os mesmos valores, e não pela violência pela não aceitação, e sim da forma mais sublime e lírica, sendo humano e amando. Seus valores ultrapassam os das personagens que o exploram, e acredito que mesmo que inconscientemente ele sabe disso, supõe no fundo, e o clímax de sua automarginalização social se dá no momento em que mata sua amada.
Me sinto Woyzeck em quase todos os aspectos da vida. Em não ligar para as ervilhas, não por não me importar com elas ou comigo, mas porque há outras coisas “maiores” com que posso me importar. Por não querer fazer parte da sociedade de injustiças em que vivemos. Por não compartilhar. Por ter perdido há muito a irmandade com as coisas, e por ser essa minha “loucura” meu grande trunfo. Por responder com música e poesia os ataques pessoais. E por não perder jamais o lirismo de fé e crença na vida. Ainda que a aceite como ela é, e saiba, e conheça as profundas cicatrizes de suas contradições.
Eu nego a sociedade não me importando com minha nulidade e efemeridade perante ela. Eu nego a sociedade com amor. E nego dando a outra face. Com coragem, e uma compreensão profunda, que é ancestral à racionalidade, que é no sentido mais lírico e instintivo da palavra, humana.
E é assim que o Woyzeck, em minha opinião não se abnega, não se entrega, apesar de saber que seu corpo é produto de chagas sociais, nem se revolta, woyzeck tem a compreensão instintiva das coisas. Que o capitão jamais terá, e que o médico em sua loucura ainda menos.
Há também o Tamboreiro-Mor, que vê na violência a perfeita saída para sua insegurança pessoal, e o medo de amar alguém que ele não possa possuir tanto quanto a si mesmo, para quem dedica seu maior e talvez único amor. Quantos rapazes não conhecemos assim? O T-M é o maior exemplo de como o sistema de repressão se transmite automaticamente entre as gerações, que de exploradas passam a exploradoras, sem nunca se questionar por quê.
E a partir dele ainda pode ser feita uma outra grande reflexão: todos esses homens vêm de um contexto que talvez nenhum de nós conheça, o da guerra. E aí sim, começa a grande viagem! Pois que coisa mais absurda e embrutecedora! Quantos perdedores não existem nos conflitos bélicos? Se a vida, como meio de produção capitalista e fetichista já nos é o suficientemente absurda que dirá a mortífera guerra! E o que esse absurdo pode causar nas mentes mais supostamente saudáveis!
O que será esse contexto bélico na vida do T-M? E do capitão? E do Andres? E do próprio Woyzeck? Quem são esses homens que em algum momento de suas vidas ficaram cara-a-cara com a morte? E o quanto isso traz de reflexão! Se já é difícil achar um sentido para a própria existência, que dirá quando ela fica a mercê de interesses que não são pessoais, e que não produzem sequer os produtos inúteis do capitalismo do american way of life?
Sim, pensemos.
Numa das críticas que li a respeito da peça, o autor dizia que as varas colhidas por Woyzeck e Andres seriam “talos de madeira que seriam usados para açoitar seus colegas soldados”. E as autoridades, como o Capitão são “muito mais prostituídas do que constituídas”. Pensemos no capitão como pós-aprendiz-bêbado-subersivo. O que faz com que ele vire capitão? A alienação que faz com que o explorado veja na exploração não a causa de seus problemas, mas sim uma saída. Todo explorado que aceita sua exploração almeja um dia mudar de papel, e assim se mantém o sistema ancestral de poder desse bicho esquisito que é o homem.
Voltando as nossas personagens subversivas ainda falta falar do misterioso Andres, sempre cantarolando alguma música, mas que assim como se supõe erroneamente o autismo e a esquizofrenia woyzeckiana, Andres se revela uma persona muito sensata. Trazendo Woyzeck para a realidade dos fatos, não se sujeitando ao experimento a que o colega se sujeita, Andres também acaba por subverter a ordem, ao se mostrar não um soldado sisudo, ou violento, mas lírico, o suposto auterego do quase revolucionário Woyzeck.
Personagens que tem até seu quê de expressionistas tamanha sua subversão como a avó, que conta a história do menino que vê que a Terra é um porto destruído e sugere as mais belas imagens concretas, ou o cuidador do filho de Marrie que é um Bufão!
O Sensacional Charlatão, que se coloca à parte de todo o sistema social e que por isso tem toda a liberdade de analisar a sociedade que ele sequer pertence, por ser artista-reflexivo-homem-da-Praça-da-Sé, joga na cara de todos nós nossa bestialidade humana, e o quanto o cavalo Woyzeck pode ser parecido com algo que conhecemos bem de perto.
Kathe a puta que se diz puta e que não lamenta seu estado de puta. Que é mulher, suposta maldição bíblica, tão quente quanto a outra que se vai, além do traficante Pablo Escobar (rs) que completa o quadro da salada de misérias humanas, tão diversas entre si e tão próximas, tão irmanadas justamente por serem humanas.
E então pergunto mais uma vez, será que tudo isso, toda essa riqueza vai ser transmitida na mesma intensidade que está sendo sentida por nós?
O texto que causa um estranhamento inicial, causará o espanto e estremecimento que os monólogos woyzeckianos nos propõe no momento de serem ditos? O que acontecerá com a platéia quando ouvir que “todo mundo é um abismo” ou “quer ser mais que pó, areia e sujeira?” As estruturas do Ruth Escobar continuarão as mesmas? rs
Eu espero sinceramente que não. E desejo profundamente que todos estejam tão mergulhados nessa viagem como eu estou.
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Comentários
(09:24 @ 24/04/2008) Daniel disse:
A história de um cara que foi decapitado por ter matado a mulher, trabalhou em um a fábrica de perucas, conviveu com neuróticos de guerra, ambientalizado em meio de pessoas provavelmente mais seguras de suas opiniões do que ele, submetido a experiências médicas (surreais, de um mode geral ....) à sobreviver comendo apenas uma ervilha por dia. Alguém se identifica? ou pelo menos assume? Sentir-se um peixe fora d'água, exige no mínimo, que pessoas tão inseguras quanto, se alto-afirmem utilizando os mais calados e pensativos (que não por isso são mais fracos), e os fazendo acreditar que são menores. A vida de Woyzeck, anteriormente à passagem remetida na obra, revela exatamente de quem e do que estamos falando, ou seja, da nossa realidade, íntima, profunda, que só conhecemos quando estamos sozinhos, por esta razão, a genialidade e imortalidade da obra! Beijo a todos e feliz por estarmos juntos nessa temporada .... Daniel Scucuglia
(14:38 @ 25/04/2008) Pequena disse:
Jac ta lindooooo, que orgulho