Grupos

A vida acontece em grupos.

Büchner e Beckett (?!)

14:03 @ 11/06/2008

Segue o texto e a reflexão de minha amada e admirada cúmplice Joice Marie Tavares (bacante! rs):

 

Bom, já faz um tempo que lendo o Woyzeck, mais especificamente a fala da nossa avó-que não necessariamente é uma avó, como já discutimos, mas sim um ser sem idade, talvez mitológico assim como Tirésias ou as pitonisas de Apolo e seu oráculo; um ser que viverá sempre, não morrerá porque não nasceu, está presente em todos os tempos e pode muito bem metaforicamente representar o tempo, não linear, mas circular e não subdividido, mas contínuo – lembrei da última fala da peça de Samuel Beckett(o maior expoente do teatro do absurdo) “Fim de Partida”. Quando li esta peça pela primeira vez (há mais ou menos cinco anos atrás) fiquei extasiada como se estivesse diante de um abismo! Fiquei ainda mais impressionada quando resolvi pegar esta última fala de Clov em Fim de Partida de Beckett e ler em seguida da fala da avó do texto de Büchner. Estou empolgadíssima com essa pesquisa que comecei já faz um tempo, e sinto imensa necessidade de compartilhar com meus companheiros Woyzeckianos, também coloco à disposição de vocês um artigo muito bacana que me ajudou bastante a compreender melhor não só o Beckett, mas também o nosso Büchner. Leiam vocês, assim como eu fiz e reparem por si mesmos as semelhanças das falas:


Última fala de “Fim de partida” de Samuel Beckett


Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em sentar, mas já que sentei, ficarei sentado mais um pouco, depois levando e busco o que comer. Mas você não levantará e nem conseguirá o que comer. Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. Estará rodeado pelo vasio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, então você será como um pedregulho perdido na estepe”.


Fala da avó em “Woyzeck”


Era uma vez um menino pobre, que não tinha pai, nem mãe. Tudo estava morto e não havia ninguém mais no mundo. Tudo morto. E o menino andou, procurando dia e noite. E já que não havia ninguém mais no mundo, quis ir para o céu, onde a lua olhava com tanta simpatia. E quando chegou na lua, viu que era um pedaço de madeira podre. E então foi para o Sol, e quando chegou no Sol, viu que era um girassol murcho. E quando chegou nas estrelas, viu que eram mariposas douradas, estavam espetadas, como se espetam os vaga-lumes nas árvores. E quando quis voltar pra terra, a terra era um porto destruído. E o menino estava sozinho. Então se sentou e chorou, e até hoje ainda está sentado, sozinho.


  Enquanto a fala da avó parece contar a história do nosso Franz Woyzeck, a fala de Clov caberia perfeitamente na boca do próprio no fim!!!!! A impressão que tenho às vezes enquanto leio Woyzeck e Beckett(e não sei se exagero em dizer isso, mas digo) é a de que o Beckett poderia ser um Büchner levado às últimas conseqüências do absurdo!

  E as semelhanças entre o absurdo de Beckett e o épico-dramático de Büchner não se resumem a apenas essas falas. Fiquei ainda mais impressionada quando ao ler Fim de Partida inteira novamente, comecei a prestar mais atenção nas recorrentes presenças de referências bíblicas, o que em Woyzeck também acontece. As semelhanças entre as peças estão presentes na forma e além disso parece que ambos, Beckett e Büchner dialogam.

  O que me fez começar a pensar mais profundamente no que é Deus em Woyzeck e no que estava o Büchner querendo dizer com tantas referências a Deus ao longo do texto, foi a minha dificuldade com o momento Marie/Bíblia; já que eu estava com Fim de Partida e Woyzeck nas mãos resolvi buscar mais respaldo para uma pesquisa que me ajudasse a entender melhor o que significava a Marie e a bíblia e todas as outras referências religiosas do texto. Comecei a pensar no que é deus em Woyzeck e no Büchner.

  Lembro agora, do momento em que estávamos todos fazendo exercícios de adaptação do Woyzeck e do capitão e da seguinte cena: Mayara e Daniel; ela, uma empregada cuidadora de um velho; ele, o velho. O velho numa total relação de dependência física da empregada, e ela também subordinada a ele. O Filipe comentou a semelhança dessa cena com a relação das personagens de Fim de Partida, Hamm e Clov. Hamm, cego e paralítico pergunta o tempo todo a Clov como está o tempo e as coisas fora do enclausuramento dos dois. De sua imobilidade Hamm administra as últimas provisões de ambos. Penso, talvez não sem exagero, que o Woyzeck poderia muito bem ser o Clov e o capitão o Hamm:


Capitão: Como está o tempo Woyzeck?

