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| De: | "Edilenice Passos" <edi...@infolegis.com.br> |
| Assunto: | Justiça de fazer rir : Ações esdrúxulas abarrotam os tribunais |
| Data: | Sun, 30 Mar 2008 09:52:31 -0300 |
nos tribunais
Justiça de fazer rir
Ações esdrúxulas abarrotam os tribunais, fazendo prosperar uma verdadeira
indústria de indenizações. Instituição americana cataloga casos inusitados
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Daniela Lima
Da equipe do Correio
Tribunais e cortes do Brasil e do mundo geralmente são foco de atenção
quando sobre eles pesa a responsabilidade de julgar crimes hediondos ou
causas de grande repercussão. Mas, algumas vezes, os holofotes se voltam
para a Justiça quando a ela cabe decidir por causas tão inusitadas que
parecem fruto da mente de um comediante. Em janeiro, nos Estados Unidos, um
empresário do Mississipi foi condenado a pagar US$ 750 mil a um encanador,
por ter lhe tomado a mulher. No mesmo mês, a canadense Sandy Bergen, de 23
anos, conseguiu uma indenização de US$ 50 mil de um traficante por ter
sofrido uma overdose.
Mas não é preciso ir tão longe. No Distrito Federal, mais de três horas e
meia de negociações conseguiram evitar que um conflito envolvendo uma vaca e
uma plantação de maxixe chegasse à Justiça. "Realmente vemos algumas coisas
bizarras. O nosso sistema é aberto para qualquer um que queira ingressar com
uma ação. As coisas mais malucas do mundo podem ser protocoladas", conta o
perito em direito civil Frederico Viegas.
No Brasil, há um crescente volume de processos que reivindicam indenizações.
"Dois fatores contribuíram muito para isso. Primeiro, a Constituição de
1988, que reconheceu o dano moral, e depois o Código de Defesa do
Consumidor, que deu ciência aos cidadãos de seus direitos. Isso tem um lado
positivo, mas é preciso ter cautela para não corrermos o risco de enveredar
para a indústria do dano", avalia a presidente da Ordem dos Advogados do
Brasil-seção DF, Estefânia Viveiros.
No ano passado, só no Fórum de Brasília, foram protocoladas mais de 6 mil
ações com pedido de indenização e outras 5,7 mil solicitando reparação de
danos. "Desde 1988 tivemos decisões bizarras, nas quais o juiz aplicava
indenizações ao modelo americano. Foi aí que o Superior Tribunal de Justiça
publicou algumas súmulas e estabeleceu um teto", ressalta Viegas.
Entre as decisões mais controvertidas da Justiça brasileira está o
julgamento de uma ação de danos morais movida em 1997, no Maranhão, por um
dono de vidraçaria, que teve o cheque devolvido indevidamente. O valor, na
época, era de menos de quatro salários mínimos. Os advogados dele pediram R$
255 milhões. Um juiz do estado concedeu a indenização e ordenou uma devassa
nas agências do banco para recolher o dinheiro. O banco conseguiu reduzir o
valor da indenização para 10 vezes o valor do cheque devolvido.
OS VENCEDORES DO STELLA AWARDS EM 2006
1º lugar
Merv Grazinski, de Oklahoma, comprou um motohome, com direito a piloto
automático. Ao voltar de uma cidade vizinha, Merv ligou o piloto automático
para 100km/h e foi preparar um café na traseira do veículo, que saiu da
estrada, bateu e capotou. Ele alegou que o manual não explicava que o piloto
automático não permitia que o motorista abandonasse a direção e, por isso,
foi indenizado em US$ 1,7 milhão e um novo veículo.
2º lugar
Kara Walton, de Claymont, Delaware, não queria pagar o couvert de US$ 3,50
de uma casa noturna. Ao escapar pela janela do banheiro feminino, caiu e
quebrou os dois dentes da frente. A casa noturna a indenizou em US$ 12 mil,
mais despesas dentárias.
3º lugar
Amber Carson, de Lancaster, Pennsylvania, jogou refrigerante na cara do
namorado em um restaurante. Ao se levantar, escorregou no chão molhado e
quebrou o cóccix. O restaurante a indenizou em US$ 113,5 mil.
