|
O avanço sobre as reservas
hÃdricas do maior complexo ambiental do mundo, segundo os especialistas,
pode ser o começo de um processo desastroso para a Amazônia. Captação é
feita por super petroleiros no território do Amapá.
05/02/2010 - 01h02 Navios-tanque traficam água de rios da Amazônia
Por Chico Araújo, da Agência Amazônia |
BRASÃLIA – É assustador o tráfico de água doce no Brasil. A denúncia está na
revista jurÃdica Consulex 310, de dezembro do ano passado, num texto sobre a
Organização Mundial do Comércio (OMC) e o mercado internacional de água. A
revista denuncia: “Navios-tanque estão retirando sorrateiramente água do Rio
Amazonasâ€. Empresas internacionais até já criarem novas tecnologias para a
captação da água. Uma delas, a Nordic Water Supply Co., empresa da Noruega, já
firmou contrato de exportação de água com essa técnica para a Grécia, Oriente
Médio, Madeira e Caribe.
Conforme a revista, a captação geralmente é
feito no ponto que o rio deságua no Oceano Atlântico. Estima-se que cada
embarcação seja abastecida com 250 milhões de litros de água doce, para
engarrafamento na Europa e Oriente Médio. Diz a revista ser grande o interesse
pela água farta do Brasil, considerando que é mais barato tratar águas usurpadas
(US$ 0,80 o metro cúbico) do que realizar a dessalinização das águas oceânicas
(US$ 1,50).
Há trás anos, a Agência Amazônia também denunciou a prática
nefasta. Até agora, ao que se sabe nada de concreto foi feito para coibir o
crime batizado de hidropirataria. Para a revista Consulex, “essa prática ilegal,
no então, não pode ser negligenciada pelas autoridades brasileiras, tendo em
vida que são considerados bens da União os lagos, os rios e quaisquer correntes
de água em terrenos de seus domÃnio (CF, art. 20, III).
Outro
dispositivo, a Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000, atribui à Agência Nacional
de Ãguas (ANA), entre outros órgãos federais, a fiscalização dos recursos
hÃdricos de domÃnio da União. A lei ainda prevê os mecanismos de outorga de
utilização desse direito. Assinado pela advogada Ilma de Camargos Pereira
Barcellos, o artigo ainda destaca que a água é um bem ambiental de uso comum da
humanidade. “É recurso vital. Dela depende a vida no planeta. Por isso mesmo
impõe-se salvaguardar os recursos hÃdricos do PaÃs de interesses econômicos ou
polÃticos internacionaisâ€, defende a autora.
Segundo Ilma Barcellos, o
transporte internacional de água já é realizado através de grandes petroleiros.
Eles saem de seu paÃs de origem carregados de petróleo e retornam com água. Por
exemplo, os navios-tanque partem do Alaska, Estados Unidos – primeira jurisdição
a permitir a exportação de água – com destino à China e ao Oriente Médio
carregando milhões de litros de água.
Nesse comércio, até uma nova
tecnologia já foi introduzida no transporte transatlântico de água: as bolsas de
água. A técnica já é utilizada no Reino Unido, Noruega ou Califórnia. O tamanho
dessas bolsas excede ao de muitos navios juntos, destaca a revista Consulex.
“Sua capacidade [a dos navios] é muito superior à dos superpetroleirosâ€. Ainda
de acordo com a revista, as bolsas podem ser projetadas de acordo com
necessidade e a quantidade de água e puxadas por embarcações rebocadoras
convencionais.
Há seis anos, o jornalista Erick Von Farfan também
denunciou o caso. Numa reportagem no site eco21 lembrava que, depois de sofrer
com a biopirataria, com o roubo de minérios e madeiras nobres, agora a Amazônia
está enfrentando o tráfico de água doce. A nova modalidade de saque aos recursos
naturais foi identificada por Farfan de hidropirataria. Segundo ele, os
cientistas e autoridades brasileiras foram informadas que navios petroleiros
estão reabastecendo seus reservatórios no Rio Amazonas antes de sair das águas
nacionais.
