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Que as referências biográficas sobre o dramaturgo alemão sejam escassas no sistema Google de pesquisa, tudo bem, mas que sequer existam no arquivo eletrônico do Instituto Goethe, é realmente chateante. Na sede italiana não há sequer referências das peças do dramaturgo, e em todo o sistema as obras que fazem referência a Büchner são mínimas. Depois de muito tentar achei, por acaso, uma linha do tempo sobre o dramaturgo, ainda assim em alemão, que tive que traduzir para o inglês e só então tentar decifrar para o português.  A intenção era descobrir até que ponto o caráter subversivo permeia a obra dramática de Büchner. As respostas ainda não são esclarecedoras, mas começaram a surgir algumas sugestões de novas pesquisas ao menos, e a partir delas criar o estudo que se segue.

Karl George Büchner nasce em 1813 numa cidade do interior da ainda não formada Alemanha, Godellau, e três anos depois se muda com a família para Darmstadt. Aos nove anos ingressa numa escola privada. Aos 14 anos entra numa escola secundária de Darmstadt e começa a ler textos clássicos da cultura Latina. Aos 18, por influência do pai médico, começa a estudar medicina na Universidade de Estrasburgo e conhece Minna Jaeglé com quem mais tarde irá se casar. Além dos estudos na Universidade, Büchner reflete sobre a situação política da Alemanha e acredita que a revolução, o confronto social é necessário para modificar a situação política. Em 1834 passa a fazer parte de uma sociedade política conhecida como “Sociedade para os Direitos do Homem”, onde escreve o panfleto “Paz às cabanas! Guerra aos palácios!” convocando a população a uma insurreição em Hesse e recebe por isso, juntamente com seus companheiros de sociedade, uma ordem de prisão que o levará mais tarde ao exílio. No ano seguinte é interrogado por um júri de magistrados em Offenbach, e no mesmo ano escreve sua primeira obra dramática “A Morte de Danton”, que é a primeira obra realista alemã e que trata dos desdobramentos da Revolução Francesa e analisa as causas de seu fracasso, e “Lenz”, uma homenagem a um companheiro de um movimento literário conhecido como “a jovem Alemanha”.

No ano seguinte é exilado na Suíça, onde escreve a comédia “Leonce e Lena”, e passa a dar aulas da Universidade de Zurique. Em setembro do mesmo ano começa a escrever Woyzeck, inspirado na história de um homem chamado Johan Franz Woyzeck que encontra nos laudos médicos da biblioteca paterna. A única obra que é publicada em vida é a primeira, diz-se que sua esposa teria queimado muitos de seus escritos. No ano seguinte, acometido de febre tifóide, Büchner morre aos 24 anos, no auge de sua juventude contestatória, que por mais que não seja lembrada nos verbetes dos arquivos do Instituto Goethe, com certeza serviu de inspiração para os outros jovens, seus contemporâneos que por sorte e saúde tiveram a possibilidade de viver o suficiente para se tornar muito mais conhecidos.

Büchner também servirá de inspiração, algumas décadas mais tarde, aos naturalistas e expressionistas em seus dramas sociais. Quando o texto Woyzeck é descoberto, após passar por um delicado processo de restauração dá origem a um libreto de ópera de Alan Berg, sob o titulo de Wozeeck.

A geração de Büchner está para a Revolução Francesa assim como a nossa está para a ditadura e o movimento estudantil, claro que consideradas as devidas proporções. Mas Büchner é um jovem que vê com absoluta nitidez a sociedade em que faz parte, e talvez por isso saiba denunciá-la tão bem, sendo seus dramas atemporais, e quase exclusivos na história da dramturgia mundial.  Woyzeck é o primeiro protagonista miserável, e no entanto não é um símbolo realista, ou naturalista, é um símbolo humano do que a luta pelo poder e sistema de opressão do homem contra o homem é capaz de fazer.

A influência do “Sturm Und Drang”, o movimento que propõe rupturas artísticas importantes por proclamar a liberdade criadora do artista, e que teve nas figuras de Goethe e Shiller os principais líderes, ainda encontra na obra de Büchner alguns ecos que podem ser vistos talvez na proposta estética de Woyzeck, que não se pode afirmar com certeza que seja esta que apresentamos, de quadros esparsos, uma vez que o dramaturgo morre sem de fato terminá-la. Mas que esse é um ponto importante na análise woyzeckiana, não há dúvidas, uma vez que a pesquisa artística só vai romper de fato com as formas estéticas nos movimentos de vanguarda do século XX, que também têm na Alemanha um dos palcos principais.

Woyzeck é um texto altamente subversivo, e a influência dos tristes ecos da Grande Revolução se faz presente em todas as obras de seu autor, talvez porque o tema permeava os discursos dos jovens liberais da década de 1830, quando o capitalismo começa a se estabelecer como sistema econômico e já começam a surgir os primeiros descontentamentos sociais, e a revolução passou a representar nesse caso o estabelecimento dos ideais burgueses e não os do povo explorado pelo sistema de produção.

Logo surgirá Karl Marx e as primeiras insurreições européias, infelizmente Büchner não assiste a Primavera dos Povos, nem sequer lê os estudos do teórico do comunismo. Aliás, a influência marxista sobre Büchner parece que se dá do lado avesso. Quando Büchner escreve Woyzeck, sua última obra dramática, Marx ainda com 17 anos ingressava na Universidade, e só escreve seu primeiro livro em 1841, cinco anos após a morte do dramaturgo alemão. Não seria impossível que o próprio Marx tivesse lido Büchner.

No entanto é nítido o cunho social e subversivo da obra deste jovem contestador que morreu tão cedo, e que talvez por isso que não tenha feito parte dos grupos de esquerda que levariam as insurreições de 1848 que ocorreram por toda a Europa e que são o embrião de todas as revoluções sociais que se seguiram. Mas Büchner acaba por se decepcionar com a luta política. Não participa da grande Revolução Francesa nem participará da revolução socialista da Rússia, e por isso encontra-se neste estado apático que talvez seja o mesmo em que vivemos, apesar de sua geração nem de longe lembrar a alienação e caretice da nossa.

Talvez por isso que os revolucionários da Rússia de 1917 esperavam tão ansiosamente a eclosão da revolução na pequena Alemanha, pátria mãe do teórico do comunismo, Karl Marx, e de uma juventude cheia de talento que além do grande Goethe, Shiller, Kleist, também inclui George Büchner, que não fez parte desses grupos pelo simples fato de não ter tido tempo, talvez se o tivesse seria tão citado nas obras de estudo literário quanto seus antecessores e compatriotas.

A obra de Büchner ao contrário dos mestres Goethe e Shiller é abominada na Alemanha nazista e considerada mais um dos exemplos de arte degenerada.

Essas são algumas das peças do imenso quebra-cabeças que agora representa a biografia deste autor que de absolutamente desconhecido para mim, tornou-se uma referência importantíssima em minha formação política e teatral, só é realmente lamentável encontrar tão poucos estudos em língua portuguesa a respeito de sua vida e obra. 

 

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