4º lugar
Jerry Williams, de Little Rock, Arkansas, pulou a cerca que separa sua
propriedade da de seu vizinho e atirou repetidamente, com uma espingarda de
chumbinho, contra o cachorro beagle que estava encoleirado no quintal. Jerry
foi mordido na bunda e processou o vizinho. Foi indenizado em US$ 14,5 mil
mais despesas médicas.
Empatados em 5º lugar
Kathleen Robertson, de Austin, Texas, andava por uma loja de móveis,
tropeçou no próprio filho, e torceu o tornozelo. A loja teve que pagar US$
780 mil. Também em quinto lugar, Terrence Dickinson, de Bristol,
Pennsylvania, roubava uma casa que estava vazia na ocasião (seus moradores
estavam viajando) e tentou sair pela garagem. O que Terrence não sabia era
que o sistema automático para abrir a porta da garagem estava com defeito,
não conseguindo, assim, ir embora. O ladrão passou oito dias trancado na
garagem, alimentando-se de ração para cachorro e refrigerante quente, até
que a família o encontrasse lá. Alegando que a situação lhe causou "profunda
angústia mental", Terrence ganhou, nos tribunais, uma indenização de US$ 500
mil.
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DESPACHOS MILIONÁRIOS
Em uma das decisões mais célebres das cortes americanas, Kathleen
Robertson, do estado do Texas, recebeu US$ 780 mil de indenização de uma
loja de móveis, por ter tropeçado numa criancinha que corria. Por conta da
queda, Kathleen quebrou o tornozelo. Um detalhe: a criança que causou o
tombo era seu filho. Casos como esses são divulgados por uma instituição
independente que cataloga as decisões mais peculiares dos magistrados
americanos.
A instituição criou um prêmio, o Stella Awards, que faz um ranking com
as melhores histórias. O nome do prêmio, aliás, é uma homenagem à mulher que
o inspirou. Stella Liebeck derrubou café quente no colo, sofrendo
queimaduras de terceiro grau. Ela processou a empresa que lhe vendeu o café,
o McDonald´s, e recebeu US$ 2,9 milhões.
A divulgação dos vencedores do Stella Awards é aguardada por
professores de direito. Uma ação que virou exemplo nas faculdades é a movida
pelo médico Richard O. Phillips contra sua ex-namorada Sharon Irons. Ele a
acusou de ter guardado sêmen para fazer uma inseminação artificial. Phillips
alegou que só tomou conhecimento da existência da criança quando Sharon deu
entrada em um pedido de pensão. O médico processou a ex por danos morais,
roubo (de esperma) e fraude. A Justiça americana recusou as duas últimas
acusações, alegando que o esperma não foi roubado e sim dado, mas manteve o
processo por danos morais.
A polêmica da vaca X o maxixe
A juíza Glaucia Falsarella é coordenadora de um programa pioneiro no
judiciário brasileiro, o Justiça Comunitária. Desde 2002, ela e um grupo de
servidores do Tribunal de Justiça do DF e Territórios treinam agentes
comunitários para resolver demandas mais simples em suas cidades. Uma dessas
foi a disputa entre dois vizinhos por conta de uma vaca e uma plantação de
maxixe. "Aconteceu na zona rural de Ceilândia. As duas famílias eram amigas
há muito tempo, mas começaram a discutir porque a vaca de uma, sempre que
queria beber água, destruía a plantação de maxixe da outra", conta a juíza.
O dono da plantação de maxixe foi ao fórum de Ceilândia e protocolou
uma ação contra o dono da vaca. "Quando chegou a esse ponto, o dono do
maxixe já havia ameaçado colocar cerca elétrica no local e matar a vaca",
lembra Falsarella. "A coisa ficou tão feia que o dono do maxixe decidiu
retirar a ação, mas procurou a Justiça Comunitária", narra a juíza. Foram
dias de investigação. Os agentes foram à plantação, conheceram a vaca, foram
ao rio e até carrapato pegaram. Depois, marcaram uma reunião com as duas
famílias, que, após mais de três horas e meia de discussões, chegaram a um
acordo. "Um decidiu afastar a cerca para auxiliar o acesso da vaca ao rio e
o outro resolveu comprar outro bovino. Segundo ele o bicho era um animal
burro, que iria insistir no caminho errado para o resto da vida", acrescenta
Falsarella.
Correio Braziliense, 30/3/2008
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