Farfan ouviu Ivo Brasil, Diretor de Outorga, Cobrança e
Fiscalização da Agência Nacional de Ãguas. O dirigente disse saber desta ação
ilegal. Contudo, ele aguarda uma denúncia oficial chegar à entidade para poder
tomar as providências necessárias. “Só assim teremos condições legais para agir
contra essa apropriação indevidaâ€, afirmou.
O dirigente está preocupado
com a situação. Precisa, porém, dos amparos legais para mobilizar tanto a
Marinha como a PolÃcia Federal, que necessitam de comprovação do ato criminoso
para promover uma operação na foz dos rios de toda a região amazônica próxima ao
Oceano Atlântico. “Tenho ouvido comentários neste sentido, mas ainda nada foi
formalizadoâ€, observa.
Ãguas amazônicas
Segundo
Farfan, o tráfico pode ter ligações diretas com empresas multinacionais,
pesquisadores estrangeiros autônomos ou missões religiosas internacionais.
Também lembra que até agora nem mesmo com o Sistema de Vigilância da Amazônia
(Sivam) foi possÃvel conter os contrabandos e a interferência externa dentro da
região.
A hidropirataria também é conhecida dos pesquisadores da
Petrobrás e de órgãos públicos estaduais do Amazonas. A informação deste novo
crime chegou, de maneira não oficial, ao Instituto de Proteção Ambiental do
Amazonas (IPAAM), órgão do governo local. “Uma mobilização até o local seria
extremamente dispendiosa e necessitarÃamos do auxÃlio tanto de outros órgãos
como da comunidade para coibir essa práticaâ€, reafirmou Ivo Brasil.
A
captação é feita pelos petroleiros na foz do rio ou já dentro do curso de água
doce. Somente o local do deságüe do Amazonas no Atlântico tem 320 km de extensão
e fica dentro do território do Amapá. Neste lugar, a profundidade média é em
torno de 50 m, o que suportaria o trânsito de um grande navio cargueiro. O
contrabando é facilitado pela ausência de fiscalização na área.
Essa
água, apesar de conter uma gama residual imensa e a maior parte de origem
mineral, pode ser facilmente tratada. Para empresas engarrafadoras, tanto da
Europa como do Oriente Médio, trabalhar com essa água mesmo no estado bruto
representaria uma grande economia. O custo por litro tratado seria muito
inferior aos processos de dessalinizar águas subterrâneas ou oceânicas. Além de
livrar-se do pagamento das altas taxas de utilização das águas de superfÃcie
existentes, principalmente, dos rios europeus. Abaixo, alguns trechos da
reportagem de Erick Von Farfan:
O diretor de operações da empresa Ãguas
do Amazonas, o engenheiro Paulo Edgard Fiamenghi, trata as águas do Rio Negro,
que abastece Manaus, por processos convencionais. E reconhece que esse
procedimento seria de baixo custo para paÃses com grandes dificuldades em obter
água potável. “Levar água para se tratar no processo convencional é muito mais
barato que o tratamento por osmose reversaâ€, comenta.
O avanço sobre as
reservas hÃdricas do maior complexo ambiental do mundo, segundo os
especialistas, pode ser o começo de um processo desastroso para a Amazônia. E
isto surge num momento crÃtico, cujos esforços estão concentrados em reduzir a
destruição da flora e da fauna, abrandando também a pressão internacional pela
conservação dos ecossistemas locais.
Entretanto, no meio cientÃfico
ninguém poderia supor que o manancial hÃdrico seria a próxima vÃtima da
pirataria ambiental. Porém os pesquisadores brasileiros questionam o real
interesse em se levar as águas amazônicas para outros continentes. O que suscita
novamente o maior drama amazônico, o roubo de seus organismos vivos. “Podem
estar levando água, peixes ou outras espécies e isto envolve diretamente a
soberania dos paÃses na regiãoâ€, argumentou Martini.
