Grupos

tem.po.ra.li.da.de

12:26 @ 29/04/2008

E aqui vai a resposta do nosso querido diretor dionisíaco:

Aproveitando para postar mais uma imagem,  dessa vez é Van Gogh, outro expressionista sugestão da Marrie-Leyde!

 

 

"Eis que vamos nós à tentativa de dar conta das discussões infindáveis que se instauram em um processo de criação verdadeiro tal qual estamos vivendo...
 
temporalidade
tem.po.ra.li.da.de
sf (lat temporalitate) 1 Qualidade de temporal ou provisório. 2 Estado ou condição do que não é efetivo, do que não é perpétuo. 3 Bens temporais, coisas mundanas. 4 Interinidade. sf pl Benesses, rendas de eclesiásticos; prebendas. Temporalidades da vida: os bens desta vida, os ganhos, os proventos.
 
Queridos, compartilhando das angústias de todos e sobretudo, compreendendo as necessidades de vocês terem mais "circunstâncias dadas" para a criação de suas personagens tento aqui sistematizar um pouco mais as nossas discussões ao longo do trabalho de mesa.
Com ajuda do pai dos burros acima, pude perceber que o conceito de temporalidade se encaixa tanto quanto o conceito de atemporalidade que estávamos dando ao texto. Mais do que definir um momento histórico preciso, a qualidade que vejo em woyzeck é a de "estado ou condição do que não é efetivo, do que não é perpétuo".
Confesso que uma das minhas tendências iniciais foi a de localizar o Woyzeck históricamente em nossa montagem, inclusive, propondo como exercício cênico, uma releitura atualizada das relações entre as personagens. No entanto, hoje, creio que se nos prendermos especificamente a um ano de nosso calendário estaremos falando de um homem específico, que viveu em um momento específico e que teve data para nascer e para ser enterrado. Nosso Woyzeck vive hoje, nesse mundo surreal, globalizado, construído históricamente pelas batalhas de nossos antepassados que estiveram no entreguerras, na cidade abandonada, no nordeste. Nosso Woyzeck vive num espaço definido pela sua relação com o mundo e se veste tal e qual aqueles seres que podemos ver como indefinidos no lgo São Francisco. Ou seria possível definir o ano em que os mendigos vivem?
Sei que fica extremamente impálpavel partir desses pressupostos, mas a idéia é outra, que partamos dos locais e datas históricas para construir esse lugar destruído pela guerra, em que faltam suprimentos, em que o comércio não vive senão dos restos que sobraram e dos destroços que são encotrados pelo chão. Não é sem dúvida com prestobarba que o capitão se barbeia, mas com uma uma navalha que apesar de pertencer a um período específico ainda pode ser encontrada hoje. A questão não é definir se Woyzeck é um soldado da primeira ou segunda guerra, a questão que me parece mais latente é definir que Woyzeck é um ser da guerra e que as relações são pautadas nesse universo retratado nas imagens que Jack publicou no blog, algo um tanto quanto envelhecido, mas onde não se figuram retratos precisos de um período e sim, corpos marcados por experiências de vida.
Nesse sentido, creio que podemos adotar o período entre-guerras para enteder o homem que vive no mundo de woyzeck, mas não podemos perder de vista que nossos moradores de rua também pertencem a um campo de batalha atroz, bem como nossos nordestinos ressecados, ou indíos lutando na zona da mata.
O lugar de Woyzeck é sim, na minha opinião, um lugar imaginário, acinzentado pela história mas que poderia estar a 50 anos atrás como poderia existir daqui a cinquenta anos.
As personagens não caminham tanto segundo o olhar de uma época, mas segundo as suas necessidades básicas de buscar alimentos, roupas e suprir suas carências num mundo devastado. No entanto, também não vejo o nosso Woyzeck na alemanha ou na itália, nem no Japão depois da bomba nuclear, vejo nosso woyzeck num brasil-mundo, cultivado pela barbárie humana, em que os figurinos, as cores e os cenários retratam muito mais um ser no mundo do que um estar no mundo, ou seja, a cara da encenação segundo a vejo a partir de nossas discussões retrata muito mais a complexidade das personagens e de seus carácteres e sentimentos do que propriamente o espaço-tempo em que suas construções foram edificadas ou suas roupas costuradas. O conceito de atemporalidade segundo o qual penso que podemos nos aprofundar é aquele a partir do qual Marie usa um vestido de algodão cru, tingindo com tons de terra e cinza, não porque vive no interior do nordeste, mas porque seu interior, seu estado sentimental e psicológico está amargando e se tornando cada vez mais áspero, se borrando das imundície da barbaridada das relações humanas estabelecidas entre as personagens.
A questão que eu lhes proponho é então, como buscar a mesma poesia que encontramos no texto, nas falas e nas idéias das personagens na produção dos elementos como cenário e figurino, não abordando esses aspectos a partir de uma perspectiva realista, mas antes, a partir do simbolismos capazes de fazer com que as roupas que as personagens vestem sejam como sua segunda pele, abarrotada pelas experiências de vida pelas quais essas personagens passaram. E quais são essas experiências? As vivências que desde sempre estabeleceram relações de poder, abuso, humilhação, manipulação, instinto seja nos idos dos cínicos filósofos gregos, passando pelos homens trabalhadores da idade média ou pelos nossos operários e mendigos de hoje.
Coloquemos nosso Woyzeck no dia de hoje, mas como se hoje fosse ontem ou pudesse ser amanhã. Vistamos nosso Woyzeck como um homem, que antes de ser soldado, é um ser social desgastado pela história da humanidade.
Por fim, também não tenhamos medo de trazer essas referências todas, seja a navalha, seja a prestobarba, para que a partir do concreto, possamos perceber a forma que daremos aos nossos corpos. Nosso trabalho de mesa discutiu o universo espiritual de Woyeck... Pois que o universo carnal seja trazido na carne enquanto nossos ensaios se desenrolam, para que assim, nosso processo, continue sendo um processo de construção e criação e não apenas de transposição de idéias previamente estabelecidas.
Evoé,
saudades e até terça,
Fi

Comentários