Woyzeck: Mal senhor capitão, mal, muito vento!


Hamm: E o Sol?

Clov: (ainda olhando) zero

Hamm: Deveria estar se pondo. Procure bem.

Clov: (depois de procurar) Dane-se o Sol

Hamm: Então já está escuro?

Clov: (ainda olhando) não.

Hamm: Está o quê então?

Clov: (olhando) cinza.(abaixando a luneta e voltando-se para Hamm, mais alto) Cinza! (mais alto ainda) CIIINZA!

Hamm: (sobressaltado) cinza? Você disse cinza?

Clov: preto claro. O universo todo.


  Intrigada e empolgada com tais semelhanças, comecei a buscar artigos, textos, livros, qualquer coisa que pudesse me esclarecer ainda mais essa relação Büchner/Beckett, não achei nada que explorasse tal assunto e encontrei um artigo de nome: Beckett: entre a cruz e as letras – uma leitura de Fim de Partida. Com certeza Dioniso e Apolo me ajudaram nessa, tamanha é a sintonia do artigo com minhas dúvidas a respeito do elemento deus na obra desses dois. O artigo aborda justamente a religiosidade no texto de Beckett e na biografia dele, detalhe: na aula do Zé Carlos cujo tema era Büchner foi dito que o autor de Woyzeck morou com um pastor protestante e teve um noivado secreto com a filha desse pastor. Beckett tinha uma família onde a religião era o protestantismo.

  Samuel Beckett nasceu no subúrbio de Dublin, numa Irlanda marcada historicamente pelas disputas religiosas entre católicos e protestantes.

  As peças de Beckett refutam dogmas do protestantismo, trata os fundamentos da vida cristã pelo viés da desesperança, a ausência de salvação , dos fracassos humanos e da frustração da criação do mundo.

  “Fim de partida' é uma obra representativa e bastante conhecida do universo típico beckettiano. Escrita originalmente em francês, publicada em 1957, o texto tem quatro personagens e é composta de um único ato. O enredo transcorre em torno de uma possível partida de Clov, enquanto Hamm, seu decrépito senhor, paralítico e cego, administra o fim das provisões: alimentos, remédios, sonhos, ideais. Neste fundo trágico permeiam diálogos preenchidos de humor cáustico. Os pais de Hamm, Negg e Nell acentuam as relações de dependência e solidão num paralelismo constituídos de doses grotescas, escatológicas, poéticas e, particularmente românticas”. Trecho do artigo de Alexandra Gouvêa Dumas

  Em Fim de Partida, as personagens vivem num universo claustrofóbico, que lembra o fim do mundo bíblico, o dilúvio: Hamm pede sempre para que Clov olhe o tempo, na bíblia quem faz isso é um pombo. O próprio Hamm diz: “O fim está no começo,e no entanto continua-se”.Tanto em Fim de partida quanto em Woyzeck o fim está no começo, lembremos das imagens apocalípticas anunciadas por Woyzeck logo no início do texto. Em diálogo com Andres e depois com a Marie ele retoma a fala do clarão por sobre a cidade, um estrondo de trombetas e o prenúncio de uma tempestade (seria dilúvio?).

  Em ambos os textos a entidade deus é inutilmente envocada. Mais do que uma prova da atemporalidade de nosso velho Büchner, que pela primeira vez na Alemanha não só rompe na forma com a estrutura aristotélica do drama, mas também pela primeira vez faz de um marginal o protagonista de sua obra. E agora para mim não restam dúvidas de que o nosso Büchner refuta os dogmas e valores do protestantismo e a onisciência e onipresença absoluta de um deus. Depois dele o teatro moderno nunca mais foi o mesmo, depois dele minha vida nunca mais será a mesma, a NOSSA visão de mundo jamais será a mesma.

 

 

Comentários

(15:37 @ 12/06/2008) Aprendiz disse:
Somos só o estopim! Levo meus dois olhos ao judeu, se depois de tudo isso não surgir ao menos uma monografia! rs É esse espírito de pesquisa, reflexão, e acima de tudo, de ser-pensante que me fascinam nesta mulher eu admiro desde o minuto que pisou os pés nas nossas vidas woyzeckianas! Toda a relação além de absurdamente válida é ainda ponto de partida para tantas outras infinitas reflexões, e mais que tudo asociações, já que é tudo uma coisa só! Partamos enfim, para Ítaca sem esperar maiores riquezas das que Ítaca já nos deu! (Ítaca não nos traiu, não nos trai, não nos trairá!)