A mesma linha de
raciocÃnio é utilizada pelo professor do Departamento de Hidráulica e Saneamento
da Universidade Federal do Paraná, Ary Haro. Para ele, o simples roubo de água
doce está longe de ser vantajoso no aspecto econômico. “Como ainda é
desconhecido, só podemos formular teorias e uma delas pode estar ligada ao
contrabando de peixes ou mesmo de microorganismosâ€, observou.
Essa
suposição também é tida como algo possÃvel para Fiamenghi, pois o volume levado
na nova modalidade, denominada “hidropirataria†seria relativamente pequeno. Um
navio petroleiro armazenaria o equivalente a meio dia de água utilizada pela
cidade de Manaus, de 1,5 milhão de habitantes. “Desconheço esse caso, mas
podemos estar diante de outros interesses além de se levar apenas água doceâ€,
comentou.
Segundo o pesquisador do Inpe, a saturação dos recursos
hÃdricos utilizáveis vem numa progressão mundial e a Amazônia é considerada a
grande reserva do Planeta para os próximos mil anos. Pelos seus cálculos, 12% da
água doce de superfÃcie se encontram no território amazônico. “Essa é uma
estimativa extremamente conservadora, há os que defendem 26% como o número mais
precisoâ€, explicou.
Em todo o Planeta, dois terços são ocupados por
oceanos, mares e rios. Porém, somente 3% desse volume são de água doce. Um
Ãndice baixo, que se torna ainda menor se for excluÃdo o percentual encontrado
no estado sólido, como nas geleiras polares e nos cumes das grandes
cordilheiras. Contando ainda com as águas subterrâneas. Atualmente, na
superfÃcie do Planeta, a água em estado lÃquido, representa menos de 1% deste
total disponÃvel.
A previsão é que num perÃodo entre 100 e 150 anos, as
guerras sejam motivadas pela detenção dos recursos hÃdricos utilizáveis no
consumo humano e em suas diversas atividades, com a agricultura. Muito disto se
daria pela quebra dos regimes de chuvas, causada pelo aquecimento global. Isto
alteraria profundamente o cenário hidrológico mundial, trazendo estiagem mais
longas, menores Ãndices pluviométricos, além do degelo das reservas polares e
das neves permanentes.
Sob esse aspecto, a Amazônia se transforma num
local estratégico. Muito devido à s suas caracterÃsticas particulares, como o
fato de ser a maior bacia existente na Terra e deter a mais complexa rede
hidrográfica do planeta, com mais de mil afluentes. Diante deste quadro, a
conclusão é óbvia: a sobrevivência da biodiversidade mundial passa pela
preservação desta reserva.
Mas a importância deste reduto natural poderá
ser, num futuro próximo, sinônimo de riscos à soberania dos territórios
panamazônicos. O que significa dizer que o Brasil seria um alvo prioritário numa
eventual tentativa de se internacionalizar esses recursos, como já ocorre no
caso das patentes de produtos derivados de espécies amazônicas. Pois 63,88% das
águas que formam o rio se encontram dentro dos limites nacionais.
Esse
potencial conflito é algo que projetos como o Sistema de Vigilância da Amazônia
procuram minimizar. Outro aspecto a ser contornado é a falta de monitoramento da
foz do rio. A cobertura de nuvens em toda Amazônia é intensa e os satélites de
sensoriamento remoto não conseguem obter imagens do local. Já os satélites de
captação de imagens via radar, que conseguiriam furar o bloqueio das nuvens e
detectar os navios, estão operando mais ao norte.
As águas amazônicas
representam 68% de todo volume hÃdrico existente no Brasil. E sua importância
para o futuro da humanidade é fundamental. Entre 1970 e 1995 a quantidade de
água disponÃvel para cada habitante do mundo caiu 37% em todo mundo, e
atualmente cerca de 1,4 bilhão de pessoas não têm acesso a água limpa. Segundo a
Water World Vision, somente o Rio Amazonas e o Congo podem ser qualificados como
limpos.
(Envolverde/Agência Amazônia)
|